obra: Sete Estrelas do Grande Carro
selecionado: Teatro Máquina

O Teatro Máquina, de Fortaleza (CE), está preparando as malas para uma viagem um tanto quanto incerta: percorrer parte do sertão nordestino para explorar novas formas narrativas por meio de experiências com outras linguagens, como o audiovisual, a fotografia e a performance, além do texto literário.

Teatro Máquina em cena com o espetáculo O CantilTeatro Máquina foi selecionado no Rumos com o projeto Sete Estrelas do Grande Carro

O destino: as Sete Estrelas do Grande Carro. Não, não se trata das estrelas mais brilhantes da constelação Ursa Maior, mas sim de sete cidades das três regiões do Nordeste mais assoladas pela seca: Sertão dos Inhamuns, no Ceará; Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí; e Raso da Catarina, na Bahia.

De fato, os municípios do roteiro ainda não foram escolhidos, mas, independentemente dos destinos selecionados, já foram batizados pelo grupo como as Sete Estrelas que vão orientar os rumos – assim como nas navegações – dos processos criativos.

O objetivo do projeto Sete Estrelas do Grande Carro, selecionado pelo Rumos, é fazer uma imersão nessas cidades em busca de encontros, histórias, imagens, paisagens e descobertas. Com isso, o Teatro Máquina espera ser provocado em cada município para criar um experimento poético e compartilhá-lo com a população local.

Traçando a rota

A viagem criativa de Sete Estrelas do Grande Carro será dividida em três etapas. Na primeira, chamada de Preparando a Mochila, o Teatro Máquina e os cineastas Leonardo Mouramateus e Samuel Brasileiro participarão de encontros de formação abertos ao público com artistas e pesquisadores de diferentes linguagens.

A segunda, Parando para Abastecer, é a viagem em si. Em cada cidade, o grupo irá propor um momento de abertura com o público, apresentando alguma experimentação poética: um diálogo com a cidade sobre a viagem, a apresentação de um trabalho do grupo ou um convite para que todos participem da criação de algo novo.

Na última etapa, será organizado um livro com o material coletado e produzido durante a viagem.

Ponto de partida

A investigação da linguagem teatral e de novos mecanismos narrativos, presentes nos projetos do Teatro Máquina, foi o que, de certa forma, reuniu o grupo. O início dessa história foi o encontro entre a diretora Fran Teixeira e o ator e produtor Edivaldo Batista, que em 2002 trabalharam juntos no espetáculo Quanto Custa o Ferro?.

“Vi no trabalho dele um tipo de teatro que eu queria fazer: claro e ensaiado, rigoroso e artificial, objetivo e forte. Essas eram as bases do teatro que eu imaginava fazer, a partir do que me interessava no teatro épico. Naturalmente, fomos descobrindo um lugar para o desenvolvimento de formas narrativas”, relembra Fran.

Os outros integrantes surgiram à medida que os trabalhos foram produzidos. Atualmente, compõem a Máquina, além de Fran e Batista, os atores Aline Silva, Ana Luiza Rios, Joel Monteiro, Levy Mota e Loreta Dialla.

A ideia de Sete Estrelas do Grande Carro surgiu de pesquisas feitas para o último trabalho do grupo, a peça Diga que Você Está de Acordo!. Os artistas se aproximaram dos estudos de Walter Benjamin, um dos principais pensadores sobre a estética e a arte do século XX. “Ele percebe que as experiências da guerra e da fome minam a possibilidade de contar histórias. A guerra não é uma experiência que compreendemos tão bem, mas a fome está aqui do nosso lado na complexa condição árida (pela geografia e pelo descaso político) da nossa região”, afirma a diretora.

Outro pensamento de Benjamin que auxiliou no ponto de partida da jornada é o de que uma viagem é, por excelência, o momento para acumular experiências e se colocar em perigo, para refletir sobre o que se vive. “Já tínhamos pensado em fazer algo sobre o sertão, para mergulhar na questão da seca, para nos perdermos de nós mesmos em nós mesmos.”

Também nortearam esse processo registros literários de naturalistas como o viajante inglês Henry Koster – que se embrenhou no Nordeste do Brasil entre 1810 e 1813 – e a peça Descrição de uma Imagem, do dramaturgo alemão Heiner Müller, em que o sentido está mais ligado ao tratamento da imagem do que ao texto como diálogo.

Por fim, o grupo juntou a vontade de trabalhar com artistas de diferentes linguagens para desenvolver um trabalho transversal em busca de novas formas narrativas. Nesse sentido, as incertezas de Sete Estrelas do Grande Carro se resumem não apenas às cidades que fazem parte do roteiro, mas principalmente ao que o grupo vai encontrar nessa jornada. Ao colocar os pés na estrada, os artistas esperam arriscar-se em uma grande aventura cheia de experiências.