Por Patrícia Colombo

Smartphone na mão até na hora de ir ao banheiro, vídeos de youtubers famosos acompanhados fielmente, video games durante a madrugada... As novas tecnologias e as experiências individuais por elas oferecidas marcam o cotidiano de grande parte dos jovens de classe média. Mas esse não é o caso de Álvaro Socot, indígena da etnia Hupd'äh e figura principal do documentário Caminhos do Rio – cujo roteiro foi elaborado com o apoio do programa Rumos Itaú Cultural.

Aos 19 anos de idade, Álvaro vive em Diamantina, uma ilha próxima ao núcleo urbano de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, localizada na região do Alto Rio Negro, na fronteira com a Colômbia e a Venezuela. O garoto trabalha ao lado do pai, Américo, para expandir as plantações de mandioca da família, caça, pesca, produz alguns brinquedos – arco e flecha, estilingue – para se divertir com os amigos e prepara o visual com acessórios metalizados, correntes chamativas, para dançar forró e paquerar.

Ilha Diamantina, onde vive a família Socot | foto: Vinícius Berger
Ilha Diamantina, onde vive a família Socot | foto: Vinícius Berger

 

Foi em 2015 que Álvaro cruzou o caminho de Jessica Mota, diretora do longa-metragem. Acompanhada então da também documentarista Alice Riff, ela viajou até São Gabriel da Cachoeira para entender o que se passava no chamado Beiradão, uma praia de rio onde famílias de indígenas Hupd’äh e Yuhupd’ëh acampam, aproveitando o período das férias, para resolver questões burocráticas na região. A demora no atendimento, no entanto, faz com que esse período se estenda por até quatro meses – e, nesse tempo, as famílias se veem forçadas a sobreviver em um acampamento precário, expostas a diversas doenças e totalmente dependentes da compra de alimentos na cidade, já que não podem nem pescar na área.

A situação que Jessica e Alice conheceram e registraram no local deu origem ao documentário de curta-metragem Beiradão/Hup Boyoh, que pode ser visto aqui.

Na época em que as cineastas gravavam o filme, Américo trabalhava junto à Funai do Rio Negro para auxiliar 400 pessoas que se encontravam no local, e Álvaro estava sempre ali com ele. Com a ajuda de um intérprete, elas conversaram com os dois e os convidaram para participar de um novo projeto, com a esperança de chamar mais atenção para as questões que afligem seu povo – uma das mais preocupantes é a epidemia de suicídios na cidade, formada majoritariamente por indígenas.

“Vejo isso como a culminação de um longo processo de genocídio”, diz Jessica. “Um processo extremamente perverso porque primeiro inflige a morte da cultura, da identidade, da força dos povos indígenas, para em seguida provocar a anulação de seus corpos, por homicídio, exploração ou suicídio.”

Menino do rio

Ainda que imerso em uma realidade dura, Álvaro resiste e extrai dela motivos para viver e crescer. “Acho que aprendi mais sobre espiritualidade com Álvaro e sua família do que com qualquer outra coisa ao longo da realização do projeto”, conta Jessica. “A relação com as forças e energias da natureza é de suma importância para o equilíbrio que eles buscam. Nós, que vivemos na cidade, com nossos olhares e mentalidades cartesianos, temos uma tendência a nos distanciarmos dessa espiritualidade.”

Um dos objetivos de Caminhos do Rio é direcionar o olhar do público para a juventude indígena nos tempos atuais – não só visando à valorização dessas pessoas em um contexto tão caótico, mas também desmistificando “a ideia de que o indígena só é indígena enquanto permanece intocado em sua cultura tradicional”.

“O cinema tem essa capacidade de promover a intimidade entre o espectador e os personagens”, comenta Jessica. “Acho que apresentar a vida cotidiana de um jovem indígena contemporâneo que vive na Amazônia, a partir de uma mirada sensível, é também derrubar barreiras de racismo, violência e sensacionalismo que giram em torno de sua imagem.”

Além de Jessica e Alice, que assume a produção executiva do longa, o projeto conta com o fotógrafo Vinicius Berger e com Tomás Franco na captação de som.

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