Por Leticia de Castro

Getúlio Marinho da Silva (1889-1964) foi um grande compositor e instrumentista brasileiro. Baiano radicado no Rio de Janeiro, participou da primeira escola de samba carioca, Deixa Falar (de 1928 a 1932), ao lado de Ismael Silva e Alcebíades Barcelos. Foi também o responsável, junto com Elói Dias, o Mano Elói, pelos primeiros registros em disco de pontos de umbanda, canções em louvor aos orixás. As gravações foram feitas na Casa Edison, primeira gravadora brasileira, fundada em 1900, no Rio de Janeiro.

É nesse aspecto da carreira de Marinho – suas composições em homenagem às religiões de matrizes africanas – que se concentra a pesquisa Samba e Liturgia – a Música de Getúlio Marinho, contemplada na última edição do Rumos Itaú Cultural. Pesquisador, produtor e diretor audiovisual, Chico Serra é um dos idealizadores do projeto e conheceu o trabalho de Marinho quando filmava o curta-metragem Operação Morengueira. “Entrei em ‘transe’ com a força daquela expressão sonora e comecei a pensar por quais possíveis caminhos e encruzilhadas passaram aqueles pontos transportados dos terreiros da ‘Pequena África’ para um estúdio da Casa Edison”, conta Chico. “Fiquei interessado em percorrer esse caminho de volta e estudar a trajetória de Marinho naquele momento da consolidação do Carnaval, do surgimento das primeiras escolas de samba.”

Fotografia de Getúlio Marinho publicada no Correio da Manhã em 13 de fevereiro de 1958 (imagem: acervo)

O projeto pretende mapear e organizar um acervo sonoro do artista, incluindo programas de rádio, fonogramas de gravações realizadas entre as décadas de 1920 e 1960, fotos, recortes de jornais e revistas. Além da pesquisa musical e iconográfica, serão realizadas entrevistas com músicos, historiadores, pesquisadores, ialorixás e babalorixás, para mostrar a relação de sua música com a cultura dos terreiros. Esse levantamento servirá de base para a elaboração de um roteiro de documentário sobre o legado musical do artista e a representação da liturgia africana em suas gravações pioneiras.

Conhecido no meio musical como Amor, Marinho foi autor de sambas importantes, como "Apanhando Papel", gravado por Francisco Alves e posteriormente por Cyro Monteiro e Elizeth Cardoso, e "Molha o Pano", interpretado por Aurora Miranda e incluído no clássico Alô, Alô, Carnaval (Cinédia, 1936). São dele também os pontos de umbanda "Ererê", primeira gravação de Moreira da Silva (Odeon, 1931) e "Caboclo do Mato", gravado por João da Baiana, com flauta de Pixinguinha, e inserido na compilação Native Brazilian Music (Columbia RCA). Transitando por diversos gêneros musicais, o repertório de Marinho inclui sambas, marchas, ranchos carnavalescos, batucadas e partido-alto.

Como resultado final de Samba e Liturgia, será entregue um relatório de pesquisa em arquivo digital, em que constarão todo o material encontrado e, ainda, o primeiro tratamento do roteiro do documentário. “Interessa-me nessa pesquisa a divulgação de expressões ligadas à liturgia africana naquelas novas invenções musicais e sua importância para a consolidação do samba carioca”, diz Chico.

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