obra: Viagem Solitária
selecionado: Maria João Filmes

A história da Maria João Filmes é marcada pelo acaso e, quem diria, pela ajuda da burocracia. Alunos da Academia Internacional de Cinema, a paulista Patricia Galucci e o baiano Victor Nascimento tinham acabado de terminar de fazer o filme Irene e gostariam que a produção fosse vista por outras pessoas. “Não queríamos que ele morresse em nossas mãos”, lembra ela. Incentivados pelos professores, eles resolveram inscrever o longa em festivais.

Patricia Galucci foi até o Niterói conversar com João W. Nery, autor de Viagem Solitária

Para tal, porém, era preciso ser uma produtora oficialmente, ter um CNPJ. Foi assim, empurrados por essa necessidade, que eles tomaram a decisão de fundar a empresa. “A partir daquele momento, sabíamos que teríamos que dar um passo importante e mirar o futuro de nossas carreiras”, conta a cineasta.

A investida deu resultado. Irene, que fala da redescoberta da sexualidade na terceira idade, ganhou prêmios como no Entretodos Festival de Direitos Humanos e no Barcelona International Gay & Lesbian Film Festival, entre outros.

Passados três anos desse início ocasional, a Maria João prossegue com a mesma motivação: contar histórias. Embora a produtora faça também outros trabalhos, temas ligados às questões que envolvem a sexualidade são um de seus principais focos.

O desafio atual é adaptar para o cinema o livro autobiográfico de João W. Nery, Viagem Solitária. O autor é reconhecido como o primeiro caso de cirurgia de mudança de sexo no Brasil.

A ideia do filme surgiu quando Patricia terminava seu trabalho de conclusão de curso da faculdade e se deparou com a obra. “Eu estava desenvolvendo uma pesquisa documental sobre gênero e papéis sociais. Naquela época de mergulhar em livros, uma amiga me indicou o do João. Eu me apaixonei e fiquei impressionada com como ele conseguia dizer com facilidade o que eu estava havia um ano desenvolvendo e pesquisando”, recorda.

Com aquela ideia fixa na cabeça, assim que teve oportunidade, ela pegou o carro e foi até Niterói (RJ) conversar com João pessoalmente. “Rolou uma empatia, uma química de bate-pronto, mas ele precisava pensar com calma, pois existiam propostas de outras grandes produtoras”, lembra.

Um mês depois, exatamente no dia de seu aniversário, Patricia recebeu como presente de João a cessão de direitos pelo período de um ano para fazer o filme ganhar editais e tentar criar vida. Victor também fez parte de todo esse processo de idealização do longa.

Ainda no ano passado, a Maria João foi contemplada com um edital da Secretaria Municipal de Cultura e pôde desenvolver uma primeira versão do roteiro do longa de ficção baseado no livro. Agora, com o apoio do Rumos, o texto receberá outros tratamentos e será finalizado. Além disso, haverá o desenvolvimento do projeto para a filmagem da obra. Com isso em mãos, será a hora de Patricia e Victor batalharem por novos investidores para fazer essa história ser apresentada ao público.

Para a cineasta, o filme deve ser realizado pela importância da história e pelo papel social que João exerce no Brasil. “Ainda hoje, 30 anos depois, essas pessoas sofrem preconceito.”

Aos 63 anos e com a saúde debilitada, João Nery vem acompanhando o desenvolvimento do roteiro. “Ele está superfeliz, empolgado, não acreditava que as coisas fossem acontecer assim tão rápido”, comenta Patricia.

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