Grupo Magiluth foi fundado em 2004 por alunos de licenciatura em artes cênicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com sede em Recife. Com base em um trabalho de pesquisa e experimentação, o grupo concilia um processo de construção coletiva por meio de seus integrantes e criadores. Já desenvolveu sete espetáculos teatrais, intercâmbios artísticos e projetos reconhecidos, como o Trema! – Festival de Teatro de Grupo de Recife.

Esta entrevista foi cedida pelo diretor Pedro Vilela.

Observatório: O Grupo Magiluth participou do edital Rumos Teatro, do Itaú Cultural, em 2010. A premissa do edital era o envio de projetos que visassem ao convívio, ao compartilhamento de formas de criação entre dois grupos de teatro e ao desenvolvimento de pesquisas na área. Assim, surgiu o projeto chamado Do Concreto ao Mangue, Aquilo que Meu Olhar Guardou pra Você, que vocês desenvolveram com o Teatro do Concreto (DF). A proposta desse projeto foi a criação de cenas partindo de olhares para as cidades envolvidas e da reflexão sobre as formas de organização e gestão dos coletivos teatrais. Num segundo momento, contou com a participação de Luiz Fernando Marques – diretor do grupo XIX de Teatro (SP). Esse encontro gerou ainda mais olhares para os coletivos e suas relações com a cidade. Você poderia comentar um pouco mais sobre o resultado dessa pesquisa e as influências, se houve, na atuação do grupo?

Magiluth: Encontramos em nossa trajetória importantes desdobramentos a partir do edital Rumos, que passam por questões que se relacionam com procedimentos de gerenciamento dos coletivos envolvidos, por compreensão de metodologias em torno da criação e principalmente pelo desenvolvimento de redes de compartilhamento em todo o país. Por meio desse programa, verticalizamos o olhar e a relação com a cidade em que residimos, o que nos levou a uma série de ações artísticas e políticas nos anos seguintes. A título de exemplificação, iniciamos uma série de intervenções urbanas que possuíam a cidade como personagem central, a qual se desdobrou na nossa primeira publicação. Criamos também no Recife o Trema, uma plataforma em torno de teatro de grupo, que realizou duas edições congregando grupos parceiros de diferentes partes do país e que a partir de 2015 contará com a publicação de uma revista bimestral. Tivemos ainda a oportunidade de, estreitando laços e ativando diferentes linhas de parceria, passar por mais de 20 capitais do país com nosso repertório. Hoje, nos encontramos inundados por esses encontros e olhares, o que consequentemente contaminará a criação de nossos futuros trabalhos e ações.

Você acredita que mais editais que estimulam esse tipo de compartilhamento entre grupos e a pesquisa ajudam no processo de formação dos integrantes do grupo? Como?

Cada vez mais nos deparamos com a necessidade, em nível nacional, do encontro e do compartilhamento. De alguma maneira, percebemos que a criação do edital Rumos surge principalmente da compreensão, da leitura e da sensibilidade dessa necessidade que pulsa dos coletivos. Ações como essa são de fato fomentadoras e suprem lacunas em torno da ausência de uma política cultural no país, pois agem em caráter macro, mapeando diferentes regiões, e micro, fomentando processos formativos em torno de coletivos e de indivíduos, uma vez que a ação de grupos teatrais possui por sua essência o caráter cumulativo em torno da pesquisa e do conhecimento.

A peça Viúva, Porém Honesta, obra de Nelson Rodrigues, traz um olhar sarcástico do dramaturgo sobre alguns profissionais, como médicos e jornalistas, e diretamente sobre a crítica teatral. O grupo está apresentando essa peça há dois anos. Como é fazer um trabalho que retrata problemas tão atemporais?

Uma das marcas do Nelson está justamente na atemporalidade de sua obra. Perceber que uma obra escrita em 1957 ainda nos diz muito sobre o nosso tempo é se deparar com o tamanho de sua genialidade e sua percepção crítica diante de nossa sociedade, assim como perceber quanto ainda estamos estagnados. Nesses dois anos, tivemos a oportunidade de ir do Acre ao Rio Grande do Sul e de propor esse encontro entre pernambucanos de diferentes gerações. Como o próprio autor definia, o elemento farsesco e irresponsável que permeia a montagem nos abre uma lupa para o nosso país e torna tudo ainda pertinente para os tempos em que vivemos.

O Magiluth é fundador do Grupos Reunidos de Investigação Teatral (Grite), cujo objetivo é discutir políticas públicas para o teatro de grupo de Pernambuco. Quais são as propostas nessas discussões quanto à formação de público e dos atores?

O Grite surge da necessidade de um olhar específico para os grupos de atividade continuada em Recife, uma vez que estes possuem demandas bastante específicas. Em determinado momento histórico, percebemos a importância desses coletivos quanto à formação de um público que há muito tempo não mais frequentava as casas de espetáculos da cidade, assim como as diferentes ações pedagógicas desenvolvidas para a cidade. Nós nos consolidamos como movimento em busca de nos tornar visíveis aos olhos da gestão pública, demonstrando a necessidade de parcerias que visassem à sustentabilidade dessas ações tão plurais. Vivemos numa cidade onde a política cultural é quase inexistente, sendo trocada por eventos que marcam o calendário turístico. Entretanto, a fragilidade de nossa compreensão de classe, unida às demandas individuais do coletivo, fez com que o movimento perecesse.

O Ministério da Cultura aprovou o benefício Vale-Cultura, no valor de 50 reais mensais. Você já consegue perceber se o público frequentador das peças são esses beneficiários?

Mapeando o Brasil de norte a sul, com base na circulação de nosso repertório, ainda não encontramos absolutamente nenhum sinal do uso desse benefício. Parece-nos que entre a aprovação e a aplicabilidade ainda existe um abismo. Ou o que é pior e que nós temíamos: o que seria para agregar sustentabilidade a determinada camada econômica da cultura acabou agindo diretamente mais uma vez no ramo do entretenimento ou da indústria cultural.

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