obra: Precisa-se do Presente
selecionado: Berna Reale

Foi por causa da necessidade de fazer parte, de estar presente integralmente nas imagens que cria, que a artista Berna Reale começou a fazer performance, lá em 2009. Escancarar, discutir a violência é o que move seu trabalho até hoje. Embora este seja um assunto universal, sua obra sempre partiu de um olhar local: Belém (PA), região amazônica, lugar em que nasceu, foi criada e vive até hoje.

Performance A Morte, de 2012

“Estar no ninho”, porém, passou a provocar em Berna, em alguns momentos, uma sensação de aprisionamento. Ainda que ela conseguisse criar cenários artificiais ou espaços que simulassem o que desejava retratar – a exemplo da performance Os Jardins Pensus da América, de 2012 –, a artista passou a sentir necessidade de mudar, recomeçar o processo criativo e produtivo, inverter a lógica do que ela vinha realizando até então, sair da zona de conforto. Nesse contexto, surgiu o projeto Precisa-se do Presente, selecionado pelo Rumos.

Performance A Morte, de 2012

 

“Estar fora de casa hoje é meu grande interesse. Quero poder estar em países que me digam muito e dos quais quase nada conheço, a não ser pelos meios de comunicação que me apresentam a imagem que decidem, no ângulo que lhes é mais conveniente”, justifica.

Os locais escolhidos são os quatro países que, junto com o Brasil, formam os Brics: Rússia, Índia, China e África do Sul. “Na prática, iriei fotografar e ser fotografada nesses lugares, e depois voltar para Belém, confeccionar o figurino e me refotografar, realizando uma montagem digital formada pela imagem original, na qual apareço em escala e pela imagem criada em Belém, na qual estarei com o figurino e a composição pensados para aquela situação específica”, descreve.

A violência continua sendo o mote desse novo projeto em temas como exploração do trabalho, a questão racial e social e os abusos contra mulheres. “Cada nação será representada por imagens potentes, emblemáticas, porém não comuns, não genéricas. Buscarei encontrar paisagens singulares, que criem a dúvida de onde são, como foram fotografadas e, ao mesmo tempo, permitam identificar de alguma forma aquele espaço estrangeiro”, pontua.

Outra novidade é o destaque do papel do curador, que irá atuar com ela em todo o processo criativo. “O papel do curador aqui não será de oferecer prescrições ou fornecer regras, mas, sim, de dialogar com e auxiliar no – conceitual e praticamente – desenvolvimento desta nova forma de pensar a produção dos trabalhos”, revela.

Toda a obra deverá ser registrada e divulgada por meio de um blog, de vídeos no YouTube e pelo Facebook.

Precisa-se do Presente é um sonho que o Rumos vai me ajudar a realizar. Com ele vou sair do Brasil e conhecer um pouco do mundo, tudo que sempre sonhei e que para um artista que fala dele é essencial”, conta.

Perita criminal

Além de artista, Berna Reale também atua como perita criminal no Centro de Perícias Científicas do Estado do Pará. O trabalho surgiu já depois que ela estava envolvida com o universo artístico. “Não é fácil levar as duas profissões, ambas exigem muito de você, psicológica e fisicamente, mas é como ter dois filhos: impossível não criar, já que vieram como um presente. Mesmo diferentes, vindos em momentos diferentes, os dois trabalhos e os dois filhos tomam a mesma dedicação e lhe pedem o mesmo amor. Como não fazê-lo?”, declara.

Ao longo de sua carreira como performer, Berna conta que o maior desafio que viveu foi estar “muito sem dinheiro” e ser uma artista desconhecida no Brasil. “Este foi o meu maior problema por muitos e muitos anos nesta longe Amazônia. O que fiz para superá-lo? Trabalhei e acreditei no que fazia”, destaca.

Berna Reale aponta como um dos momentos mais marcantes de sua trajetória a seleção no Rumos de 2012, com a série Retratos. Foi a partir daí que ela conquistou o cenário nacional. A artista já participou de diversas exposições individuais e coletivas no Brasil e na Europa e ganhou, entre outros, o Prêmio Pipa Online 2012.