obra: Jardim de Passagem
selecionado: Teresa Siewerdt

Parece apenas mais um panfleto entre os muitos que anunciam um novo imóvel à venda na cidade de São Paulo. Em letras garrafais, a frase “UM LUGAR PARA SONHAR” quase nos convence de que se trata mesmo de uma propaganda comum. Há algo, porém, estranho. “Jardim Parasita” não soa como um nome atraente para um empreendimento imobiliário. Ao olhar a imagem do prédio – uma estrutura de concreto repleta de plantas –, a impressão se confirma. Não se trata de mera publicidade do projeto urbano da Sie & Werdt. É, na verdade, uma performance de Teresa Siewerdt.

Teresa Siewerdt pretende discutir em seus trabalhos a especulação imobiliária e a ocupação dos espaços públicosPerformance Jardim de Passagem sendo realizada dentro de ônibus em Joinville (SC)Performers atuando em Jardim de Passagem, de Teresa Siewerdt

“Eu me aproprio dessa linguagem publicitária dos estandes de vendas de imóveis, mas eu não estou vendendo algo que vai gerar lucro nem nada. Eu estou vendendo uma ideia de ruína tomada pela vegetação selvagem no meio da cidade”, revela a artista plástica. A intervenção realizada por ela em agosto de 2014 propunha a criação de um jardim em uma construção abandonada há mais de 30 anos no bairro da Liberdade.

O objetivo? Refletir sobre a especulação imobiliária e a ocupação dos espaços públicos. Como parte da proposta, foi criado um site.

Performance, natureza, cidade são os focos do trabalho de Teresa e temas da sua tese de mestrado em poéticas visuais pela Universidade de São Paulo (USP). Natural de Rio do Sul (SC), a artista morou a maior parte de sua vida em Florianópolis, lugar onde a vegetação ainda se mostra de forma exuberante. Por isso, a artista se impressionou com a falta de verde na capital paulista e começou a pensar em formas de inserir a natureza no espaço urbano.

Já o interesse pela performance surgiu logo no início da graduação em artes plásticas, ainda em Florianópolis, na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). Na visão dela, a linguagem, especialmente quando aplicada nos meios urbanos, permite uma produção artística que se mistura com a vida, com o cotidiano das pessoas.

“Interessei-me pela possibilidade de confundir arte e vida, comecei a trabalhar com performance, fotografia, vídeo, intervenções urbanas. Descobri que poderia fazer arte com e a partir de qualquer coisa”, frisa.

Assim como Jardim Parasita, o seu novo trabalho, Jardim de Passagem, selecionado pelo Rumos, é fruto dessa união de interesses entre performance, natureza e cidade. Desta vez, a especulação imobiliária cede lugar ao transporte público. Para Teresa, os meios de locomoção, como ônibus, trem e metrô, se caracterizam por um momento de transição, de expectativa. “É quase um não lugar”, pontua. E o comportamento das pessoas nesse espaço – mexendo no celular, conversando ou muitas vezes perdidas na sua própria imaginação – foi o que a deixou intrigada e a levou a idealizar a intervenção artística.

A performance será realizada em uma linha do metrô de São Paulo no início de 2015. Em cada uma das estações, em horário determinado, um ou dois performers permanecem a postos com um vaso de planta nas mãos. O primeiro performer embarca na primeira estação da linha e sucessivamente os demais irão embarcando no mesmo vagão. Com isso, a composição será tomada por um “jardim impossível” e “subterrâneo”.

“A ideia é produzir um hiato poético nesses lugares do dia a dia das cidades. Jardim de Passagem gera uma espécie de curto-circuito no cotidiano das pessoas que usam o meio de transporte urbano, pegando-as desprevenidas e arrancando-as de um estado de automatismo e individualismo”, explica.

Teresa conta que, em Joinville (SC), onde o projeto já foi realizado em linhas de ônibus e em escala menor, a reação da maior parte dos passageiros foi marcada por risos. “Em Jardim de Passagem, a realidade é revestida por uma aura de sonho e fantasia”, conclui