obra: Experimentos em Animação
selecionado: João Angelini

“Artista plástico, pesquisador e também pandeirista de uma banda de hardcore.” Essa é a primeira frase que aparece no currículo de João Angelini e resume a atuação deste profissional criado em um casarão na cidade de Planaltina (DF). Filho de uma arquiteta e de um médico nada ortodoxo, ele conta que cresceu em um ambiente lúdico e de muita liberdade, o que garantiu desde cedo a sua aproximação à arte.

Quando criança, João já demonstrava interesse pela imagem em movimento, e isso acabou se tornando o foco de seu trabalho. Como desdobramento dessa investigação, o artista desenvolve “vídeos, animações, fotografias, gravuras, performances e brinquedos”, segundo descreve na segunda frase de seu currículo.

Experimentos em Animação, de João AngeliniExperimentos em Animação, de João AngeliniExperimentos em Animação, de João AngeliniExperimentos em Animação, de João Angelini

Assim como a tinta na pintura, João Angelini começou a refletir sobre o que seria a “matéria” na imagem em movimento. Voltou à animação e aos flip books que desenvolvia na infância, e chegou à conclusão de que as imagens sequenciais congeladas representam esse suporte.

Pesquisando autores que abordam o tema, ele encontrou o livro de Marina Estela Graça, Entre o Olhar e o Gesto: Elementos para uma Poética da Imagem Animada. “Ela diz que o animador acessa o que seria essa menor unidade da imagem em movimento ao manipular quadro a quadro. Só que, na hora em que ele apresenta ao público, retoma o processo de ilusão, de representação. Ele não apresenta esse corpo, essa estrutura”, pontua.

A sua proposta é justamente revelar e manipular isso. “Percebo que o desenvolvimento tecnológico distanciou um pouco o artista da ‘matéria’ da imagem em movimento. Proponho uma postura diferente ao manipulá-la e na maneira de utilizá-la: apresentando-a e não escondendo”, frisa.

É dessa forma que nasce, ainda no fim de sua graduação em artes plásticas na Universidade de Brasília, a ideia do Experimentos em Animação, que se tornaria posteriormente o seu mestrado em Arte e Tecnologia, também na UnB. Ele conseguiu uma bolsa da Funarte para dar início à pesquisa e agora aprofunda o trabalho com o projeto apresentado ao Rumos.

Experimentos em Animação consiste em uma série de pesquisas poéticas, tecnológicas e de linguagem que exploram as possibilidades na construção de trabalhos artísticos através da manipulação, experimentação, exposição e alteração do que considero ser a matéria da imagem em movimento ou sua menor unidade: as imagens sequenciais congeladas”, explica.

Em 2007, de forma bastante experimental, João desenvolveu o filme LER, que se tornou o carro-chefe de sua pesquisa e, dois anos depois, foi premiado no Anima Mundi. Fato que, ao lado de outros destaques da sua carreira, não foi esquecido no currículo. “Pela diversidade da produção, tem seus trabalhos publicados regularmente em eventos de diferentes meios institucionais, como cinema, teatro, shows de rock e galerias de arte. Suas premiações têm a mesma diversidade: festival Anima Mundi 2009 (Júri Popular/SP), Bolsa Funarte de Produção 2010, Arte Pará 2012 e até um festival universitário de música em 2008, com a banda de hardcore Gilbertos Come Bacon.”

Performance

Em 2007, mesmo ano em que desenvolveu o LER, no entanto, João desistiu, ainda que momentaneamente, de se relacionar com a arte de forma profissional. “Tive muito contato com processos de seleção e premiação e aí você vai percebendo como as coisas operam, os tipos de valores existentes. Ah... sei lá, o lado romântico morre um pouco [...] Isso me chateou muito e resolvi que não queria mais me relacionar profissionalmente com arte”, desabafa.

Foi nesse momento que surgiu o grupo EmpreZa, de Goiânia. Convidado para atuar em alguns projetos com o coletivo, João se interessou pelo trabalho performático realizado e, em pouco tempo, já era um de seus integrantes. “O EmpreZa vai me salvar, de certa maneira, dessa intimidação que eu senti com a feiura do meio das artes. Foi legal porque eu retomei a minha produção e entendi que dá para encarar isso tudo de outra maneira”, pontua.

João Angelini também é cofundador do coletivo TrêsPe, de Brasília. O grupo nasceu nas salas de aula da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, onde ele atua como professor e de onde recebe apoio para o desenvolvimento de sua pesquisa.

Para as turmas de primeiro ano, João sempre costuma levar um artista. As alunas Marcela Campos e Ana Mi ficaram completamente encantadas com a apresentação de Shima e, inspiradas por ele, criaram o Programa de Pesquisa e Performance (TrêsPe), que em um ano conseguiu realizar duas mostras individuais e conquistou dois prêmios nacionais. “O TrêsPe me emociona demais”, salienta.

Nesse currículo destrinchado, só falta falar sobre a sua atuação na banda de hardcore. Formada apenas por artistas plásticos, as atividades da Gilbertos Come Bacon estão paradas há algum tempo, para o lamento de João. “Era bem divertido, brincadeira boa.”