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Você sabe qual o nome verdadeiro de Adoniran Barbosa? Pois: João Rubinato. E é o chamamento real do sambista que batiza a reunião de Tomás Bastian, Samuel da Silva, Gregory Andreas, Verônica Borges, Cadu Ribeiro, Ivan Banho, Laura Santos, Maiara Moraes e Soraia Ioti – o Conjunto João Rubinato. O grupo lança, no Itaú Cultural, o disco-livro Adoniran em Partitura, trabalho formado por 12 canções inéditas do músico. A publicação traz as partituras das faixas elaboradas entre 1935 e 1970, bem como fotos e reportagens da época e um texto acerca do início da carreira do compositor.

Tanto material é resultado de estudo vivo. A faísca deu-se em 2009, quando Tomás, em uma roda de pesquisa sobre o samba de São Paulo, notou que, ao apresentar títulos não famosos de Adoniran, tais músicas não eram reconhecidas nem pelos integrantes da velha guarda. “Apesar de sucessos como “Trem das Onze” e “Saudosa Maloca”, a maior parte de sua obra musical não foi esmiuçada, regravada, e permanece inacessível ao grande público”, afirma Bastian. E se for falar das outras habilidades que o artista, múltiplo e muito, desempenhou? O menino de Valinhos (SP), nascido em 1910, ocupou a função de ator radiofônico. Entranhou-se também na televisão e no cinema e, por passatempo, construía brinquedos recicláveis, categoria na qual estão as pequenas bicicletas. Você sabia? Da substância por trás da alcunha aos afazeres vários, há longas notas do sambista à margem da ideia geral. Uma história de 72 anos que Tomás decidiu, naquela roda de pesquisa, abraçar: surgiu, dessa maneira, o Conjunto João Rubinato, projeto cujo mote é a divulgação do lado, por assim dizer, menos popular do homenageado.

Turma estruturada, o próximo passo se deu: reunir e catalogar todas as criações ritmadas de Adoniran. “Nesse processo, acabei por me deparar com algumas faixas que, embora tenham sido lançadas em partitura, não chegaram a ser gravadas em disco. Ou seja: eram, de fato, canções inéditas do maior ícone do samba paulista!”, recorda Tomás com entusiasmo. E completa: “Mais: havia ali uma abrangência do percurso dele todo, desde o começo, na década de 1930, até os anos 1960 e 1970”. Entretanto, além da dificuldade do acesso às peças, como atestar o ineditismo dos achados? Cruzaram-se dados inúmeros, conseguidos por intermédio de fontes diversas: acervos especializados, editoras, colecionadores, estudiosos e jornais dos períodos enfocados, por exemplo. Confirmada a originalidade dos títulos, a proposta da trupe foi ampliada: o encarte do CD transformou-se em livro e, desse modo, nasceu Adoniran em Partitura, fruto de oito anos de um investigar cuidadoso.

 

“Duas Horas da Madrugada” | divulgação

A apresentação de agora é a estreia de tal intento. No show, faz-se uma incursão cronológica pelas obras inéditas do músico-guia, com destaque para os momentos distintos de sua produção, caminho trançado por histórias e projeção de imagens raras. Em meio a uma torrente de novidades, não existe porção favorita: “O repertório inteiro é importante para nós. Cada composição tem aspectos que a tornam única. “Minha Vida se Consome” talvez seja a primeira música em que Adoniran aborda, ironicamente, tragédias como a fome. Já “Mamaô” é um verdadeiro ponto fora da curva, pois fala sobre religiões afro-brasileiras e ele fez só a música, o que não é comum”, explica Bastian, diretor do espetáculo. Das canções reunidas, apenas uma não foi encontrada em partitura: trata-se de “Duas Horas da Madrugada”, parceria do sambista com o maestro Hervé Cordovil, preciosidade revelada pela memória de Regina Cordovil, filha do mineiro.

A celebração, em disco-livro-show, é da ordem da paciência, um catar joias ali, ali e mais ali. Uma experiência que contou com apoio vindo de lugares múltiplos e representado por participações na performance de 3 de junho: Sergio Rubinato, sobrinho do mestre; Carlinhos Vergueiro, amigo e parceiro do homenageado; Regina Cordovil, cantora que herdou do pai afeto enorme por Adoniran; Toinho Melodia e Osvaldinho da Cuíca, sambistas da velha guarda da garoa. “Um trabalho artístico pode estar aliado a um profundo esforço de pesquisa sem perder a vida, o afeto e a densidade humana”, defende Tomás. Eis o que o Conjunto João Rubinato almeja: trazer Adoniran Barbosa para perto, pertinho do público, potência que, 35 anos após sua morte, não se esvai.

Lançamento do disco-livro Adoniran em Partitura, do Conjunto João Rubinato [com interpretação em Libras]
domingo 3 de junho de 2018
às 19h 
[duração aproximada: 90 minutos]
Sala Itaú Cultural (224 lugares)

Entrada gratuita

[livre para todos os públicos]

distribuição de ingressos

público preferencial: uma hora antes do espetáculo, com direito a um acompanhante – ingressos liberados apenas na presença do preferencial e do acompanhante | público não preferencial: uma hora antes do espetáculo, um ingresso por pessoa

Para encomendar o disco-livro, envie e-mail para: projetojoaorubinato@gmail.com. Valores e mais informações, acesse: conjuntojoaorubinato.blogspot.com.br/p/adoniran-em-partitura.html.

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