Por Duanne Ribeiro

A jornalista Natália Martino, proponente, com o fotógrafo Leo Drumond, do A Estrela – projeto contemplado pelo Rumos 2015-2016 que oferece cursos profissionalizantes de comunicação a presidiários de Belo Horizonte (MG) –, conta que sempre ouve duas coisas ao fim das oficinas: a primeira, “que o trabalho deveria ser mais longo”; a segunda, “que, naqueles dias, houve momentos que nem parecia que eles estavam em uma prisão”.

Coordenados por Natália e por Leo, os presos aprendem linguagens e técnicas de produção de vídeo, fotos e textos. Com essa capacitação desenvolvem a revista A Estrela. Foram produzidas quatro edições do projeto com apoio do Rumos. A proposta visa abrir perspectivas para esses homens e mulheres que perderam a liberdade e trazer uma pluralidade para o debate sobre questões carcerárias no Brasil, contribuindo para que se aperfeiçoe.

Internas do Complexo Penitenciário Feminino Estevão Pinto (Piep), em Belo Horizonte, em atividade realizada pelo projeto | foto: divulgação
Internas do Complexo Penitenciário Feminino Estevão Pinto (Piep), em Belo Horizonte, em atividade realizada pelo projeto | foto: divulgação

 

Natália e Leo se conheceram quando fizeram uma matéria em uma prisão mineira; daí em diante passaram a produzir trabalhos juntos. Um deles foi o workshop Novas Possibilidades Narrativas, em que os participantes criavam uma revista. Unindo esse modelo bem-sucedido ao interesse dos dois pela “realidade carcerária”, desenvolveram a oficina para as unidades carcerárias.

Dessa forma, o projeto começou em 2014. “Na edição piloto”, conta Natália, “não tínhamos patrocínio, apenas alguns apoios. Quando falávamos da ideia, ninguém acreditava. Diziam que jamais daria certo. Resolvemos fazer sem patrocínio mesmo e foi um sucesso. A revista foi muito bem recebida pela imprensa e por pessoas que trabalham no Poder Judiciário”. Depois disso, diz ela, “durante quase dois anos batalhamos editais, até sermos contemplados pelo Rumos”.

A dupla fez então duas edições em unidades da Associação de Proteção e Assistência ao Condenado (Apac), espaços prisionais com uma metodologia humanizada, em que não existem armas, policiais ou agentes penitenciários e o foco está na inserção dos presos em uma comunidade. Esse trabalho trouxe a eles o apoio da subsecretária de humanização da Secretaria de Administração Prisional de Belo Horizonte, Emília Castilho, e da promotora de direitos humanos do Ministério Público de Minas Gerais, Nívea Mônica. Com isso, puderam levar a oficina ao sistema prisional comum. “Isso foi importante porque um dos nossos objetivos é apresentar a realidade atrás das grades, e cada unidade tem um perfil e um contexto muito diferentes”, explica a jornalista. Nesses locais, foram feitas as duas últimas revistas contempladas pelo Rumos.

O fotógrafo Leo Drumond com recuperandas da Associação de Proteção e Assistência a Condenados (Apac) Rio Piracicaba | foto: divulgação
O fotógrafo Leo Drumond com recuperandas da Associação de Proteção e Assistência a Condenados (Apac) Rio Piracicaba | foto: divulgação

 

Nas oficinas, segundo Natália, “os dois primeiros dias de trabalho são mais teóricos, com muitas horas em sala de aula. É o momento mais difícil, alguns acabam desistindo, mas consideramos que essa base é indispensável. Depois, temos muita produção e o trabalho se torna dinâmico”. Esse aprendizado, ressalta ela, tem um potencial democratizante: “Hoje, todos que têm acesso à internet podem falar, denunciar, contar suas experiências, discutir algo do seu interesse. Todos podem se retratar publicamente de alguma forma. Aqueles que estão presos não podem. Deles muito é dito, mas a eles não é dado participar, rebater informações equivocadas ou colocar novos ângulos. Eles têm muito a dizer e a acrescentar em um debate urgente no país, esse sobre segurança pública e encarceramento em massa”.

A formação, contudo, vai além de saberes técnicos: “Assuntos delicados são tratados, dores vem à tona e alguns conflitos são inevitáveis, mas o processo cria certa solidariedade entre os participantes, de forma que esses problemas são superados com o apoio da rede que se formou. Todos se envolvem e é um processo muito rico”, diz ela.

Contribuir com o debate

Além do impacto sobre os participantes da oficina, A Estrela tem um papel na discussão sobre o encarceramento. Pode ser, segundo Natália, “uma pequena contribuição para um debate mais qualificado, na medida em que mostra o sistema carcerário sob outros ângulos”.

A dificuldade nesse cenário é, segundo ela, a falta de baliza para as opiniões que circulam sobre o sistema carcerário: “Há muito desconhecimento e isso potencializa os problemas. As pessoas pedem leis cada vez mais duras, penas cada vez mais longas e cruéis, sem saber que, segundo pesquisas, a prisão não resolve o problema da violência – nem no Brasil nem em nenhum lugar no mundo. Prender só potencializa a violência porque obriga quem está preso a se associar a grupos criminosos para ter acesso ao mínimo para sua sobrevivência e deixa uma série de pessoas do lado de fora exposta a outros tipos de violência, especialmente os filhos – estes, na ausência de seus cuidadores, acabam mais vulneráveis a drogas, por exemplo”.

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Internos da ala LGBT do Presídio de Vespasiano
Internos da ala LGBT do Presídio de Vespasiano

 

 

Natália apresenta ainda outras questões: “É preciso compreender que essas pessoas presas sairão um dia da prisão e precisarão de oportunidades. Enquanto as negarmos, buscarão alternativas ilegais para a sobrevivência. E, o mais importante, é preciso entender quem estamos prendendo: temos mais de 600 mil pessoas presas no Brasil, mas resolvemos menos de 10% dos casos de homicídios, por exemplo. Se as pessoas seguem sendo assassinadas e os assassinos continuam soltos, então quem está preso?”. Ainda mais: “É a prisão a melhor solução para casos de furtos de comida ou venda de pequenas quantidades de droga?”.

Com a finalização das fases apoiadas pelo Rumos, os proponentes planejam uma exposição dos materiais confeccionados e buscam formas de viabilizar novas edições do A Estrela. Se antes o ponto de partida foi o descrédito, agora a situação é outra: “Hoje o projeto já é reconhecido e os caminhos se abrem com menor dificuldade”, diz Natália.

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