por Heloísa Iaconis

O corpo humano, uma gama infindável de perspectivas e promessas: aqui está o mote curioso e criativo que direcionou Yuji Kodato, fotógrafo e realizador de imagens em movimento, na feitura de Territórios Corporais, projeto contemplado pelo programa Rumos 2015-2016. Trata-se de uma busca pela constituição física de gente diversa. O investigar ganhou base nas artes visuais e na técnica da macrofotografia, lente sagaz que perscruta entranhas e detalhes mínimos, porções de mundos que, na nudez comum dos olhos, não são vistas.

Após 14 meses, mais de 70 participantes e ao menos 10 mil fotografias, um site, uma exposição e um zine, o projeto chega ao meio audiovisual com o lançamento de um compilado de retratos e relatos, histórias que envolvem os cliques de minúcias.

Territórios Corporais from NÓIS on Vimeo.

O fundo do fundo

A relação de Yuji, mineiro de Uberlândia, tanto com a fotografia quanto com o cinema é sustentada pela procura por uma visão que ultrapasse o campo, por vezes limitado, oferecido pelo órgão humano. Ver o que está por trás da camada, no canto de lá da pele, do outro lado do pé. O fotógrafo tem especial interesse pelos ângulos que transformam o jeito como as pessoas apreendem a realidade, os outros e a si mesmas. “Deturpar o corpo, criar cenas que só poderiam existir a partir do aparato da câmera, fotografar o fantástico a partir do mundano”, explica. Com um desejo de escapar de repetições e clichês, o artista encontrou na macrofotografia uma ferramenta para caçar o inusual.

Quase que de modo simultâneo, a decisão da técnica a ser trabalhada foi também a escolha do recorte: corpos humanos. “O corpo é, basicamente, o que somos”, resume o idealizador. O eixo de carne, ossos e sangue é instrumento para que se sinta a realidade em volta, tudo e todos. Conectar imagens com a matéria do ser é apresentar ao espectador uma experiência que não o abstraia do eu, um canal criador de laços distintos com temas como o tempo, a vida e a morte. E, claro, o corpo – aquilo que é essencial, ordinário, íntimo, nas palavras de Yuji.

No projeto, o fotógrafo utilizou uma lente que o impedia de focar o que estivesse afastado. A proximidade com o modelo foi máxima, máquina encostando na tez. Por isso, os primeiros grupos retratados tinham intimidade com o criador – amigos, colegas, pessoas dos círculos familiares. Depois, a confiança de conhecidos distantes foi conquistada e, por fim, alguns e-mails anunciaram totais desconhecidos interessados em participar da proposta. Ao se verem nos resultados, veio o misto de sensações: curiosidade e estranhamento, fascínio e incômodo. Não é costumeiro se ver no fundo do fundo. Há, por exemplo, quem tenha achado as fotos feias. E pronto: para o artista, um dos objetivos dessas sessões é debater padrões de beleza e explicitar a condição dual em que o corpo está inserido – belo e feio, particular e anônimo.

Foto que faz parte de Territórios Corporais - foto: Yuji KodatoFoto que faz parte de Territórios Corporais - foto: Yuji KodatoFoto que faz parte de Territórios Corporais - foto: Yuji KodatoFoto que faz parte de Territórios Corporais - foto: Yuji KodatoFoto que faz parte de Territórios Corporais - foto: Yuji KodatoFoto que faz parte de Territórios Corporais - foto: Yuji KodatoFoto que faz parte de Territórios Corporais - foto: Yuji KodatoFoto que faz parte de Territórios Corporais - foto: Yuji KodatoFoto que faz parte de Territórios Corporais - foto: Yuji KodatoFoto que faz parte de Territórios Corporais - foto: Yuji KodatoFoto que faz parte de Territórios Corporais - foto: Yuji Kodato

Yuji recorda-se com carinho do apoio e da liberdade construídos a partir de sua participação no Rumos. Como o fotógrafo vem de uma cidade do interior e é independente e autodidata, a estrutura erguida pelo programa, desde a equipe até o aparato financeiro-técnico, foi fundamental para que ele incursionasse por territórios e territórios.

A Mostra Rumos: Narrativas do Invisível, em cartaz de agosto a novembro de 2017, no Itaú Cultural, em São Paulo (SP), também ganhou um significado especial: Yuji teve contato direto com as respostas do público diante da obra.

Todas essas etapas estimularam o documentarista: como previsto no plano inicial do trabalho, a parte audiovisual deu sequência à caça das riquezas corporais. “O corpo está sempre em movimento. Pulsa, respira, se contrai e expande. E se transforma constantemente. Menstruação, lactação, suor, o processo de cicatrização de uma ferida”, cita o fotógrafo – que, ao ter percorrido trilhas de veias e pelos, aprendeu a notar o mínimo, o micro, o detalhe.

Ficha técnica do vídeo

Imagens e edição: Yuji Kodato

Fotografia adicional (bastidores): Olívia Franco

Música e tratamento de som: Lucas Vidal

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