obra: Paralelo 34
selecionado: Fábio Alcamino

Heinz Dieter Heidemann, professor alemão radicado no Brasil, costuma dizer que “a geografia também se faz com os pés”. Um grupo de alunos não só levou ao pé da letra o conselho do “maestro” como o expandiu. Para Tom Laterza, Bruno Portolesi, Chico Bahia, Fábio Alcamino, Fernando Silva e Lucas Bonito, geografia também se faz com uma câmera nas mãos. Os seis e mais alguns amigos de áreas diversas formam o Coletivo Sendero, que se prepara para um novo desafio: o road movie chamado Paralelo 34.

Fábio Alcamino na PatagôniaColetivo Sendero em Paraisópolis

As raízes dessa história estão fincadas lá em 2008, no Departamento de Geografia da USP. Os então estudantes tiveram a possibilidade de, pela faculdade, realizar diversos trabalhos de campo e uma longa viagem à Amazônia. Foi nesta última experiência – descendo o Rio Madeira de barco, encarando a Transamazônica de carona, ouvindo os mais diversos tipos de relatos e vendo todos os processos que estudavam na teoria –, que foi se delineando o anseio de fazer cinema, mesmo que ainda não tivessem muita consciência disso.

“Pouco a pouco, foi surgindo uma vontade de gravar essas realidades distintas, compartilhando assim nossas impressões com as pessoas que nunca tiveram a possibilidade de viajar para esses lugares”, conta Fábio Alcamino.

Depois da Amazônia, surgiram novas viagens para a Bolívia, a Venezuela, a Colômbia, o México e a Guatemala, entre outros. A estratégia do grupo era bem simples: trabalhar durante três estações do ano, juntar o máximo de dinheiro possível e, no verão, cair na estrada. Em cada local, um olhar crítico propiciado pelo estudo teórico, uma busca por ler as paisagens e entender as contradições sociais e os processos econômicos.

Começo

Ao conseguir uma bolsa para estudar um tempo na Argentina, Fábio conheceu a história dos indígenas mapuche e ficou “ensandecido” para fazer um documentário. Fernando Silva e Jamila Venturini, uma amiga jornalista, foram ao encontro dele com uma câmera mini-DV e um pequeno tripé comprados no Paraguai. “Durante quase três meses fomos viajando pela Patagônia, muitas vezes de carona, muitas vezes sendo hospedados pelos próprios mapuche, aprendendo a fazer um filme no próprio cotidiano das gravações, de maneira improvisada e autodidata”, relata. Com a ajuda de Tom Laterza, Mapuche: Gente da Terra foi finalizado em 2012.

Em paralelo, Chico Bahia e outros amigos da mesma turma filmavam o sertão mineiro baseados nos escritos de Guimarães Rosa. O resultado é o filme Boiada: no Tira-Te, Põe-Te.

As experiências foram tão transformadoras que eles sentiram que poderiam fazer filmes, independentemente da formação em cinema ou não. Perceberam que, pelo olhar proporcionado pela geografia, poderiam atuar em uma zona híbrida, em que a reflexão crítica se expressa pela arte e esta, por sua vez, propõe uma reflexão crítica.

Desta forma, um grupo mais coeso foi tomando corpo e novas ideias de filmes surgiram. “Finalmente, em 2012, daríamos um nome ao coletivo: Sendero, que na tradução do espanhol significa ‘caminho’, ‘trilha’. Reuníamos assim os anseios e as experiências diversas desses seis amigos que flertavam com o cinema.”  

Paralelo 34

O novo projeto do grupo, Paralelo 34, se desenha de uma antiga vontade de Fábio de fazer um road movie pelas estradas brasileiras e latino-americanas e da observação, mais recentemente, dos processos opostos vivenciados por Brasil e Uruguai.

“Enquanto nosso vizinho do sul partia para uma política progressista no que toca às liberdades civis, como a legalização do aborto, da maconha, do casamento homoafetivo e das leis migratórias, o Brasil, ao contrário, parecia tomar o caminho inverso, com prisões arbitrárias, linchamentos, homofobia, a ascensão da Igreja no interior do Estado, enfim, todo o tipo de reacionarismo imaginável”, compara Fábio.

Foi daí que surgiu o enredo do longa. Marina, uma moça de 23 anos, engravida do namorado Franco, que tem 34. Descrente do relacionamento, ela resolve fazer um aborto no Uruguai. Para desenvolver e finalizar o roteiro, os seis integrantes do coletivo conseguiram o apoio do Rumos para fazer um trabalho de campo nas estradas que os personagens do filme irão percorrer. “Onze anos separam Franco e Marina, onze graus separam São Paulo e Montevidéu... para você ver que nem aí escapamos da geografia”, conclui Fábio, aos risos.