Por Camile Sproesser

Um dos mais importantes fenômenos socioculturais surgidos nas últimas décadas, o hip-hop e seus elementos – rap, break e grafite – é a linguagem universal nas periferias do mundo. A enorme carga política expressa através das rimas do rap, dos movimentos do break e das formas e cores do grafite representa a voz dos excluídos pela truculenta desigualdade social do sistema capitalista e corrupto. É ainda uma forma de inserção social e alternativa à marginalidade, já que se trata de um meio de reflexão e expressão artística.

Leonardo Luiz da Silva, também conhecido como Leonardo “Rapman“, entrou em contato com esse universo em 2009, através do Centro de Referência da Juventude da cidade de Serra, no Espírito Santo. “Passei pelos elementos break, grafite, beatbox e rap; sei fazer todos, mas escolhi o break para me dedicar, sou b.boy! Eu me formei em artes plásticas na Universidade Federal do Espírito Santo [Ufes] e sempre tive vontade de apresentar o hip-hop a outras pessoas. Em 2010 fiz uma exposição individual em que tentei representar o hip-hop através de pinturas e esculturas, chamada Don’t Break the Break”, lembra ele – que agora, com o apoio do programa Rumos Itaú Cultural, leva o movimento para o universo da HQ.

O Rapman

Após ter a ideia para uma revista em quadrinhos, veículo pelo qual sempre teve gosto, Leonardo buscou profissionalizar-se por meio de livros e professores, que o ajudaram na concepção do trabalho. “Inicialmente, Rapman seria eu mesmo, um personagem que criei para me representar. Mas com o tempo resolvi separar o Rapman que seria meu alter ego do Rapman que eu enfim desenvolveria para criar uma trama narrativa”, explica.

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A grande intenção do projeto é apresentar o hip-hop de forma lúdica – os quadrinhos – e através disso levantar debates sobre assuntos como preconceito, desigualdade social e violência, além de despertar em jovens leitores o potencial para aderir ao hip-hop e às artes. A revista será distribuída em escolas públicas nas periferias dos municípios da Grande Vitória, em ONGs e centros culturais.

“Tive a felicidade de ser aprovado no Rumos, e a partir disso minha meta não foi só artística, mas social também. Adaptei meu roteiro para que o Rapman não fosse meramente uma figura lúdica, mas sim que tivesse utilidade social. Passei a debater temas mais sérios, como racismo e violência, sem perder a essência anterior, um ganho muito importante para a minha história”, conta Leonardo.

Com o apoio do Instituto Fênix de Ensino e Pesquisa, o artista segue com a elaboração da HQ. Seu processo de criação envolve outros trabalhos além do desenho: “Minha frequência é de mais ou menos uma página a cada duas semanas, porque, além da página, faço outras coisas, como a arte–final, a revisão e reuniões com o Instituto Fênix para que minha organização seja perfeita”, explica. “Desenho com caneta nanquim e uso um papel especial que ganhei num concurso de desenhos, papel para HQ. Já deixei paga a gráfica com o dinheiro do Itaú Cultural e estou na página 30 de 45. Pelo orçamento, vai dar para fazer 3 mil cópias, e pretendo usar essa primeira edição como impulso para conseguir investimento e produzir as outras!”

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Com lançamento programado para 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, Rapman, o Hip Hop Relevante é uma história contínua, com pelo menos cinco edições já planejadas depois da concepção da primeira. “Pretendo que Rapman seja uma revista de continuidade, cada uma se aprofundando em um dos elementos do hip-hop e jogando uma problemática social para debate. O projeto não para só na HQ – tenho planos para outras mídias no meu canal do YouTube”, conclui o artista.

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