por Amanda Rigamonti

Roberto Piva, poeta paulistano sempre lembrado por sua originalidade, completaria 80 anos neste 25 de setembro. O autor foi publicado pela primeira vez na Antologia dos Novíssimos (1961) e ganhou grande notoriedade já com seu primeiro livro, Paranoia (1963), que reúne poemas seus com fotografias do artista plástico Wesley Duke Lee.

Celebrado como uma das vozes mais originais da poesia paulistana, sua trajetória é retratada, junto com a de Claudio Willer, Antonio Fernando de Franceschi e Roberto Bicelli, no livro Os Dentes da Memória (2011), das jornalistas Renata D’Elia e Camila Hungria. Resultado de quatro anos de pesquisa e entrevistas feitas com 40 pessoas diferentes – entre elas os próprios retratados da publicação –, o livro apresenta uma atmosfera de conversa entre os personagens. “A gente recortou essas entrevistas como se fosse um documentário, então é um livro de fonte direta”, conta Renata. “Elas se transformaram numa polifonia, é como se todos eles estivessem sentados numa sala contando a história, um vai falando, o outro corta, o outro levanta... É essa a dinâmica do livro, só que eles foram entrevistados individualmente.”

Os Dentes da Memória teve início no fascínio de Renata D’Elia por Roberto Piva ao ver, na TV Cultura, sua imagem em cima do Banespão numa homenagem ao aniversário de São Paulo. Ali, ele recitava alguns de seus poemas, e a jornalista conta que alguns versos ficaram já em sua cabeça – e a própria figura física do poeta chamou sua atenção: muito forte com uma voz bem poderosa. Foi então que veio a decisão que culminou, anos depois, no livro. “Eu pensei ‘O que eu vou fazer a partir de agora é, em primeiro lugar, ler tudo dele, descobrir tudo a respeito dele, e depois vou atrás dele porque eu quero entrevistá-lo', e foi exatamente o que eu fiz”, relembra.

Na conversa a seguir, a autora descreve todo o processo de pesquisa e entrevistas até chegar ao trabalho final e revela o mundo particular do Piva que conheceu, já nos últimos anos de vida do poeta.

O que despertou seu interesse por Roberto Piva e sua produção?
Eu tinha 20 anos quando ouvi falar pela primeira vez do Piva, e foi em uma matéria da TV Cultura. Era aniversário de São Paulo e eu estava cursando jornalismo, e colocaram o Piva em uma reportagem, aproveitando o gancho do aniversário da cidade, naquela cobertura do Banespão, que é um dos prédios mais altos do Centro, e ele lia alguns de seus poemas. Alguns versos dele ficaram na minha cabeça e eu parei o que estava fazendo e comecei a assistir à matéria. Fiquei um pouco fascinada com a figura física dele, porque ele tinha uma presença um bocado magnética. Ele já tinha Parkinson, tremia bastante, mas tinha uma voz bem poderosa e era um cara bem forte. Aí eu pensei “O que eu vou fazer a partir de agora é, em primeiro lugar, ler tudo dele, descobrir tudo a respeito dele, e depois vou atrás dele porque eu quero entrevistá-lo”, e foi exatamente o que eu fiz. Eu comprei todos os livros disponíveis e já conhecia alguma coisa de geração beat norte-americana, dos surrealistas franceses, da tradição maldita, digamos assim, da poesia de uma maneira geral, e me aprofundei nisso também.

vocês estão cegos graças ao temor
olhares mortos sugando-me o sangue
não serei vossa sobremesa nesta curta
temporada no inferno
eu quero que seus rostos cantem
eu quero que seus corações explodam em
línguas de fogo
meu silêncio é um galope de búfalos
meu amor cometa nômade de
riso indomável
façam seus orifícios cantarem o hino
à estrela da manhã
torres & cabanas onde foi flechado o
arco-íris
eu abandonei o passado a esperança
a memória o vazio da década de 70
sou um navio lançado ao
alto-mar das futuras
combinações

[Roberto Piva em 20 Poemas com Brócoli (Massao Ohno e Roswitha Kempf Editores, 1981)]*

Como foi sua primeira entrevista com ele, publicada em 2007 no Cronópios?
Eu ainda era estudante de jornalismo e fiz essa entrevista com a Paula Dume. Eu liguei com a maior cara de pau para ele e falei “Oi, eu queria falar com o Roberto”, e ele respondeu “Olha, eu não sei quem está falando, mas eu espero que não seja a minha mãe de volta do cemitério, porque ninguém me chama de Roberto, só ela, que já morreu!”, aí eu fiquei muito sem graça, mas comecei a rir do outro lado da linha, me apresentei e falei que lia a poesia dele e queria entrevistá-lo, e ele topou e me disse para ir a sua casa. Ele morava na Santa Cecília [em São Paulo/SP], em um apartamento pequeno e abarrotado de livros, que caíam em cima da gente, e era sempre uma descoberta – para cada canto que você olhava, encontrava livros com temas diferentes, profundamente cultos e raros, coisas raras que ele lia, em outros idiomas, de poesia e de outros temas, misticismo, uma série de coisas de que ele gostava.

Aí eu fui fazendo as 20 perguntas que tinha preparado e em 20 minutos ele respondeu a todas! Ele respondia muito rápido, era lacônico, e você perguntava uma coisa, ele respondia outra... Eram perguntas bem desafiadoras e as respostas dele eram um pouco manifesto, um pouco filosofia e um pouco poesia. Aí eu não tinha mais o que perguntar e precisava fazer render aquele momento e a entrevista, e também fui ficando mais à vontade com ele e perguntando sobre tudo. Caía um livro em cima de mim, porque era bem essa a situação, eu perguntava daquele livro. Um exercício de entrevista bem difícil. Nós publicamos e a Camila Hungria, que estudava comigo e é a coautora do livro, adorou a entrevista e tivemos a ideia de fazer nosso TCC [trabalho de conclusão de curso] sobre ele, mas não só sobre ele, e sim sobre a geração inteira, sobre o grupo de poetas mais próximos dele ali. Então nosso TCC, que era um livro-reportagem, foi o que veio a se tornar Os Dentes da Memória. A sequência foi essa. Ao todo, com o Piva, a gente aproveitou essa entrevista no livro, mas fizemos mais três entrevistas com ele.

O que chama atenção no Piva é que todas as entrevistas dele eram as mais curtas; as outras demoravam três horas, e as dele de 15 a 20 minutos. E para dar entrevista o Piva tinha certas exigências, e isso era já um hábito dele. Como não tinha carro e tinha algumas dificuldades financeiras, ele topava dar a entrevista, mas tínhamos de ir a Jarinu ou à Serra da Cantareira ou ao Jardim Botânico... Qualquer lugar que tivesse um matinho! A gente almoçava por lá e fazia um pequeno ritual xamânico, e era isso [risos]. A gente tinha de buscar o Piva na casa dele na hora em que ele queria e o levava para algum desses lugares, que cá para nós não é o meio da selva, mas ele – que era poeta e estudava xamanismo – enxergava outra coisa, outro mundo, um mundo muito mais interessante, xamânico e selvagem de fato. Aí ele tinha de comer, tomava uma cerveja Heineken, depois tirava um cochilo debaixo da árvore – e a gente lá, esperando.

Os Dentes da Memória foi construído como?
O livro é o resultado dessas mais de 60 entrevistas que foram feitas com 40 personagens diferentes, sendo que os quatro personagens principais – Piva, Willer, Franceschi e Bicelli – deram mais entrevistas, é claro, e a história se centraliza neles, não somente no Piva, embora obviamente ele tenha um destaque, até porque era o poeta mais lido e celebrado deles ainda. O processo todo, para ter uma ideia, demorou uns quatro anos. A gente recortou essas entrevistas como se fosse um documentário, então é um livro de fonte direta. Elas se transformaram numa polifonia, é como se todos eles estivessem sentados numa sala contando a história, um vai falando, o outro corta, o outro levanta... É essa a dinâmica do livro, só que eles foram entrevistados individualmente, em momentos diferentes. E é uma história de 50 anos, conta toda a trajetória deles de grupo, e por isso acaba perpassando outros personagens, como o Jorge Mautner, o pessoal das artes plásticas de São Paulo, e vai passando dos anos 1960 até os dias de hoje.

A gente não narra nada, não é nem a nossa visão, digamos assim. Nós procuramos ser muito neutras, inclusive, para conseguir montar esse panorama e essa polifonia. O único capítulo narrativo é o final, que tivemos de fazer porque o livro estava pronto, mas o Piva ficou doente e acabou morrendo, então a gente se sentiu na obrigação de dar um desfecho à história após a morte dele. Contamos o nosso último encontro com o Piva, já no HC [Hospital das Clínicas], internado, e como se deram as coisas, o que aconteceu depois... É um desfecho, porque era necessário. Ali já não cabia mais fazer polifonia nem entrevistar os outros, a gente já tinha participado o suficiente da história e achou melhor finalizar dessa maneira.

Eu estou farto de muita
coisa
não me transformarei
em subúrbio
não serei uma válvula sonora
não serei paz
eu quero a destruição
de tudo que é frágil:
cristãos fábricas palácios
juízes patrões e operários
uma noite destruída cobre os dois sexos
minha alma sapateia feito louca
um tiro de máuser atravessa o
tímpano de
duas centopéias
o universo é cuspido pelo cu
sangrento
de um Deus-Cadela
as vísceras se comovem
eu preciso dissipar o encanto do meu velho
esqueleto
eu preciso esquecer que existo
mariposas perfuram o céu de cimento
eu me entrincheiro no Arco-Íris
Ah voltar de novo à janela
perder o olhar nos telhados
como
se fossem o Universo
o girassol de Oscar Wilde
entardece sobre os tetos
eu preciso partir um dia para muito longe
o mundo exterior tem pressa demais para mim
São Paulo e a Rússia não podem parar
quando eu ia ao colégio Deus tapava os ouvidos para mim?

[Roberto Piva em "Poema porrada". In: Paranoia (Massao Ohno Editor, 1963)]*

Por que a produção de Piva é tão marcante e sempre lembrada como original?
Eu acho que, diferentemente de muitos, o Piva não é um imitador. Ele conseguiu sintetizar na própria poesia referências tão cultas quanto malditas, rebeldes... Como a geração beat, o surrealismo francês, o futurismo russo. O Piva leu muito Dante Alighieri, estudou por dois anos a obra do Dante no consulado da Itália em São Paulo, então imagine uma pessoa que ao mesmo tempo é extremamente culta, rebelde, é um poeta, mas um poeta que não faz um pastiche daquilo que ele consome. Ele cria uma voz própria, em língua portuguesa, e dialoga de igual para igual com esses caras. E ele tem essa característica, não acho Piva menor ou uma mera ressonância do que ele leu.

O segundo ponto que o torna tão original é que ele não separa poesia da vida; vida e poesia são a mesma coisa para ele. É por isso que a questão biográfica dele é tão importante. Ele escreve aquilo que vive – e enxerga além. Tem uma visão que vai muito além do que é simples. E é uma personalidade muito complexa, era um cara muito complexo. Ele não tem paralelo mesmo, é muito difícil encontrar um paralelo com ele, hoje, no Brasil.

Qual é a importância da obra dele nos dias atuais e com os debates atuais?
O Piva tinha uma máxima que ele gostava de usar: "Todo poeta é marginal desde que foi expulso da república de Platão". E ele aproveitava e usava outra frase, do Octavio Paz, poeta mexicano, que é “A poesia é uma arte minoritária”. Então, primeiro que para ser poeta você não vai ser entendido por todo mundo, você vai ser entendido por poucos. No caso dele, que era uma personalidade muito complexa e com muitas referências que não foram trabalhadas no Brasil, ou mesmo se você pegar a leitura que ele faz de poetas modernistas brasileiros, como Murilo Mendes e Jorge Lima, é uma coisa totalmente diferenciada e muito mais complexa do que nós estamos acostumados a ver.

Se você pegar os lançamentos de poesia no mercado editorial hoje, por exemplo, há pouquíssimas coisas que se assemelham ao Piva, mas o principal é que, nessa complexidade toda dele, ele era um rebelde, um anarquista, e não se enquadraria de jeito nenhum no mundo de hoje. Ele continuaria sem enquadramento nenhum. Uma das características dele é ser um cara que brigou com a esquerda e brigou com a direita porque viu forças opressoras nas duas, um moralismo muito grande de ambas as partes. Ele, hoje em dia, neste ambiente político extremamente polarizado, era capaz de estar apanhando a depender do que dissesse.

Outra coisa é que o Piva era muito ligado ao [Pier Paolo] Pasolini, chegou a dar curso sobre ele. E, se você pegar o Pasolini, a grande crítica dele é a sociedade de consumo, a sociedade capitalista, e tanto o Piva quanto o Pasolini não acreditavam na visão do gay integrado, gay família tradicional – o barato deles não era a história do “Vamos casar, vamos nos integrar, vamos casar pra igreja católica nos querer”, sabe? Eles não são Parada Gay. O Piva achava a Parada Gay uma coisa capitalista, ele dizia que “o homossexual é aceito quando se veste de heterossexual e quando mostra o cartão de crédito”, o que não tem nada a ver com ele.

eu sou o jet-set do amor maldito
DENTRO DA NOITE & SUAS CÓLICAS ILUMINADAS
os papagaios da morte com Aristóteles na proa do trovão
DISPOSIÇÃO DE IR À DERIVA NOS DADOS DO AMOR
espinafre pela manhã & queijo em pasta
almas-esportivas com flores entre os dentes
minha laranja se abrindo como uma porta
TUA VOZ É ETERNA eu vejo a mão cinzenta rasgar
a parede do mundo
ESTAMOS DEFINITIVAMENTE NA VIDA

[Roberto Piva em Abra o olhos e diga ah! (Massao Ohno, 1975)]*

Qual é a principal contribuição dele para São Paulo?
Na verdade eu não acredito que ele contribuiu para São Paulo. Ele dizia havia muitos anos que queria ir embora da cidade, que não aguentava mais, que detestava, e a obra dele saiu de São Paulo e começou a enveredar para as periferias. Fazendo uma divisão grosseira, a obra dele foi: nos anos 1960, bem São Paulo; nos anos 1970, bem Parque do Ibirapuera e depois a periferia; e, dos anos 1980 para cá, especialmente nos anos 1990, com os dois últimos livros que saíram pela Editora Globo, Ciclones [1997] e Estranhos Sinais de Saturno: Obras Reunidas, Volume 3 [2008], ele já está um poeta místico, conversando com grandes poetas místicos, e está xamânico, indo para o mato, para a praia... Ele já não está muito em São Paulo, e na verdade eu acho que ele só não saiu da cidade porque não tinha dinheiro e não tinha como, mas ele tinha esse desespero de querer ir para um matinho.

Ele é identificado com São Paulo, óbvio, e morreu aqui. No entanto, o grande paradoxo é que ele morreu detestando a cidade. Ele tem uma obra-prima de cara, Paranoia [1963], que é muito São Paulo e o que ela virou hoje, porque ele narra uma cidade meio sonho, meio pesadelo. Então, eu acho que ele leu a cidade e previu o que ela se tornaria, mas não que ele curtisse muito essa ideia de ser meio símbolo de São Paulo.

Como se deu o processo de criação da Biblioteca Roberto Piva?
Após a morte do Piva, o Gabriel Kolyniak, que foi também um amigo do Piva, entrou em contato com o Gustavo Benini, que é o herdeiro legal e havia ficado com mais de 5 mil livros da biblioteca pessoal do Piva, além de fotos, manuscritos, coisas raras que ele escreveu, obras de arte, um monte de coisa. Então eles se juntaram também com Claudio Willer e Roberto Bicelli, companheiros de geração do Piva, para dar um destino a esses livros. Eles resolveram fazer isso sozinhos e fizeram uma campanha no Catarse em 2016, com a qual arrecadaram parcialmente o que precisavam e colocaram/catalogaram os livros num prédio no Centro de São Paulo – a Biblioteca Roberto Piva.

Os livros estão lá, existem visitas guiadas e tudo mais, e por enquanto a biblioteca aceita doações de pessoas físicas. O Gabriel já está produzindo magazines, informativos e, inclusive, lançou a partir dessa pesquisa alguns poemas raros e esparsos do Piva em novas edições, então existem livros novos do Piva, pós-morte. E a biblioteca é um mundo, é uma coisa que vai desde ciências da religião até filosofia – o Piva era um profundo conhecedor de filosofia –, tem também jazz e poesia, óbvio! É muito louco andar naquele lugar, é bem interessante e tem muita referência!

*Os trechos destacados de obras de Roberto Piva são alguns dos apontados por Renata D'Elia como os favoritos dela.

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