por Milena Buarque Lopes Bandeira

Viver sempre à espreita pode levar à canção. É assim que a cantora e compositora mineira Luiza Brina costuma topar, no meio do caminho, com suas criações. “Porque qualquer coisa pode me levar a ela [à música]: um filme, uma estrada, uma conversa, uma pandemia. Por sua vez, a canção me leva a todos esses lugares”, explica.

Em “Como Será que a Música Começa”, composição que integra seu mais recente álbum, Tenho Saudade mas Já Passou, de 2019, Luiza diz já conhecer esse mistério, de como o som vem e vai e a deixa em um lugar de paz.

Muito cedo na infância a música já simbolizava refúgio, “um lugar onde eu sentia a possibilidade de descarregar as inquietações, me conectar comigo e com o mundo, e construir algo para o futuro”. Foram as avós materna e paterna as responsáveis por direcioná-la inicialmente ao piano, apresentando tanto a face lúdica quanto a face teórica do que viria a ser a sua relação com a canção.

“Sempre que havia uma possibilidade, eu pedia às minhas avós e à minha mãe que me ensinassem alguma coisa. Minha avó paterna, que era professora de piano, começou a me explicar o nome das notas, os ritmos, as funções, o jeito de posicionar as mãos sobre as teclas. Já minha avó materna me instigava a escutar e a brincar no piano, tocar as coisas de ouvido”, conta.

Ao longo das nove composições de seu último álbum, a cantora e instrumentista revela a singularidade de seus arranjos, em parcerias com artistas como Ceumar, Fernanda Takai, Lio Soares (Tuyo), César Lacerda e Marcelo Jeneci. Lacerda, que também assina a direção artística do projeto, foi primordial para o nascimento do disco. “Eu estava em uma crise criativa, e ele começou a me instigar a compôr coisas a partir das nossas conversas. As canções foram surgindo assim: é um disco sobre a canção, uma homenagem ao que já foi feito até hoje, e também uma busca por novos caminhos.”

Luiza iria apresentar essas composições na Sala Itaú Cultural mas, assim como as demais atividades do IC, o show foi suspenso. Nesta entrevista, a cantora fala sobre leituras, sons, saudade, amparo e paz – temas que permeiam, talvez literalmente, seu universo poético e minimalista.

O que a faz acordar para ver o sol?
Tenho andado bastante ansiosa e preocupada com a pandemia [do coronavírus] que estamos vivendo. A música tem sido meu amparo. É o recurso que tenho para lembrar quem eu sou, lembrar do meu desejo, do meu instinto. É também uma forma de aproximação, dentro do isolamento. Tanto com parceiros – com quem posso compor a distância –, quanto com artistas que me inspiram e com quem me conecto na escuta. E ainda com o público, em que a troca é sempre insuspeitada. Tenho estudado muitas horas violão e guitarra todos os dias, aprendendo novas técnicas, pesquisando harmonias, acordes, repertório. E estou começando também a gravar coisas por aqui, caseiras, com o intuito de lançar, quando possível, canções de quarentena.

Como as músicas começam para você? E quando e onde elas começaram em sua vida?
Na composição, as músicas começam nas viagens, nos filmes, nos livros, nas manifestações das diversas espiritualidades, nos amores, nos acontecimentos que, em algum momento, se realizam à sua maneira. E, principalmente, no violão, onde acontece, para mim, o exercício da canção.

Na vida, a música veio cedo. Minhas duas avós tocavam piano e minha mãe estudava violão. Tenho a sensação de que a curiosidade pela música sempre existiu em mim. Tive uma infância muito angustiada, tinha muitos medos, não gostava de ser criança, de não ter autonomia. A música desde essa época já era para mim um refúgio, um lugar onde eu sentia a possibilidade de descarregar as inquietações, me conectar comigo e com o mundo, e construir algo para o futuro.

Sempre que havia uma possibilidade eu pedia às minhas avós e à minha mãe que me ensinassem alguma coisa. Minha avó paterna, que era professora de piano, começou a me explicar o nome das notas, os ritmos, as funções, o jeito de posicionar as mãos sobre as teclas. Já minha avó materna me instigava a escutar e a brincar no piano, tocar as coisas de ouvido. Então desde cedo tive a oportunidade de entrar em contato com esses dois lados da música, um mais lúdico e outro mais teórico, e isso faz parte da minha relação com o som até hoje.

Para onde as canções a levam? Quais são as suas companhias?
Costumo viver sempre à espreita, por causa da canção, porque qualquer coisa pode me levar a ela: um filme, uma estrada, uma conversa, uma pandemia. Por sua vez, a canção me leva a todos esses lugares.

Sou apaixonada pela obra de Gilberto Gil, pelo seu violão e pela maneira como ele consegue juntar espiritualidade, política, amor, tudo isso numa mesma canção, sempre de uma maneira muito bonita.

Para além disso, Adriana Calcanhotto, Rita Lee, Caetano [Veloso], Milton Nascimento, Marina Machado e Ceumar. E meus amigos e colegas contemporâneos, como Thiago Amud, Vovô Bebê, Sara Não Tem Nome, Julia Branco, Juliana Perdigão, Luiz Gabriel Lopes, Mãeana, Castello Branco, Ana Frango Elétrico, Jennifer Souza, Letícia Novaes e Kristoff Silva – são artistas que me influenciam e me acompanham.

Vivemos tempos de isolamento. Você poderia nos indicar, então, um álbum, um filme ou série e um livro? O que você vê e ouve quando está só?
Como nestes tempos de isolamento nossos perfis nas redes sociais têm sido a grande maneira de conexão com o mundo, vou indicar uma live e uma websérie de vídeos que eu tenho acompanhado: “Boletim do Fim do Mundo”, live do Bruno Torturra, e a série Minha Música, da Adriana Calcanhotto.

Acompanho as lives do Torturra há mais de um ano, gosto de como ele elabora as questões sobre os acontecimentos no Brasil e no mundo. Atualmente, as lives têm me ajudado a compreender o que estamos passando. Já a série da Adriana tem me inspirado e me emocionado bastante. Tão bonito ver como ela pensa e estrutura a canção.

Em termos de música, tenho escutado muito os discos do Edgardo Cardozo, cantautor argentino que adoro, e também um disco que acabou de ser lançado, Meio, do Marcos Lamy, um amigo maranhense.

Tenho gostado de ler poesia, amo Ana Martins Marques, minha conterrânea. O Livros dos Jardins e O Livro das Semelhanças têm me acompanhado. Depois de muito tempo ensaiando, assisti pela primeira vez ao filme Noites de Cabíria, do [Federico] Fellini. É o filme preferido do Caetano, e agora está na lista dos meus preferidos também.

E como viver confiante no futuro no momento atual? O que você diz para si mesma? O que falaria para outros?
Confesso que estou muito pessimista com relação ao futuro, não somente diante do coronavírus, mas também com a situação-limite que vivemos, na qual existe a ideia de que a economia está acima de qualquer coisa: do bem-estar das pessoas, dos animais, do planeta, da natureza. A sociedade está em colapso, o fim do mundo parece estar muito próximo.

Mas acho que a confiança no futuro reside na ideia de que a única maneira de evitar, ou pelo menos adiar esse fim do mundo, é através de uma tomada de consciência, da revisão do sistema capitalista, da urgência em cuidar do meio ambiente, da busca pela fraternidade, pela cooperação. Talvez a pandemia deixe essa situação mais evidente e permita que a gente possa refletir melhor sobre isso.

Você diz que se sente em paz na canção. Onde mais?
Vivendo na cidade, atualmente, tem sido difícil me sentir em paz. A canção é o que costuma me salvar disso tudo. Ou um verão na Bahia – que é quase a mesma coisa.

Do que você tem saudade? Você sabe de fato a tal receita para que ela passe?
Neste momento de isolamento tem sido tão fácil sentir saudade. Dos amigos, da família, dos shows. Acho que o segredo agora é olhar para o presente, mas tudo bem se a saudade vier.

Veja também