obra: Moviola
selecionado: Marcio Ambrosio 

Quando criança, Marcio Ambrosio queria uma nave para se lançar ao espaço, ao desconhecido. Essa atração pela descoberta é um dos sentimentos que o fizeram criar o Moviola, projeto selecionado pelo Rumos 2013-2014. Imerso na instalação, o público tem o poder de construir e fazer parte de um filme, em tempo real. Por meio de engrenagens e sensores eletrônicos, é possível escolher entre sequências de animações, criando narrativas diversas.

Fotos do processo de produção de MoviolaFotos do processo de produção de MoviolaFotos do processo de produção de MoviolaFotos do processo de produção de MoviolaFotos do processo de produção de Moviola

“É uma experiência de imersão – corporal, pelo fato de mexer no dispositivo, e sensitiva, pois ele se encontra numa cenografia e num universo audiovisual que o envolve”, diz Marcio. O artista é graduado em design industrial, design gráfico e animação e criador do coletivo zzzmutations em 2004. “Eu gostaria que o visitante se desconectasse do mundo real e viajasse no Moviola”, afirma.

A outra realidade apresentada na obra, segundo ele, traz mundos flutuantes, sem gravidade – não podemos distinguir se estamos no espaço ou no fundo do mar – e onde encontramos criaturas insólitas. Nesse ambiente, os visitantes dispõem cenas, passeiam pelos lugares, escolhem acompanhar de perto ou de longe os personagens. Marcio quis “criar um quebra-cabeça: tudo se monta e desmonta”.

Também influenciou na criação da obra o fascínio que Marcio sente pela mesa de edição do cinema antigo – “moviola” era o dispositivo usado pelos montadores para mover, visualizar e selecionar trechos de película. Em Moviola, o público se coloca frente a um domo, onde manipula manivelas correspondentes a intervalos pré-divididos do filme. Segundo a velocidade de rotação, som e imagem na tela são exibidos de forma diferente. Além disso, há três dispositivos que permitem deslocar a perspectiva, simulando movimentos de câmera.

“O que me fascina é o objeto todo, a engenhoca, sua manivela e as engrenagens por onde passa o filme, o fato de o editor tocar a matéria-prima, cortar e colar os pedacinhos. Tenho uma certa nostalgia desse contato ‘orgânico’”, diz Marcio.

Nesse sentido, é relevante a escolha do material com que foi feita a instalação. O artista recolheu madeira de demolição de vários tipos e regiões brasileiras – entre elas, jatobá, muirapiranga, canela, peroba-rosa e guarapeira. “Nomes tão bonitos e diferentes, como as cores, texturas e cheiros. Dei uma nova vida para essa madeira, que em troca trouxe muita energia à obra.”

Sobre o processo de criação, Marcio conta que teve de desenvolver metodologias e estudar novas técnicas, “e isso se torna conhecimento adquirido para as futuras produções artísticas”. Ainda comenta que “foram vários desafios, e com certeza a dificuldade maior foi o tempo. Ter um tempo de produção definido, com objetivo e resultado esperado, é estimulante, mas o tempo corre demais e isso obriga a seguir um cronograma, para não se perder – e, às vezes, a fazer compromissos ou mudanças no processo criativo”.

Moviola, por fim, continua uma pesquisa anterior. De acordo com o artista, “O que quis transmitir é a contemplação do movimento. A interpretação do movimento e a análise da imagem estão sempre presentes nos meus trabalhos”.