Para quem está no Brasil, ouvir alguém cantarolar alguma canção da artista paraense Dona Onete não causa nenhuma surpresa. Surpreendente é estar na Alemanha e ouvir um alemão cantando espontaneamente a mesma música. O caso foi presenciado e contado pela pesquisadora especializada em gestão e políticas culturais Suelen Silva, demonstrando um elemento importante do cenário atual, o que ela chama de impacto da produção local na cultura global.

Bolsista no Programa da Chancelaria Alemã para Futuros Líderes da Fundação Humboldt, localizada na Alemanha, Suelen defende a importância de discutir as políticas culturais brasileiras numa perspectiva internacional, já que se vive em um contexto no qual as produções culturais têm se expandido para cada vez mais territórios. Em entrevista, a pesquisadora comenta ainda sua experiência como produtora em Belém (PA) e o contato que teve com a manifestação dos Pássaros Juninos, comuns no estado do Pará.

Na sua opinião, como o intercâmbio de práticas culturais entre diferentes países pode ajudar no desenvolvimento do debate sobre políticas e produção nessa área?

Ter referência sobre o que já foi ou tem sido feito na área de políticas culturais e saber o que deu certo e o que deu errado mundo afora nos poupa esforços, problemas e, inclusive, dinheiro. Falar sobre políticas públicas para a cultura é um dever. Na minha opinião, a área de estudo de políticas culturais ganha quando trabalhamos sob uma abordagem comparativa, com o intuito não de copiar os modelos adotados em outros lugares, mas sim de usar essas diferentes referências para nos ajudar a pensar as nossas realidades e os nossos desafios e, assim, criar estratégias de acordo com o que é de nosso interesse.

Além disso, é dever de quem trabalha com gestão cultural considerar a glocalização, ou seja, a relevância da produção local na cultura global e vice-versa, bem como o mundo virtual. Artistas e produtores produzem não só para o público na sua cidade, mas também, potencialmente, para o mundo. Um amigo alemão que mora aqui [na Alemanha] em uma cidade de 50 mil habitantes me surpreendeu ao cantarolar espontaneamente Dona Onete, por exemplo.

Curimbó do Grupo Sereia do Mar (imagem: Suelen Silva/ Acervo Pessoal)

Isso subverte a ideia de que servimos somente de exportadores de matéria-prima bruta e de consumidores do que vem de fora. Não. No Brasil produzimos obras e discursos e refletimos sobre eles também. Se não entendermos como funcionam as políticas culturais dos outros países, como vamos nos inserir estrategicamente, e não ingenuamente, nessa cadeia? Se estamos falando de políticas para a cultura em um mundo conectado, o isolamento dificilmente faz parte da solução. Precisamos trocar ideias e construir pontes de forma consciente e consistente. Fazer o intercâmbio de referências e experiências é o caminho para isso.

Sua pesquisa é voltada para a área de descentralização da política cultural alemã e boas práticas de gestão cultural. Qual foi a sua motivação para estudar esses temas e como a pesquisa nessa área tem contribuído para sua análise do cenário cultural?

Por mais clichê que soe, a motivação é a minha própria trajetória pessoal e profissional. Sou de Belém, cidade no Norte do Brasil. Tive a oportunidade de conhecer pequenas cidades e áreas rurais do Pará, que assim como na capital do estado possuem pessoas que buscam refletir e produzir narrativas e obras, mas enfrentam muitas dificuldades para isso, o que faz com que tantas desistam ou definhem no ostracismo. Essa é uma situação enfrentada no Brasil de forma geral, é verdade, mas na Região Norte isso ocorre de forma particular e pungente. É preciso, portanto, refletir sobre o modelo de política cultural que temos e que não beneficia as diferentes realidades do Brasil, este país de dimensão continental e diversidade cultural ímpar.

Durante o Curso de Especialização em Gestão e Políticas Culturais, do Itaú Cultural e da Universidade de Girona, tive a chance de comparar modelos de políticas culturais de outros países, como a Alemanha e a Espanha. O modelo alemão chamou atenção pela característica descentralizada da sua política cultural: pouco poder para a federação, mais responsabilidades para as cidades e os estados federados. Há uma delimitação sobre qual é a função do governo federal, dos estados e das cidades. Não é à toa que a Alemanha é um dos países que possuem uma das mais densas redes de instituições e iniciativas artísticas e culturais do mundo. Elas estão não apenas nas capitais, mas também em pequenas cidades e até em zonas rurais.

imagem: Suelen Silva/ Acervo Pessoal

É claro que é preciso considerar que o país percorreu uma longa história para chegar a esse cenário, que seu tamanho é maior que o do Mato Grosso do Sul e que é um dos mais ricos do mundo. Mas essa pesquisa tem me permitido perceber que, algumas vezes, não se trata da quantidade de dinheiro investido diretamente, mas de como os esforços políticos são alocados. No caso da Alemanha, eu destacaria a forte colaboração entre cidades e estados, o fortalecimento e o reconhecimento da sociedade civil, e a liberdade artística e cultural como valor a ser constantemente protegido e reforçado.

Em um país marcado pela centralização do poder durante o regime nazista e pela classificação de certas obras artísticas como "degeneradas", não é à toa que essa descentralização e essa liberdade artística sejam questões hoje valorizadas. Vemos atualmente no Brasil um discurso violento, a marginalização e a criminalização do trabalho artístico e de certas práticas culturais. Precisamos olhar para a história, refletir sobre o presente e não cometer os erros atrozes já cometidos contra a humanidade.

Você atuou no Centro Cultural Sesc Boulevard, em Belém do Pará. A partir dessa experiência, como você avalia o cenário das políticas culturais no município e no estado de forma geral? Quais são os pontos positivos e os desafios a ser superados?

A meu ver, o ponto positivo é a resiliência, a criatividade e a capacidade da gente paraense que vive arte e cultura. Falo do Sereias do Mar, grupo de carimbó só de mulheres que cantam sobre a força feminina; do Centro de Cultura Iacitata, que une ativismo e cultura alimentar; do Museu do Marajó, existente desde a década de 1970; das centenas de terreiros que muitas vezes fazem um importante trabalho educativo; do projeto Circular, que reúne mais de 40 iniciativas culturais só no centro histórico de Belém; de tantas e tantos artistas nas mais diversas linguagens. Ou seja, existem pessoas refletindo, produzindo, inovando e resistindo, apesar das políticas culturais que, historicamente, insistem em forjar uma cultura calcada em valores eurocêntricos e em marginalizar o que não se encaixa nessa imagem.

Na minha opinião, o desafio principal permanece sendo repensar o poder e construir a partir do diálogo. É preciso conhecer de fato o que já temos, estabelecer o que se quer alcançar e compartilhar responsabilidades e resultados de forma transparente, a partir das diferentes legitimidades e experiências que cada ator social tem, seja ele civil, público ou privado. Em um estado do tamanho e com a complexidade do Pará, cuja produção cultural não existe só em Belém, para fazer isso precisamos de formação continuada na área, mapeamento dos agentes culturais, pesquisa sobre as cadeias, planejamento, constante monitoramento, capacidade de articulação entre diferentes setores e, sobretudo, sensibilidade.

Você também realizou pesquisas relacionadas às práticas culturais na região do Pará, sobretudo as ligadas às apresentações teatrais dos Pássaros Juninos. Poderia comentar as especificidades dessa manifestação? Como ela se articula com a história e a identidade da região?

Os Pássaros Juninos são um tipo de performance cujos primeiros registros remontam ao século XIX. Possuem cenas melodramáticas e cômicas envolvendo personagens que fazem parte do imaginário amazônico, como matutos, nobres, indígenas, feiticeiras e fadas. O enredo traz o encontro entre esses personagens e um pássaro que é perseguido e às vezes morto por um caçador, mas que ao final sempre se recupera ou ressuscita. Tudo isso em cenas curtas, entremeadas com dança e canto e acompanhadas de uma pequena orquestra ao vivo. João de Jesus Paes Loureiro, escritor e pesquisador amazônico, considera os Pássaros como um tipo de "ópera cabocla".

Apresentação do grupo Pássaro Tucano em 2017. (imagem: Anna Fernanda Eloisa)

Os grupos são formados por pessoas de várias faixas etárias que frequentemente se autodenominam "brincantes". Elas não precisam ter experiência prévia com o teatro para participar; basta que a guardiã ou o guardião, que são quem coordena e geralmente dirige o grupo, avalie que a pessoa se "encaixa" em algum personagem. Essas pessoas então se reúnem e ensaiam alguns meses antes de junho. No mês de junho o grupo se apresenta onde é chamado – teatros, escolas, igrejas, clubes sociais etc.

É válido ressaltar que, não raro, os grupos de Pássaros são a primeira oportunidade que essas pessoas têm de experimentar atuar, cantar ou dançar em uma peça cênica. Durante a pesquisa de mestrado e quando trabalhei no Sesc Boulevard, tive a chance de conhecer pessoas que, por causa do grupo de Pássaros, entraram pela primeira vez em um teatro. Então você imagina a riqueza e a relevância de toda essa experiência. Mas ainda assim, ano após ano, os grupos não têm certeza se vão se apresentar novamente ou não. Eles precisam arcar com o transporte para o local de apresentação e com o cachê para a orquestra. Se houvesse uma parceria com empresas de ônibus – que são uma concessão pública – ou com o conservatório ou escolas de música, por exemplo, muito poderia ser facilitado. Aí entra o poder articulador do município e do estado de olhar para todas as pontas da cadeia, reconhecer esses atores e suas necessidades, sem perder de vista o interesse público.

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