por Jullyanna Salles Candido

Silas Carvalhes é um fotógrafo de Belo Horizonte capaz de narrar histórias e contar suas memórias de forma simples e sedutora. E foi essa habilidade que levou Pedro Carvalho Moreira a transformá-lo no personagem principal do documentário O Jardim, realizado com o apoio do Rumos Itaú Cultural 2015-2016. Utilizando recursos como animação de fotografias e filmagens analógicas, a produção explora o universo do já idoso fotógrafo mineiro, composto de questões sobre a velhice e a morte, lembranças e abstrações.

A amizade entre Pedro e Silas começou em uma loja de consertos de câmeras analógicas, enquanto o diretor trabalhava em um projeto também de documentário. “Ele começou a fazer perguntas, conversar, falando que estava ocioso e terminou contando sobre um ser de outro mundo que ele via, completando que ele não tinha tomado os remédios dele aquele dia. Ele foi supercarismático, de uma generosidade incrível.” A partir desse dia, Silas passou a ser o “guru espiritual” de Pedro, que se interessou pelas particularidades do fotógrafo e por sua naturalidade diante da câmera.  

Por que Silas?

Ex-proprietário de uma assistência de materiais fotográficos, atualmente Silas vive com uma aposentadoria pequena e realiza reparos em câmeras. Há alguns anos, por um problema de saúde, o fotógrafo ficou em coma por cerca de 40 dias. Apesar da recuperação, a partir desse momento sua percepção de vida começou a ser alterada. Pedro conta: “A gente percebeu que ele tinha essa coisa de construir um mundo próprio. Ele abandonou a profissão, foi ficar num lugar mais recluso, mais envolvido com a família, com a natureza e com umas visões ou alucinações que ele tem às vezes”.

E foi dessa observação que nasceu a ideia central do documentário, a construção audiovisual de um jardim, um universo formado por Silas e suas particularidades cativantes. Ele mesmo chegou a relatar, por escrito, um pouco de suas visões e desse espaço criado em sua mente. Todo o material foi confiado à equipe de O Jardim, que além de o considerar para o estudo do documentário realizou um processo de digitalização para facilitar a conservação e a consulta.

Os processos de filmagem

A partir da ideia do documentário, Pedro definiu que a produção seria feita por um processo de animação de fotografias. Apenas uma parte, a final, seria filmada e mesmo nela seria utilizada uma câmera de corda e não um material digital. A preocupação com essa forma quase que artesanal vai ao encontro da própria história de Silas. O diretor explica: “Cogitamos contratar um profissional que trabalhasse com câmeras de película, mas optamos por não, preferimos deixar tudo íntimo, para o Silas ficar o mais confortável possível e para não levar aquilo para um lado que a gente não acreditava”.

Por muitos anos, Silas trabalhou em uma oficina própria de conserto de câmeras analógicas - foto: Felipe Chimicatti-Fernando LimaApesar de trabalhar por um tempo como mecânico de câmeras analógicas, Silas também é fotógrafo - foto: Silas CarvalhaesSilas atraiu a atenção do diretor d'O Jardim pela desenvoltura frente a câmera e a simpatia já no primeiro contato - foto: Felipe ChimicattiTambém fotografo, Silas mostra algumas de suas obras no documentário - foto: Silas Carvalhaes

Pedro confessa que a utilização desse tipo de câmera foi trabalhosa, exigiu esforços da equipe, mas complementa: “Sabíamos que esse tipo de equipamento ia ser muito interessante pela dinâmica de trabalho. Ele dá um aspecto mais amador, documental, que é o que estamos fazendo. É mais íntimo”. 

A animação de fotografias, processo utilizado em três das quatro partes do filme, consiste no encadeamento de fotos sequenciais. Diferentemente do stop motion, que trabalha com um mínimo de imagens por segundo, Pedro explica que essa técnica é mais livre: “As fotografias têm um tempo variado na tela. Em vez de filmar, tiramos fotos, mas se usa uma noção de decoupagem de cinema como plano geral, médio, detalhe. E isso, além da sonorização, dá uma impressão de movimento”. O método – popular no cinema independente – se destaca por ser um recurso acessível, mais barato que a película.A sonorização do filme foi dividida em dois eixos. O primeiro é uma entrevista realizada na própria casa de Silas, de forma bastante descontraída, em formato de conversa. O segundo é uma trilha criada especialmente para o documentário pelo músico Leandro César, que constrói os próprios instrumentos e acompanhou uma viagem da equipe com o fotógrafo.

A principal ideia do documentário é baseada no conceito de retrato, e nesse plano Silas é apresentado como o personagem principal. Entretanto, a produção não se limita a esse aspecto, Pedro conclui: “O assunto do filme sem sombra de dúvida é o Silas. Mas aparecem também outros temas, como a velhice, a morte, a memória, a fotografia e os rastros que ele deixou ao longo da vida dele (essa memória abstrata, desorganizada). Esses temas se irradiam naturalmente”.

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