obra: Agora Eu Posso Ver [ finalização do espetáculo A Lenda do Trapezista Cego]
selecionado: Tropa Trupe

“Um pé na arte, um pé na burocracia.” Era assim que o paulistano Rodrigo Bruggemann se sentia ao exercer a profissão de artista gráfico na capital paulista. Em 2002, cansado do trabalho dentro de um escritório, resolveu espairecer em Natal (RN), para onde os pais tinham se mudado pouco tempo antes. Não voltou mais. Virou o palhaço Piruá e fundou o grupo Tropa Trupe, que estreia em 20 de setembro o seu mais novo espetáculo, A Lenda do Trapezista Cego, no espaço Casa da Ribeira.

O Palhaço Sula (Wendel Gabriel), o domador (Rodrigo Bruggemann) e o mágico Fino (Gabriel Rodriguez)Os palhaços Sula e Piruá tentam resgatar o mágico FinoOs palhaços Sula e Piruá tentam resgatar o mágico FinoPalhaço PiruáPalhaço Piruá, mágico Fino e palhaço SulaPalhaço Piruá, mágico Fino e palhaço Sula com os malabaresPalhaço Sula e mágico FinoRodrigo Bruggemann faz também o papel do domador

Tudo começou de forma bem despretensiosa e graças a um par de pernas de pau. Foi ainda em São Paulo, quando participou da companhia Baque Bolado, que Rodrigo se encantou pela possibilidade de fazer palhaçadas a mais de três metros de altura do chão. “Fui subindo e caindo, subindo e caindo, até que um dia consegui ficar em pé”, conta.

Já na capital potiguar, ele decidiu cursar educação artística. Não terminou a graduação, mas encontrou na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) um parceiro à altura de suas estripulias. Era Uilo Andrade. O palhaço Piruá ganhava a companhia de Maruim. Juntos e em cima das pernas de pau, eles saíram pelas ruas de Natal. “Começamos tirando uma onda mesmo, brincando”, comenta Rodrigo.

O que era apenas uma diversão foi tomando um rumo mais profissional. Primeiro, eles apresentavam números curtos, de 10 minutos. Teve quem gostasse e pedisse algo maior. Então, aumentaram para 30 minutos. Teve quem gostasse e pedisse para aprender. Lá foram os palhaços fabricar dez pares de pernas de pau e dar oficinas.

Em 2006, Piruá e Maruim já não estavam mais sozinhos. Eles reuniram artistas circenses e formaram a Tropa Trupe. Ao lado de outros dois grupos – a Família Marmota e o Egbé Capoeira Angola – passaram a gerir coletivamente o Teatro da Vila, em Ponta Negra. “Foi uma loucura, mas muito divertido”, relata Rodrigo.

A experiência durou um ano e foi importante para o que viria a seguir: recuperar e assumir uma lona de circo que estava abandonada na UFRN. “Diziam até que era mal assombrada. Mas ali foi o pontapé de tudo. O grupo estava maior, com 12 pessoas, e já tínhamos condições de nos organizar melhor para gerenciar o novo espaço”, conta. Foram quase quatro anos de crescimento e consolidação do trabalho. “A lona nos trouxe essa cara de circo mesmo e aguçou o nosso trabalho de pesquisa”, acrescenta.

Um dos símbolos do salto de qualidade dado pela trupe foi o espetáculo O Tempo. Depois vieram outras montagens e muitos prêmios. Em paralelo, o picadeiro era usado para a realização de oficinas de diferentes modalidades circenses e intercâmbio com outros grupos de teatro.

A lenda...

Em 2009, parte da trupe fez uma residência artística na Compañía Internacional de Comediantes Sin Pulgares, de Buenos Aires. Dois anos depois, em parceira com a UFRN, eles conseguiram trazer o diretor e fundador da companhia, Walter Velázquez, para realizar uma oficina de montagem de cenas cômicas com todos os integrantes do grupo, na capital potiguar.

É neste momento que surge a ideia de produzir A Lenda do Trapezista Cego. Sabe a lona que a Tropa Trupe tinha recuperado pouco tempo antes? A fama de “mal assombrada” não era à toa. Antes de pertencer ao grupo, ela já tinha circulado por vários municípios do Rio Grande do Norte e guardava muitos contos e causos. Um desses falava sobre a morte de um trapezista que enxergava muito pouco. Fascinados pela história e sob a direção de Velázquez, eles decidiram fazer uma livre adaptação da “lenda”.

De lá para cá, porém, aconteceram muitas coisas. O grupo teve que deixar a lona, porque ela estava muito desgastada. Com a mudança, muitos dos integrantes, inclusive Uilo Andrade, saíram da trupe. Além de Rodrigo, permaneceram Luisa Guedes, Wendel Gabriel (o palhaço Sula), o argentino Gabriel Rodriguez e Renata Marques. Os cinco persistiram no projeto de levar ao público o espetáculo. Garimpando recursos aqui e acolá, conseguiram parte da verba para viabilizar a peça e financiar a vinda do diretor Walter Velázquez outras duas vezes para Natal. Mas ainda faltava dar o toque final ao espetáculo, o que a trupe conquistou agora com o apoio do Rumos.

Para 2015, eles já planejam uma temporada maior de apresentações em Natal e até mesmo em outras cidades do Brasil e da América Latina.

Doze anos depois daquela sensação estranha que tinha morando em São Paulo e trabalhando em uma gráfica, Rodrigo, ou melhor, o palhaço Piruá, tem certeza de que tomou a decisão certa. “Agora estou com os dois pés, as mãos, a cabeça, tudo na arte.” E a perna de pau continua sendo o seu xodó.