por Milena Buarque Lopes Bandeira

A trajetória criativa da inventiva e transgressora compositora Alzira E será contada no documentário Alzira E – Aquilo que Eu Nunca Perdi. Com direção de Marina Thomé e apoio do Rumos Itaú Cultural, o filme pretende reunir canções, material de arquivo e memórias de parceiros, além de momentos recentes da vida da instrumentista de origem sul-mato-grossense.

“Digitalizamos o acervo pessoal de Alzira, com 64 fitas cassete, MDs e mais de 100 CDs que continham músicas inéditas e versões interessantes de músicas já conhecidas. Reunimos material de arquivo de muitos amigos e emissoras. É inacreditável como sempre se acha algo novo, e lindo”, conta Marina, amiga da compositora há mais de dez anos. Já em processo de filmagem, o projeto contou com meses de pesquisa biográfica, entre amigos, familiares, emissoras e instituições.

A documentarista conheceu Alzira através do poeta arrudaA, grande amigo e parceiro da artista. Desde então, fotografa e acompanha seu trabalho. “Fiquei fascinada por tudo. Pela artista, pela amiga, pela mãe, pelo violão”, diz Marina. “A partir dali, fotografei muitos shows de Alzira, acompanhei seu trabalho, e fomos construindo nossa amizade. Foram muitos encontros em sua casa, conheci seus filhos e sua família maravilhosa (e incrivelmente talentosa!).”

Dois momentos atuais da carreira de Alzira estão previstos no documentário. Em 2017, aos 60 anos, a cantora lançou a banda, o álbum e o show Corte, com alguns dos integrantes do Bixiga 70, e, paralelamente, gravou Recuerdos com Tetê Espíndola e participação de Ney Matogrosso. Alzira E – Aquilo que Eu Nunca Perdi, assim, apresenta suas muitas facetas, das suas origens pantaneiras aos experimentos em rock e free jazz.

"Alzira é um camaleão genial. Cantora que atravessa e transfigura gerações na música contemporânea brasileira."

Na visão de Marina, a artista é protagonista de momentos e processos singulares da música brasileira. “Alzira é um camaleão genial. Cantora que atravessa e transfigura gerações na música contemporânea brasileira. Parceira de Almir Sater, Renato Teixeira, Itamar Assumpção, Alice Ruiz, Luhli e Lucina, Ney Matogrosso, Luiz Waack, Tiganá Santana e muitos outros, fora toda a produção com os irmãos Espíndola”, diz.

Com lançamento previsto para o primeiro semestre de 2020, o filme também aborda, de maneira indireta, temas como envelhecimento, transgressão, resistência, o lugar da mulher nas artes, na mídia e na sociedade, e temas feministas e provocativos nas letras e composições. “Em 2016, decidi que esse filme tinha que ser feito e conversei com Alzira, que topou estarmos juntas nessa. Marcia Mansur entrou como produtora-executiva do projeto, o que nos possibilitou viabilizar a obra”, explica Marina. “Acho que poderiam ser feitos muitos filmes sobre Alzira, tamanha a importância dessa mulher em tantas esferas. Tenho a sorte imensa de estar produzindo um.”

Alzira por Marina

A documentarista destaca algumas das composições da artista: “Tenho um carinho especial por algumas músicas: 'Norte' (Alzira E/Itamar Assumpção), que inclusive contém um verso dá nome ao filme, e 'Rio Vermelho' (poema de Cora Coralina musicado por Alzira E). A música 'Cheguei', parceria com Tiganá Santana, que faz parte do primeiro disco da banda Corte, me pegou desde a primeira vez que escutei. É um hit dos shows do Corte. A música 'Kitnet', parceria com o poeta arrudA, que teve a participação de André Abujamra nos vocais do CD Alzira E, diz em um sambinha delicioso: ‘A vida não é toda praia, mas também é Copacabana’. Acho maravilhoso”.

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