por André Bernardo


Em 2006, nasce na Maré a Cia. Marginal, grupo criado por artistas de dentro e de fora da favela que descobriram no teatro e no trabalho coletivo uma forma mais potente de ação no mundo. Reunindo oito integrantes – os atores Geandra Nobre, Jaqueline Andrade, Phellipe Azevedo, Priscilla Monteiro, Rodrigo Maré Souza e Wallace Lino, a produtora Mariluci Nascimento e a diretora Isabel Penoni –, a companhia se tornou um dos principais grupos de pesquisa continuada no Rio de Janeiro. Trabalhando desde a sua fundação em parceria com a ONG Redes da Maré, a Cia. Marginal já produziu quatro espetáculos: Qual É a Nossa Cara? (2007), Ô, Lili (2011), In_Trânsito (2013) e Eles Não Usam Tênis Naique (2015).

Um dos selecionados na edição 2017-2018 do programa Itaú Cultural, Refúgio, o próximo projeto da trupe, parte de uma constatação: o complexo que reúne 16 favelas na Zona Norte do Rio de Janeiro abriga a maior comunidade de angolanos da cidade. A "Pequena Angola", como ficou conhecida, formou-se nos anos 1990 a partir de fluxos de refugiados da guerra civil que teve início com a independência de Angola, em 1975, prolongando-se até 2002. “Refúgio surge do fato de os atores do grupo, que em sua maioria são moradores da Maré, terem sua vida atravessada pela presença expressiva de africanos no território”, afirma a diretora Isabel.

Tendo começado a ser elaborado em 2013, quando a questão do refúgio ganhou importância mundial com o progressivo endurecimento no controle das fronteiras europeias, o projeto conta com a experiência de Isabel em Angola, onde ela realizou sua pesquisa de doutorado sobre as manifestações culturais de um povo do interior do país e ainda estabeleceu intercâmbio com inúmeras companhias teatrais, principalmente da capital, Luanda, como o Elinga Teatro, o Henrique Artes e o Nzinga Mbande.


Intercâmbio cultural

O projeto pode ser dividido em duas fases: a primeira delas, de leitura e pesquisa, deve durar até junho de 2019. E a segunda, de criação, deve se estender até o final do ano que vem. A ideia, adianta Isabel, é mergulhar no universo da Pequena Angola para construir um trabalho que atualize a experiência de chegada de imigrantes e refugiados angolanos à Maré e que conte algumas de suas muitas histórias de resistência na cidade do Rio. “Queremos abordar questões atuais, como o lugar de imigrantes e refugiados nas metrópoles contemporâneas, e discutir temas importantes, como o racismo e a xenofobia”, explica a diretora da companhia.

Ainda na fase de pesquisa e preparação, serão selecionados os quatro atores/bailarinos angolanos que vão contracenar com os integrantes da Cia. Marginal. A participação de profissionais daquele país não deve se restringir a atores – especialistas de outras áreas serão convidados para compor a ficha técnica do espetáculo.

A parte mais difícil, segundo Isabel, já passou. “Refúgio começou a ser pensado em 2013. Vivíamos um momento bastante inquietante. Muitos países da Europa estavam fechando suas fronteiras para os refugiados. Infelizmente, levamos quatro anos procurando apoio. Essa foi a primeira dificuldade”, conta.

No último mês do projeto, Refúgio será aberto ao público, de quinta a domingo, nas ruas da Pequena Angola. Paralelamente, o Centro de Artes da Maré sediará um ciclo de palestras sobre esse tema. A expectativa é que o projeto seja finalizado no começo de 2020. A hipótese de encenar Refúgio em outros espaços e cidades – como o Brás, em São Paulo, reduto da maior comunidade de angolanos no Brasil – não está descartada. “Com Refúgio, queremos não só dar visibilidade a essa face marginalizada da negritude urbana carioca, mas também propor novas formas de olhar e de se relacionar com ela”, afirma a diretora.

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