por André Bernardo

Não é exagero dizer que a Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, é “uma cidade dentro da cidade”. Os números impressionam: são 140 mil habitantes – o nono bairro mais populoso da cidade –, 47 mil domicílios, 44 escolas de ensino fundamental e 3 de ensino médio, 10 unidades de saúde e 96 instituições religiosas numa área estimada de 4 km². Uma área, diga-se de passagem, maior que 96% dos municípios brasileiros.

Se depender da Associação Redes de Desenvolvimento da Maré, o complexo de favelas está prestes a ganhar um museu. Bem, não é um museu convencional, desses com obras de arte expostas em galerias ou penduradas em paredes. Mas um “museu a céu aberto”, com “formato interativo e integrador”. É o que propõe o Maré a Céu Aberto. Parceria da Redes da Maré com Azulejaria, o projeto é um dos selecionados na edição 2017-2018 do programa Rumos Itaú Cultural.

Maré a Céu Aberto nasceu da vontade de contar a história do bairro. A ideia é não concentrar essa história dentro de um só local, como em um museu. Ela estaria inscrita nas ruas e nas paredes do bairro, construída a partir das memórias de diferentes pessoas e grupos, e à vista de moradores e visitantes”, explica Isabella Porto, coordenadora do Eixo Arte e Cultura, da Redes da Maré.

Arte a serviço da memória

Para contar a história do complexo de 16 favelas, Redes da Maré e Azulejaria vão convidar artistas plásticos para criar intervenções permanentes em cinco pontos estratégicos. São eles: Praça do Parque União, Casa das Mulheres da Maré, Praça da Nova Holanda, Praça do 18 e Parque Ecológico da Maré. Cada um terá uma estação de memória e uma intervenção de arte contemporânea. E, ligando uma estação à outra, painéis e sinalização em azulejaria. 

“Os cinco locais são referências dentro de suas comunidades. Alguns deles, como as praças do Parque União, do 18 e da Nova Holanda, são espaços de concentração coletiva. Outros, como o Parque Ecológico da Maré, são marcos urbanos. E outros ainda, como a Casa das Mulheres da Maré, ganham força pela sua simbologia”, esclarece Edson Diniz, coordenador do Núcleo de Memória e Identidade.

Para ajudá-los na tarefa de escolher os artistas que vão assinar as intervenções, os organizadores convidaram uma curadora: Keyna Eleison, bacharel em filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre em história da arte pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ). Entre as diretrizes já propostas, “a produção artística deve considerar a colaboração dos moradores como parte fundamental de seu processo de criação” e “todas as intervenções devem passar a fazer parte, fisicamente, do território”.

O projeto Maré a Céu Aberto engloba, entre outras etapas, pesquisa de campo através de entrevistas com moradores, desenvolvimento das temáticas para cada uma das cinco estações, oficinas de arte e azulejaria para criação das intervenções artísticas, formação de jovens da Maré como monitores e guias turísticos e, por último, elaboração de um guia com um mapa ilustrado. A previsão de término é dezembro de 2019.

“Convidaremos historiadores, arquitetos e urbanistas, entre outros profissionais, para colaborar no processo. É como se estivéssemos convidando músicos de diferentes estilos para formar uma só orquestra. Uma orquestra que precisa ensaiar bem suas composições e, ao mesmo tempo, ser boa no improviso”, compara Laura Taves, cofundadora da Azulejaria.

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