Por Itamar Dantas

Quando o sol desponta no horizonte, o cardeal do Nordeste saúda com seu canto e puxa o coro em homenagem à luz que chega anunciando o dia. O galo canta a plenos pulmões e outras aves o acompanham, fazendo o contraponto. No nascer da manhã do sertão pernambucano, a orquestra de sonoridades é tão bonita quanto a paisagem que se apresenta aos olhos.

É a partir dessa variedade sonora que a designer de som Camila Machado pretende alterar as percepções das pessoas de fora da região sobre o sertão do Brasil. A Biblioteca de Sons do Sertão – projeto realizado com o apoio do programa Rumos Itaú Cultural – irá disponibilizar vozes, cantos e outros registros da realidade sonora da região para pesquisadores, curiosos e profissionais de áudio e audiovisual que desejem utilizar o material em suas produções. “Espero que, antes de ser usada nesses trabalhos, a Biblioteca de Sons possa ajudar a compor um imaginário sonoro do sertão, evidenciando parte de sua diversidade e riqueza”, diz Camila.

Jovens das comunidades baianas de Várzea Nova (imagem superior) e Várzea Queimada registram a diversidade sonora do sertão

A designer de som diz que começou a elaborar o projeto na época em que atuou como facilitadora em oficinas de produção audiovisual voltadas para a comunidade indígena – com a ONG Vídeo nas Aldeias – e para membros de movimentos sociais do campo.

Camila cita alguns dos momentos mais marcantes desse processo. Um deles se deu em território do povo indígena Ashaninka, no Acre. “Na floresta”, disse-lhe na ocasião Tsirotsi Ashaninka, membro da etnia, “a gente é guiado pelos ouvidos. Aí, sim, percebemos que a onça se aproxima, que a mata fez silêncio com medo de algo e que é hora de se defender”.

“Outra vez, num assentamento”, conta Camila, “fui fazer a captação de som direto para um projeto do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) sobre práticas tradicionais de saúde. Lá conheci Larinha, uma criança de 8 anos que, ao me ver com o microfone, me agarrou pela mão e me levou para conhecer os sons preferidos dela. Começou me mostrando o do milho crioulo – não transgênico – sendo acariciado. Então me prometi que voltaria para o campo para registrar essas experiências sonoras”.

A Biblioteca de Sons do Sertão será realizada em três etapas. Os trabalhos começam com uma série de residências artístico-sonoras nas comunidades envolvidas no projeto: Várzea Nova (município de Jacobina, Bahia), Várzea Queimada (Caem, Bahia) e Trindade (Ouricuri, Pernambuco). Em seguida, há a escuta coletiva e a análise dos sons registrados. Por fim, pretende-se criar um site que disponibilizará os áudios em qualidade máxima para download e que contará também com um histórico do processo e das comunidades.

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