Norma Casares

A crescente conscientização quanto às responsabilidades inerentes às instituições de guarda de acervos históricos e culturais tem mudado o olhar sobre os cuidados dispensados a arquivos e coleções.

Profissionais responsáveis por bibliotecas, arquivos e museus, tais como curadores, bibliotecários e arquivistas, têm o dever profissional de garantir que os itens de suas coleções sejam mantidos em condições adequadas para seu uso e para a manutenção de seu valor intrínseco. Também sabemos que não são todos os itens integrantes de acervos que devem ser preservados indefinidamente.

Saber distinguir as funções das diferentes tipologias das coleções é um primeiro passo para definir as exigências requeridas de cada uma. Conhecer as necessidades e o processo de degradação delas é um quesito indispensável para qualquer iniciativa de tomada de decisão no sentido de prevenir ou recuperar.

A dificuldade em adquirir fundos para proporcionar condições e procedimentos adequados às coleções já é bastante conhecida de todos, não só no Brasil, como também em muitos outros países. É igualmente sabido que as grades de disciplina nas graduações voltadas para a preservação e a memória são mais direcionadas às áreas técnicas específicas de cada função, fator que gera uma lacuna de conhecimento em relação ao trato na conservação das coleções.
Conforme Silva, (2008, p. 74),

Historicamente a intervenção ou aplicação específica de tratamento em documentos ou monumentos, com o sentido de recuperação física de suporte, surge nos museus como restauração e assume um sentido de intervenção estética, concentrado nas obras de arte e nos monumentos arquitetônicos. Com a passagem do tempo, as técnicas de recuperar ou prolongar a vida útil dos monumentos e documentos experimentaram um alto grau de desenvolvimento. Hoje, há um sofisticado conjunto de conhecimento técnico, equipamentos e materiais específicos para aplicação nas intervenções de preservação, conservação e restauração.

Mesmo assim, atualmente ainda carecemos de uma melhor definição das atividades atribuídas aos segmentos de conservação preventiva, conservação e restauração na manutenção da informação. A preservação não é uma ciência estanque. Ela se embasa em estudos científicos e, dessa forma, está em constante evolução. Nela estão incluídos procedimentos que exigem conhecimentos de especialistas da área.

Existem também procedimentos de conservação e de conservação preventiva passíveis de ser executados por profissionais de outras áreas, desde que bem capacitados e treinados. A experiência de anos nos mostra que, com treinamento bem planejado e com conceitos bem definidos, podemos capacitar profissionais de outras áreas para colaborarem na preservação.

A conservação preventiva é hoje o segmento da preservação que mais benefícios traz à coleção, pois trata o todo, distintamente dos demais segmentos, que tratam obra a obra. Zuñiga (2005, p. 29) confirma que:

O quadro conceitual que envolve procedimentos do que se convencionou chamar de Preservação só recentemente começa a se delinear de forma mais clara, com a adesão de alguns países europeus, como a França e a Inglaterra, aos métodos e técnicas preconizados pela chamada conservação preventiva. Aos poucos, seguindo linha de trabalho desenvolvida a partir dos Estados Unidos, em oposição à nossa matriz cultural européia, vão se firmando os conceitos referentes à preservação, conservação e restauração de bens culturais móveis, bem como o de conservação preventiva, o mais recente de todos. Fica desta forma uma lacuna de conhecimento específico no que diz respeito ao trato da conservação das coleções.

Assim, estamos diante de uma situação na qual existe um vazio de informação que envolve os profissionais cuja função é dar acesso aos usuários de arquivos, bibliotecas e museus, e ao mesmo tempo com a responsabilidade de manter a conservação dos acervos de guarda temporária e permanente. Faltaria nesse quadro de profissionais a presença de um conservador para a formação de uma equipe multidisciplinar capacitada a desenvolver um trabalho integrado e abrangente.

Nesse contexto, sabemos que é escasso o mercado de profissionais na área, além da dificuldade de contratação pela formação específica cuja profissão não é reconhecida oficialmente. Resta então capacitar os membros das próprias equipes de funcionários de uma instituição, por meio de programas de capacitação em ações de conservação e conservação preventiva.


Referências bibliográficas

CONSERVAÇÃO PREVENTIVA EM BIBLIOTECAS E ARQUIVOS. CPBA. Disponível em: www.arqsp.org.br/cpba/.

FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. Casa de Oswaldo Cruz. Política de preservação e gestão de acervos culturais das ciências e da saúde. Rio de Janeiro: Fiocruz/COC, 2013. Disponível em:
https://comcolbrasil.files.wordpress.com/2015/06/polc3adtica-de-preservac3a7c3a3o-e-gestc3a3o-de-acervos-coc-fiocruz.pdf

MUSEU DE ASTRONOMIA E CIÊNCIAS AFINS. Política de preservação de acervos institucionais. Rio de Janeiro: Mast: CNPq, 1995.

SILVA, Sergio Conde de Albite. A preservação da informação arquivística governamental nas políticas públicas do Brasil. Rio de Janeiro: AAB: Faperj, 2008. 284 p.

SPINELLI, Jayme; PEDERSOLI JR., José Luiz. Plano de gerenciamento de riscos: salvaguarda & emergência. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2010.