Por André Bernardo

Nascida na Irlanda, Jessica Gogan tinha apenas 4 anos quando, do outro lado do Atlântico, o crítico de arte Frederico Morais, então coordenador de cursos do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio, deu início, no dia 24 de janeiro de 1971, aos Domingos da Criação – série de encontros nos quais artistas e público se reuniam para construir trabalhos em conjunto. Quando soube do que se tratava o movimento artístico-cultural carioca, ela já tinha 43 e fazia doutorado em história da arte na Universidade de Pittsburgh, Estados Unidos.

“Sempre me interessei por interseções entre arte e educação e, quando conheci a proposta do Frederico Morais, fiquei simplesmente maravilhada. Na época, estudava um projeto similar na Suécia – um grupo de artistas e educadores montou um playground no Museu de Arte Moderna de Estocolmo”, recorda a educadora de 51 anos, hoje à frente do Núcleo Experimental de Educação e Arte do MAM.

Logo, Jessica saiu à caça de mais informações sobre os Domingos da Criação. Não encontrou. Embora os happenings tivessem atraído milhares de curiosos, há poucos registros, quase nenhum, em livros, revistas e jornais. Uma exceção é Um Domingo com Frederico Morais, documentário lançado pelo cineasta Guilherme Coelho em 2011, por ocasião dos 40 anos da iniciativa. Foi quando Jessica resolveu, ela mesma, revisitar o passado e bolou o projeto Uma Coleção Poética: Domingos da Criação e Vozes do Experimental em Arte e Educação, que conta com o apoio do programa Rumos Itaú Cultural.

Programa Rumos_Domingos da Criacao1_foto de Raul B. Pedreira Filho/Arquivo Frederico Morais

Domingos da Criação realizados em janeiro e março de 1971, respectivamente | fotos: Raul B. Pedreira Filho/Arquivo Frederico Morais
Domingos da Criação realizados em janeiro e março de 1971, respectivamente | fotos: Raul B. Pedreira Filho/Arquivo Frederico Morais

“Temos muito a aprender recuperando os Domingos da Criação. Mas, veja bem, recuperar não significa repetir. Isso seria impossível. Recuperar significa refletir sobre características marcantes da iniciativa, como o experimentalismo artístico e a participação popular. Resgatar memórias é sempre importante para a cultura de qualquer país”, afirma a educadora.

O projeto Uma Coleção Poética engloba, entre outras ações, a publicação de um livro. Para tanto, Jessica está empenhada em pesquisar a fundo o que foram, como surgiram e o que deixaram de legado os Domingos da Criação, além de restaurar e digitalizar as fitas gravadas na ocasião e entrevistar artistas, educadores e curadores que participaram da iniciativa. A expectativa é que o livro, ainda sem título definido, seja lançado entre os meses de outubro e novembro de 2017.

“Já estou trabalhando nisso há dois anos e meio. E, ainda hoje, quando digo que estou escrevendo um livro sobre o assunto, aparece alguém e diz: ‘Nossa, eu também participei dos Domingos da Criação!’. Embora o projeto tenha durado apenas seis domingos, ele continua vivo e pulsante na memória de muita gente”, espanta-se a educadora.

Para organizar esses seis domingos que marcaram o primeiro semestre de 1971, Frederico Morais convidava alguns dos mais importantes artistas plásticos brasileiros, como António Manuel, Lygia Pape e Carlos Vergara, para interagir com o público nos jardins e pilotis do MAM. Participaram também, entre outros, diretores de teatro, como Amir Haddad, e dançarinos e coreógrafos, como Klauss e Angel Vianna. Juntos, artistas e espectadores faziam experimentos estéticos usando os mais diversos materiais, como papel, tecido, fios e terra.

“Gosto quando arte e educação extrapolam os muros acadêmicos. A pergunta que faço é: o que podemos aprender revivendo os Domingos da Criação? Quem sabe esse projeto não vai inspirar uma nova geração de artistas e educadores a pensar suas próprias ideias e, talvez, criar outros Domingos?”, provoca Jessica.