Por Itamar Dantas

Quando os dedos passeiam pelas cordas da viola machete, os pés começam a sambar quase involuntariamente. Os pandeiros e outros instrumentos de percussão ressoam em conformidade com o ritmo, e tem início o samba de roda do Recôncavo Baiano, conhecido também como samba chula. Duas duplas de cantadores puxam os versos depois que o ritmo está estabelecido. A primeira grita a chula, a composição poética que guia o samba. Em seguida, a outra dupla canta o relativo, os versos que entram em resposta aos principais. E então é a vez de as sambadeiras aguardarem a permissão para entrar na roda. Depois dos versos apresentados, elas surgem em cena, uma de cada vez, sambando miudinho, quase sem tirar os pés do chão...

Reconhecido como patrimônio cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 2004 e como obra-prima do patrimônio oral e imaterial da humanidade, título declarado pela Unesco em 2005, o samba de roda estava em vias de extinção no início dos anos 2000.

“O último construtor de viola machete foi Clarindo dos Santos, que morreu há quase 40 anos. E os mestres que tinham esse conhecimento eram pouquíssimos, seu Zezinho, seu Lelinho, o Celino de Terra Nova. Não tinha quem fizesse e não havia praticamente violeiros”, conta Milton Primo, responsável pelo projeto Essa Viola Dá Samba, que – com o apoio do Rumos Itaú Cultural – capacita violeiros e luthiers para a construção de violas e transmite às novas gerações as técnicas para tocar o instrumento e a tradição do samba do Recôncavo Baiano.

Primo nasceu no município baiano de São Francisco do Conde e, desde sua infância, viu as manifestações do samba de roda embaladas pela viola machete nas festas do Lindo Amor, na Queimada de Palhinha, na Festa de Reis. Aprendeu a tocar a viola nas oficinas que Zé de Lelinha ministrou como parte do Plano de Salvaguarda do Samba de Roda, desenvolvido junto com o Iphan e coordenado pelo professor Carlos Sandroni.

O projeto Essa Viola Dá Samba teve início em 2014, quando capacitou dez construtores de viola machete. Até hoje, no total, já foram construídos 35 instrumentos, que contribuíram para ampliar o alcance do samba de roda e ajudam a manter as tradições vivas. Dessas violas, cinco foram doadas para mestres tocadores que não tinham o instrumento – e que puderam, assim, voltar a tocar.

Enoque Andrade, de 43 anos, está no projeto desde o início. Atualmente é luthier e mestre de construção de violas. “Fui o primeiro a me inscrever no projeto. Fui aprender com aulas duas vezes por semana, depois tiveram a necessidade de um auxiliar. Meu pai era carpinteiro de assentamento, fazia canoas, saveiros. Eu tinha esse conhecimento e fui destacado para ser o auxiliar do mestre. Mais tarde veio a proposta de assumir o lugar dele”, conta.

A construção da viola leva de 60 a 70 dias. As condições climáticas e os outros afazeres da oficina influenciam, obviamente, nesse prazo. Se houvesse a possibilidade de trabalhar de oito a nove horas por dia na construção do instrumento e se as condições do tempo fossem perfeitas, seria possível terminar uma viola em até 35 dias.

Adson Cosme de Santana, de 35 anos, também é um dos principais luthiers do projeto. Músico de formação erudita, ele sempre teve interesse pela construção de instrumentos musicais. “Eu me sinto lisonjeado de participar do resgate dessa história. Os nossos propósitos são a preservação dos instrumentos e a transmissão desse conhecimento para outras pessoas”, afirma.

Até o fim de 2017, Essa Viola Dá Samba tem a intenção de produzir pelo menos mais dez violas e de incrementar a renda de cinco artesãos que acompanham o projeto. Também serão criados o Samba Chula Mirim Flores da Pitanga, grupo formado por 15 crianças da comunidade, e uma mostra de filmes chamada Cinema, Samba e Viola, que busca dar visibilidade ao samba de roda na rede pública de ensino, em universidades e nas cidades vizinhas.