Keren Ora Karman, gestora do espaço cultural independente Teatro do Centro da Terra fala da história bem como das atividades em prol da formação infantil em artes desenvolvidas no espaço

Localizado no bairro do Sumaré, na capital paulista, o Teatro do Centro da Terra chama atenção por, além de se encontrar 12 metros abaixo da superfície terrestre, apresentar uma programação própria e moderna. A designer Keren Ora Karman, junto com Ricardo Karman, está à frente da Kompanhia Centro da Terra, responsável por gerir o local.

Em um bate-papo, Keren fala sobre os desafios e as estratégias para administrar um espaço independente. Na conversa, ela também cita pontos como a preocupação curatorial com os eventos propostos e a atuação voltada para a formação em artes destinada a crianças. Confira a entrevista.

 

Viagem ao Centro da Terra (imagem: Penna Prearo)

Conte um pouco da história do Centro da Terra. E por que esse nome?

O Teatro do Centro da Terra é a sede da Kompanhia Centro da Terra. A Kompanhia é de 1989: o seu primeiro espetáculo foi 525 Linhas, dirigido por Ricardo Karman e escrito com Marcelo Rubens Paiva. Essa peça foi a primeira, em São Paulo, a usar projeção; portanto, havia esse lado multimídia que era inovador para a época. Já em 1992, teve a peça Viagem ao Centro da Terra, que dá nome ao nosso espaço, bem no período em que ocorria a construção do túnel Pinheiros, obra abandonada por um tempo e o espetáculo ocorreu lá dentro. Depois veio A Grande Viagem de Merlin, com cinco horas de duração e que saía da capital paulista e ia até Jundiaí [SP]. O público, nessa ocasião, ficava em um caminhão que era adaptado para o número. De teatro infantil, teve Ilha do Tesouro, em 2005, um espetáculo interativo que dá a volta na sede, entra pela garagem. Ficou 11 anos em cartaz. Apresento esse panorama para situar a atuação da Kompanhia, porque muito disso dialoga com a proposta do espaço.

Nos anos 1990, o prédio tinha os pilotis na garagem e Ricardo começou a escavar um buraco para fazer o teatro ali, onde estamos hoje, 12 metros abaixo da superfície. Esse processo todo de construção e aprovação durou dez anos, ficando pronto em 2001. Fizemos um superpalco, com coxia, ateliê, e acabaram sobrando três fileiras para os espectadores. É curioso que, em A Grande Viagem de Merlin, por exemplo, eram 40 pessoas na equipe e 30 na plateia.

O Centro da Terra começa com a ideia de várias linguagens. Na estreia, havia Berta Zemel, da esfera cênica, Guto Lacaz, das artes visuais e performance. E, de lá para cá, tivemos o Circuito Centro da Terra, com curadoria do Ricardo e de Renato Cohen, e trouxemos grupos performáticos e de artes do corpo do Brasil inteiro.

Trata-se, enfim, de uma experiência de quase 20 anos, mas, se olharmos para 2001, não existiam muitos espaços assim, pequenos teatros independentes. Por volta de 2009, chamamos Bia Matta e fizemos um trabalho de curadoria do espaço, pesquisamos todo o histórico, os desejos, as vontades que tínhamos. Entre 2009 e 2012, passamos a procurar e conseguimos captar recursos em editais, capital que serviu também para reformarmos o local.

Para além do físico há também o conteúdo. Qual é a preocupação do Centro da Terra com essa curadoria? Como esse processo é realizado?

Sim, para além do físico há o conteúdo. Temos muito cuidado com a curadoria: Alexandre Matias constrói a programação de música e Ruy Filho cuida da parte de cênicas. Duas pessoas que pensam ativamente a cena e escrevem sobre ela. A proposta é trazer o experimental, propor aos artistas um lugar de experimentação.

No campo musical, existem quatro segundas ou terças-feiras em que o artista elabora um projeto: cada show deve ser um show diferente, o que estimula a criação. No âmbito cênico, aos sábados e domingos, o mote é o mesmo: a experimentação em primeiro lugar, a construção livre. Só que, no meio teatral, há um porém: a divulgação de algo aberto é mais difícil. Como divulgar em um veículo o que não se sabe o que vai ser?

Tanto na música quanto nas artes cênicas, lidamos com a bilheteria por meio do ingresso consciente: o público paga quanto quiser, e tem funcionado legal. Na prática, a média acaba sendo 30, 15 reais. O bom é que democratiza o acesso: há gente que paga mais e há quem não possui tantas condições e paga o que pode. A própria venda promove outra relação com o público: não tem inteira ou meia; pensa-se sobre isso na hora da compra.

Quando você chegou ao Centro da Terra? Conte um pouco da sua história.

Foi durante A Grande Viagem de Merlin: trabalhei como assistente, conheci Ricardo, então diretor nessa época. Fui trabalhar com design e ele continuou realizando os projetos do Centro da Terra. No princípio, eu me voltei mais para o design e o teatro. Em 2008, idealizei o projeto Grão Centro da Terra.  Nesse momento, passei a me envolver mais com a questão da formação.

Sobre o Grão Centro da Terra: quais são a proposta e o formato?

Eu idealizei o projeto em 2008 e veio como uma continuidade de um trabalho da escola infantil Grão de Chão. Meus filhos estudaram lá e tiveram contato com essa proposta de arte e educação. Fizemos uma parceria: uma aula de arte, uma vez por semana, de duas horas e meia, e a criança tem contato com todas as linguagens, a partir daquilo que a professora traz, daquilo que os próprios estudantes trazem e do que acontece no entorno.

Não temos um currículo fechado: a turma vai desenhando um projeto com coisas que acontecem espontaneamente. Certo dia, por exemplo, uma obra cheia de máquinas estava quebrando o asfalto na rua. Os pequenos foram para fora, fizeram um exercício de observação, conversaram com os trabalhadores e essas coisas acabaram mexendo com o projeto. O que atrapalha, muitas vezes, é que, infelizmente, a arte é a última a ser escolhida e a primeira a ser cortada da grade extracurricular. Trabalhamos muito a questão da escuta, temos um ateliê bem amplo, cheio de figurinos, que fica no mesmo piso do teatro.

Grão do Centro da Terra (imagem: Keren Ora Karman)

Quais são os maiores desafios para a gestão do espaço?

O espaço é subsidiado pelo Ricardo e por mim: um lugar privado que se mantém, em grande parte, com os recursos vindos da locação dos escritórios que estão situados acima do teatro. Isso é o que possibilita que ele funcione. O maior desafio é tornar o teatro autossustentável: como fazer essa conta fechar? O ingresso consciente é uma forma de levar para o público essa noção de que quem paga pelo espaço e pelo artista é o espectador. É diferente da relação que instituições como Sesc, Itaú Cultural e Auditório Ibirapuera têm com artista e público. Portanto, é fundamental buscar entender qual é o local onde nós, independentes, nos encontramos.

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