Por Leticia de Castro

O sagrado e o profano, a fé, a missão, a promessa e a manifestação do divino. Crioula Reinado, projeto da produtora Maranha selecionado pelo programa Rumos Itaú Cultural, investiga esses elementos presentes em duas manifestações culturais de tradição afro-brasileira: o tambor de crioula, originário do Maranhão, e o reinado (ou congado), de Minas Gerais. A pesquisa sobre as duas tradições, iniciada em 2013, resultará em um documentário, que deve ser lançado em 2018.

Registrado em 2007 como patrimônio cultural brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o tambor de crioula é uma tradição composta de danças circulares, canto e percussão de tambores, geralmente associada a rituais religiosos. Hoje ele segue como uma das mais importantes manifestações culturais na comunidade quilombola de Santa Rosa dos Pretos, no município de Itapecuru Mirim (MA). Fundado por sete famílias de escravizados, atualmente o quilombo abriga mais de 700 famílias, que passam os costumes e a história do local de geração em geração.

Já em Minas Gerais, o quilombo de Mato do Tição e a cidade de Oliveiras são o epicentro do reinado, folguedo folclórico religioso que também se baseia na dança, no canto e na música, misturando costumes de países africanos, como Angola e Congo, com a religião católica.

É nessas três comunidades que o documentário será realizado. Em comum, elas têm a força da cultura negra ancestral, o papel central da oralidade na perpetuação desses saberes, os tambores, os ritmos, os cantos, as danças e a forte presença da religiosidade. Mas o projeto vai além de retratar a história e as características dessas tradições: o que os diretores Tiago Pereira e Victor Dias querem é promover e registrar o encontro entre personagens emblemáticas dessas regiões. “Nosso objetivo é documentar a sabedoria dessas pessoas e a troca de experiências entre elas”, diz Pereira.

Em setembro de 2017, durante as festividades do reinado mineiro, a produção levará até Mato do Tição e Oliveiras alguns moradores de Santa Rosa dos Pretos. Dona Dalva, filha de santo, cozinheira, benzedeira e curandeira maranhense, é uma das convidadas, ao lado de seu Chicocó, curandeiro e benzedor, que pratica a medicina da mata em sua casa, espécie de ambulatório e farmácia da região. “A escolha dos participantes teve um critério de diversidades de funções e ligações com a espiritualidade”, explica Pereira. “Cada personagem representa uma faceta daquele quilombo.”

Em Minas, dona Dalva e seu Chicocó vão conhecer, por exemplo, o seu Badu, agricultor e raizeiro que tem o costume de conversar com a terra ao prepará-la para o cultivo. E também dona Pedrina, raizeira que, mestre em saberes tradicionais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), está na transição da umbanda para o candomblé. Nas três comunidades, catolicismo e as religiões de matriz afro-brasileira têm presença forte e convivem tranquilamente.

Em novembro, após o registro do reinado mineiro, a equipe parte para o Maranhão para acompanhar a Festa do Divino em Santa Rosa dos Pretos. Leva também seu Badu, dona Pedrina e mais dez pessoas para uma temporada de 13 dias, que pretende registrar não apenas os ritos folclóricos dos tambores, mas também aqueles presentes no cotidiano das pessoas: o jeito de cozinhar e organizar os ingredientes e os acessórios para o preparo dos alimentos, os cuidados durante a colheita no roçado, o respeito ao itinerário da lua e das plantas, a condução da água potável pelas casas, a brincadeira das crianças.

“Os ritos podem potencializar a beleza e servir de mecanismo para construir laços. Fazer uma fogueira pode ser um rito, construir um tambor pode ser um rito, preparar um almoço pode ser um rito, lavar as saias e costurar as saias pode ser um rito, partilhar uma cachaça pode ser um rito, trançar palha pode ser um rito”, diz o projeto.

Início

A ideia que deu origem ao projeto surgiu em 2013, quando Pereira integrava o coletivo Imagina e participou do projeto Imagina na Copa, que circulou por diversos estados brasileiros documentando histórias de jovens que promoviam transformações sociais em suas regiões.

Foi nessa época que o grupo conheceu, em Minas, a comunidade de Raposos e suas congadas. No Maranhão, eles descobriram o tambor de crioula e notaram algumas correspondências entre as duas realidades. “Percebemos que havia uma grande riqueza nessas culturas tradicionais, o que despertou o desejo de pesquisar e nos aprofundar nesse universo, contar suas histórias e apresentá-las a mais pessoas”, conta Pereira, que neste ano criou a produtora audiovisual Maranha, focada em projetos de transformação social e manifestações culturais.

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