por Letícia de Castro

Escrita e encenada pela primeira vez no século XVII, na Inglaterra governada por James I, a peça A Tempestade, de William Shakespeare, narra uma história de dominação, intrigas e disputas políticas. Próspero, Duque de Milão, é alijado do poder por seu irmão e acaba exilado em uma ilha tendo como companhia apenas sua filha e seus livros. O duque se apossa das terras onde passa a viver e subjuga seus antigos habitantes: Ariel e Caliban. O primeiro aceita docilmente a servidão imposta pelo forasteiro, enquanto Caliban, filho do antigo governante da ilha, oferece resistência.

foto: Tânia Farias
foto: Tânia Farias
foto: Tânia Farias

 

É em torno da figura de Caliban, um personagem complexo que suscitou diferentes leituras ao longo dos tempos, que o grupo gaúcho de teatro Ói Nóis Aqui Traveiz desenvolve seu novo projeto, Caliban – Apontamentos sobre o Teatro de Nuestra América, que conta com o apoio do programa Rumos Itaú Cultural. Descrito frequentemente como um “escravo selvagem e deformado”, Caliban – um anagrama da palavra “canibal” – luta contra a dominação de Próspero, a quem encara como um usurpador de suas terras, seu poder e sua liberdade.

A montagem do Ói Nóis Aqui Traveiz terá como base uma adaptação do dramaturgo brasileiro Augusto Boal (1931-2009) para o texto de Shakespeare, escrita na década de 1970, três séculos após a criação do espetáculo original. A Tempestade de Boal parte de uma análise do poeta e ensaísta cubano Roberto Fernández Retamar sobre o personagem de Shakespeare, que vê em Caliban uma representação da população latino-americana oprimida por séculos de colonialismo europeu e imperialismo norte-americano. “Esse texto é muito atual, casa muito bem com o atual momento da América Latina. É como se estivéssemos vivendo quase uma segunda colonização por parte dos Estados Unidos. Sinto que a gente vive mais um capítulo de uma história antiga de desmantelamento das forças de autonomia latino-americanas”, afirma a atuadora Tânia Farias, em referência aos três presidentes depostos no continente desde 2009 (Manuel Zelaya, em Honduras; Fernando Lugo, no Paraguai, e Dilma Rousseff, no Brasil). Dessa forma, o grupo pretende resgatar os diversos significados de Caliban, outrora visto como um monstro selvagem fisicamente deformado mas que também simboliza a rebeldia e a resistência dos povos oprimidos contra a dominação colonialista.

Ação social

Um dos grandes nomes do teatro brasileiro, Augusto Boal é criador do Teatro do Oprimido, metodologia que possibilita ao oprimido a apropriação dos meios de produção de teatro, ampliando suas possibilidades de expressão e democratizando a própria atividade teatral. “A gente compartilha do desejo de transformação que marca o trabalho do Boal. Sempre tivemos muita afinidade com a proposta do Teatro do Oprimido”, diz Tânia. Do autor carioca, a trupe gaúcha já adaptou Revolução na América do Sul e O Homem que Era uma Fábrica. A ideia de montar A Tempestade surgiu em 2015, quando o grupo foi convidado pela viúva do autor, a psicanalista Cecília Boal, para fazer uma leitura do texto durante a exposição sobre a obra do artista organizada pelo Instituto Augusto Boal no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. Já estávamos à procura de um texto para montar neste ano, e a experiência foi tão interessante que decidimos que o espetáculo seria esse”, conta a diretora.

Nos últimos meses, o grupo composto de 15 atuadores (atores que participam de todo o processo de criação do espetáculo, com forte engajamento político) tem se dedicado aos ensaios e à elaboração dos figurinos e do cenário do espetáculo, que deve estrear no dia 12 de março de 2017 no Parque da Redenção, em Porto Alegre. Na mesma época, será realizado o seminário Caliban e o Teatro Latino-Americano, que terá as participações da crítica teatral cubana Vivian Tabares e da própria Cecília Boal. Depois, o grupo segue em turnê por diversos estados brasileiros apresentando A Tempestade, sempre nas ruas. São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais também contarão com o seminário, que será aberto ao público e gratuito.

O projeto será concluído em 2018, com uma série de apresentações em Cuba, onde também acontecerá outro seminário, na Casa de Las Américas, em Havana, além de intercâmbios com grupos teatrais locais, como Teatro Buendía, Teatro Andante, Mirón Cubano e Compañia Morón Teatro.

Fundado em 1978 em Porto Alegre, o Ói Nóis Aqui Traveiz tem um trabalho profundamente marcado pelo engajamento político. Criado em plena ditadura militar, o grupo vê o teatro como um instrumento de reflexão e conscientização social e tem três linhas fundamentais: o teatro de vivência, que pressupõe uma participação ativa do público durante as apresentações; o teatro de rua, que transfere para o espaço público a experiência teatral; e as ações político-pedagógicas, com a realização de oficinas de formação e fomento à formação de novos grupos de teatro popular. A Tempestade de Boal será um espetáculo de rua, criado de forma coletiva pelos membros grupo, a partir de seminários e discussões sobre cada aspecto da montagem.

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