obra: Luthiers do Cariri Cearense|
selecionado: Márcio Mattos Aragão Madeira

 

Como um contrabaixista autodidata que gostava de Beatles, Guns N’ Roses, Legião Urbana e Barão Vermelho muda a sua trajetória e vira um pesquisador da música regional do Nordeste? Essa é a história do músico e professor Márcio Mattos, selecionado pelo Rumos com um projeto que pretende resgatar e valorizar os luthiers do Cariri cearense.

Aécio Ramos é um dos artistas do Cariri cearense que fabricam o seu próprio instrumentoMárcio Mattos, selecionado pelo Rumos com um projeto que pretende resgatar e valorizar os luthiers do Cariri cearense

Natural de Fortaleza (CE), Márcio se mudou com a família para São Paulo (SP) na adolescência. Foi na capital paulista que ele teve os primeiros contatos com o rock. Integrou uma banda e aprendeu sozinho a tocar contrabaixo. Ao retornar à cidade natal, aos 18 anos, se sentiu completamente deslocado e viu no ingresso em um coral a oportunidade de ter novamente contato com a música. A partir daí, ele conheceu outras pessoas, novos ritmos e culturas. E decidiu seguir na área.

Durante a graduação em música na Universidade Estadual do Ceará (Uece), Márcio tomou gosto pela pesquisa ao atuar dois anos como bolsista da professora Elba Braga Ramalho, que desenvolvia tese de doutorado sobre a obra do importante compositor e cantor popular Luiz Gonzaga. No último ano de curso, ele se envolveu com o trabalho de outra professora, a cubana Carmen Coopat. “Ela estava fazendo um atlas de instrumentos da música cubana. Todo um mapeamento da música folclórica e tradicional daquele país. Eu gostei dessa proposta, achei interessante e pensei em fazer um trabalho parecido aqui no Ceará”, revela.

O projeto, porém, ficou adormecido por algum tempo. O interesse pela música regional não. Márcio fez mestrado em etnomusicologia, que é justamente o estudo da música a partir dos elementos culturais e do contexto social em que ela está inserida. O profissional desenvolveu outros projetos, mas foi só quando passou em um concurso e se tornou professor na Universidade Federal do Cariri, em 2010, que ele teve a ideia de retomar a iniciativa idealizada nos tempos de faculdade.

O pesquisador ligou para Carmen, que então trabalhava na Espanha, e a convidou para atuar em sua proposta. No ano seguinte, eles começaram o trabalho de identificação dos agrupamentos musicais do Cariri cearense, que gerou um site. Lá estão catalogados bandas cabaçais, reisados, grupos de coco, repentistas, rabequeiros e outros exemplos do “caldeirão cultural” que caracteriza a região.

Durante essas andanças por várias cidades para a realização não apenas do projeto, mas também de atividades da própria universidade, Márcio conheceu alguns fabricantes artesanais de instrumentos desenvolvidos a partir de materiais como madeira, metal, PVC, cabaças. Foi quando nasceu a proposta do Luthiers do Cariri Cearense.

O objetivo é valorizar e preservar a história desses artistas. “Nomes como Di Freitas (rabecas e outros instrumentos de corda), Jhonny Almeida (percussão e sopro), João Nicodemos (rabecas), Aécio Ramos (percussão, sopro e instrumentos experimentais), Mestre Totonho (rabecas, violinos e estojos), Raimundo Aniceto (pífanos e percussão), Ulisses Germano (instrumentos experimentais em geral), Gil Chagas (rabecas), Ciderly Bezerra (violão, bandolim, cavaquinho, guitarra etc.), entre outros, são reconhecidos por suas criações, que dão vida à música característica da região”, enumera.

A ideia é conversar com esses artistas, acompanhar as suas rotinas e o seu modo de produção e deixar tudo isso registrado em fotos e vídeos que serão disponibilizados em um site.

Para Márcio, o trabalho é importante também como forma de manter vivo esse conhecimento, uma vez que muitos dos seus alunos na faculdade de música, mesmo os que são nascidos na região, não conhecem as importantes tradições culturais de lá. “Aqui no Cariri as atividades musicais eram e, em muitos locais, ainda são desenvolvidas pela comunidade, por pessoas que constroem seus instrumentos, seus tambores, compõem as suas músicas, confeccionam os seus figurinos. São atores de tudo. Não se apresentam por apresentar. Todo o envolvimento musical está relacionado às atividades do cotidiano, da época da colheita, da época da seca, dos festejos do padroeiro”, salienta.