obra: Burla: Divergências, Contrastes e Outros Carnavais
selecionado: Giorgia Conceição

 

Burlar o sentido usual das coisas. Esse é um dos objetivos do projeto idealizado por Giorgia Conceição, conhecida como Miss G. Com base em uma parceria da artista com duas performers burlescas de Nova York – Dirty Martini e Julie Atlas Muz –, o trabalho pretende difundir a arte burlesca no Brasil e quebrar os estereótipos que a associam a mulheres com roupas vintage, plumas e lingerie.

Giorgia conta que decidiu iniciar o projeto quando, em 2013, participou de uma oficina no Rio de Janeiro com Julie e seu marido, Mat Fraser. Ao término do curso, Julie elogiou Miss G e disse “Se não existe burlesco no Brasil, faça acontecer!”. Então, Giorgia criou seus números e chamou as duas atrizes para participar do trabalho.

Burla contempla três etapas: uma residência em Nova York, o espetáculo Carne de Segunda: Burlesque Meat Show e um filme documental, ainda em produção. Para começar o processo e a pesquisa, Giorgia passou um mês na cidade estadunidense, compartilhando técnicas e experiências com Dirty e Julie e montando o espetáculo, que ela roteirizou e dirigiu.

Sobre a peça Giorgia diz: “o nome Carne de Segunda foi escolhido porque tem carne mesmo! Mas também tem uma brincadeira, já que a mulher é muitas vezes associada com carne, apenas. Então é uma ironia”. Segundo a atriz, existe a referência ao barato, uma vez que nas performances burlescas geralmente os próprios artistas criam tudo, do figurino e da coreografia até a escolha da música e a montagem de palco – o que torna o show mais acessível e popular.

No espetáculo – apresentado no Teatro Rival, no Rio de Janeiro, e no Itaú Cultural, em São Paulo –, além das três artistas, participa o DJ Sandro Machintal, que executa a trilha sonora ao vivo em uma espécie de releitura contemporânea do burlesco clássico, no qual bandas de jazz musicavam in loco as apresentações. O show tem ainda uma contrarregra, que não só retira e coloca objetos no local, mas participa ativamente do enredo, e a mestra de cerimônia Aretha Sadick, drag queen carioca que anima a plateia incentivando a interação do público com as artistas.

Ainda em Carne de Segunda: Burlesque Meat Show são apresentados diferentes números das três performers, algumas vezes misturados e sempre seguindo uma linearidade que envolve o público. São números clássicos do burlesco tradicional, adaptados pelas artistas e que abordam temas como amor, programas de televisão, sacrifícios humanos, pelos pubianos, vacas em revolta, nacionalismo e bruxaria.

Apesar de a peça ser protagonizada por três mulheres, Miss G fala que é possível ter um homem no palco. No entanto, é mais comum a associação do burlesco com o feminino, graças à relação de protesto e denúncia do gênero com aqueles que recebem status de diferente na sociedade. Assim, ela aponta que o freakshow e a cena queer têm muita familiaridade com o universo burlesco, pois sua história está ligada aos que vivem na marginalidade e cujos corpos são considerados fora do padrão de “normalidade”.

Ela fala ainda sobre a questão de gênero, que define como “a construção de uma performance, não no sentido de algo que não é real, mas como algo que é feito o tempo todo”. Por isso, ressalta a importância da participação da drag queen, que apresenta a questão de outro ponto de vista feminino e reforça a ideia do gênero como algo performativo.

Atualmente o grupo trabalha na produção do filme, ainda sem nome. A ideia é reunir todo o material produzido durante a residência de Miss G com Julie e Dirty, além da experiência das nova-iorquinas no Rio de Janeiro e em São Paulo, a convivência da equipe, a montagem do espetáculo e seu resultado.