por Milena Buarque Lopes Bandeira

Histórias Afro-Atlânticas reúne cerca de 400 obras de mais de 200 artistas para narrar alguns aspectos das histórias de todos os atlânticos – do Sul dos Estados Unidos à ponta da América do Sul –, territórios e países que se constituíram e se transformaram tendo como base e chão o trabalho escravo. Em uma iniciativa coletiva, a exposição, que segue em cartaz no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp) e no Instituto Tomie Ohtake até o dia 21 de outubro, mostra o impacto da presença e das culturas africanas nessas sociedades.

Com curadoria de Adriano Pedrosa e Lilia Schwarcz, Ayrson Heráclito e Hélio Menezes (convidados) e Tomás Toledo (assistente), a exposição apresenta cinco obras do Acervo Banco Itaú.

O artista visual e professor Claudinei Roberto da Silva, que já atuou na coordenação de instituições como Paço das Artes, Museu de Arte Contemporânea (MAC/USP), Fundação Bienal, Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS) e Museu Afro Brasil, comenta cada uma delas. Hoje, ele é curador da exposição PretAtitude – Insurgências, Emergências e Afirmações na Arte Afro-Brasileira Contemporânea, no Sesc São Carlos.

O Trono do Rei ou a História do Sanitarismo no Brasil

Chamam-se “estudos” os registros preparatórios que antecedem a execução de uma obra. Por sua qualidade, alguns desses ensaios ganham a autonomia e o status de obra acabada. É o caso deste O Trono do Rei, aquarela realizada em 2014 por Sidney Amaral (São Paulo, 1973-2017). Pintor e escultor, o artista foi também exímio desenhista. São frequentes em sua obra os autorretratos em que se representa em condição análoga a dos escravizados. Aqui ele se exibe equilibrando na cabeça um vaso sanitário, alusão clara aos negros que eram empregados para dar fim aos dejetos produzidos na “casa grande”, subjaz a metáfora amarga sobre a persistência dessa condição.  
 

 

Emblema

Rubem Valentim (Salvador, 1922-São Paulo, 1991) consagrou-se como artista de múltiplos recursos, foi prolífico escultor, gravador, desenhista e pintor. Sua trajetória de autodidata vai da figuração à abstração e nesse percurso constitui uma obra de grande densidade poética e espiritual de que é exemplo o relevo Emblema. As cores, inclusive o branco de Oxalá, e a proposição abstrato-concreta presentes em seus trabalhos correspondem ao simbolismo derivado da cosmogonia de matriz africana e afro-brasileira.


 

Habitação de Negros

Nessa litografia colorida à mão por Johann Moritz Rugendas (Alemanha, 1802-1858), mais do que ilustrar o cotidiano do escravizado no Brasil do século XIX o artista nos informa sobre a humanidade dos indivíduos ali representados; a despeito da violência intrínseca, a escravidão, os indivíduos submetidos a ela logram cultivar elos e estimular afetos que fortalecem sua subjetividade. Ao empregar nas obras os pressupostos do neoclassicismo, Rugendas romantiza a realidade, mas empresta dignidade aos personagens realçando sua resiliente humanidade.


 

Préparation de la Racine de Mendiocca

Em 1918, o intelectual baiano Manoel Quirino (1851-1923) publicou O Colono Preto como Fator de Civilização. Antecipando Gilberto Freyre (Recife, 1900-1987), Quirino sugere que o elemento escravizado exerceu competência e habilidade na execução de suas tarefas, fato que não raro é negado. O escravizado africano foi, também, por isso, um fator civilizatório. O alemão Johann Moritz Rugendas foi responsável pela criação de uma das mais significativas iconografias sobre o Brasil do século XIX: na litogravura Preparação da Mandioca, a complexidade desse fazer no trabalho combinado dos escravizados é apresentada em suas múltiplas etapas.
 

 

Captain Stedman – Narrative South America, Volume I. 1813

A canção Strange Fruit, de 1939, é célebre na voz de Billie Holiday (Estados Unidos, 1915-1959) e faz alusão aos linchamentos dos negros no Sul dos Estados Unidos, onde se promovia o comércio de macabros souvenirs que incluíam fotografias dos corpos supliciados. No século XIX, o colonialismo europeu ofereceu motivos para a execução da gravura Um Negro Pendurado pelas Costelas, por William Blake, que ilustrou a obra de John Gabriel Stedman (Holanda, 1744-Reino Unido, 1797), militar nascido na Holanda que, servindo ao Reino Unido, participou da repressão a escravos rebelados no Suriname. A narrativa que faz dessa campanha e a crueldade dispensada aos rebelados, descrita pela ilustração de Blake, alimentaram ideais de abolicionismo.

 

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