por Marina Lahr

Um corpo em crise, dilacerado pelas forças que o atravessam. Um corpo que tenta escapar de si mesmo, numa condição de inoperante diante das expectativas do mundo. Um corpo que se reinventa para ser outro em si mesmo, deflagrando uma dança que não é gerada dentro, mas justamente fora dele, no lugar instável entre o ele e o outro, em um fluxo de arrebatamento e dissolução. 

Essas são algumas das sensações corpóreas e humanas mais proeminentes que o coreógrafo Marcelo Evelin – um dos principais nomes da dança contemporânea no Brasil – investiga em seu material performático e de movimento mais recente. A Invenção da Maldade, como define seu próprio criador, é um acontecimento dançado em tempo e espaço e uma obra que está sujeita a uma constante atualização a partir do encontro entre artista e público.

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Contemplada pelo Rumos Itaú Cultural 2017-2018, a peça traz à tona os processos de humanização e desumanização e se volta para os desafios habituais da coexistência em sociedade. Marcelo explica que seu espetáculo pode ser definido como uma forma de inocência que não conhece a própria ferocidade. “Não é um espetáculo em que tento definir o que é o mal ou a maldade. Nessa performance eu quis mostrar, em essência, que o ser humano possui um lado escuro, um lado difícil, contraditório, que a gente não toca, não abre. Vivemos em um mundo onde todo mundo posa para selfie o tempo inteiro, todo mundo é feliz, todo mundo é lindo, incrível, e eu acho que a realidade não é assim.”

A inocência a que constantemente se refere o artista conecta-se, sobretudo, às memórias que Marcelo possui de sua infância. “Vai começar a invenção da maldade” era a sentença que o coreógrafo, nascido em Teresina (PI), mais escutava de sua avó sempre que se preparava para brincar de "performar" e fazer teatro. O título escolhido para sua apresentação é, dessa forma, uma reminiscência e uma meditação sobre a subversão que sempre esteve presente em sua vida. “Eu não venho de uma família de artista, não era para eu ser artista e também não tive nenhuma espécie de apoio quando decidi ser artista. Na infância, eu brincava para proporcionar uma abertura, para superar uma realidade dura que existia em minha vida e, por isso, eu quis fazer essa peça, que trata dessa subversão, desse ‘abrir espaços’”, esclarece.

Mais do que dialogar com as transgressões e as perversidades inerentes ao ser humano, A Invenção da Maldade tenciona realçar a aspereza e a debilidade do existir no mundo, principalmente em sua atualidade. O coreógrafo descreve que a nova performance surgiu de questões deixadas por outra obra sua, Dança Doente (2017). “De certo modo, todas as minhas peças vêm com questões que não foram resolvidas anteriormente, que continuam para outras criações. A Invenção da Maldade é, assim, uma peça em que eu quis reaproveitar procedimentos conceituais e corporais abordados anteriormente. É um espetáculo extremamente simples, no qual busquei uma rudeza, uma precariedade, uma reinvenção do corpo para versar sobre a humanidade e os processos de desumanização.”

Para exteriorizar toda a fragilidade social que seu trabalho representa, o coreógrafo firmou em sua terra natal a base para o processo de criação. “Eu quis fazer A Invenção da Maldade no Piauí para aproveitar toda a precariedade que existe lá. É um lugar pobre, esquecido, isolado, mas eu não trocaria Piauí por nenhuma São Paulo, por exemplo. Acho que esses locais da precariedade, esses lugares que ninguém pensa, são os mais potentes, justamente porque a gente tem que tirar dali o que existe ali. Eu sou do Piauí, trabalho no Piauí e acredito que é preciso fazer uma política forte de descentralização da arte”, opina Marcelo. 

Interessado em sempre propor algo que promova experiências novas para o público, ele destaca a invenção presente em seu espetáculo como forma de lidar com as dificuldades humanas. “Para mim a palavra invenção é muito forte, e isso me guiou muito nesse processo. A própria dança como arte, como espetáculo, é uma invenção da contemporaneidade. Inventamos coisas para sobreviver, para seguir em frente, para apaziguar todas as contrariedades que vivemos na vida. Dançar é inventar uma realidade, é inventar uma possibilidade, e mais do que nunca com essa performance eu quis inventar essa possibilidade.”

A peça, que reúne artistas de diferentes lugares do Brasil e do exterior, se constrói a partir de sete corpos movimentando-se em volta de fogueiras que nunca se acendem, junto com uma trilha eletrônica e 70 sinos pendurados do teto. É por meio desse ambiente que A Invenção da Maldade aborda a condição humana em sua crueldade. O coreógrafo salienta que a intensidade, a fisicalidade dos movimentos, a própria crueza e nudez – tanto dos corpos quanto do espaço e dos artifícios teatrais – são os aspectos de maior relevância de sua apresentação.

Marcelo sintetiza ainda sua A Invenção da Maldade, e a arte em si, como forma de dar sentido à existência diante dos cenários conturbados que a sociedade moderna vem enfrentando nos últimos anos.

“A arte é muito importante, neste momento mais do nunca, porque é o único lugar em que temos acesso a um tipo de informação subjetiva, a um tipo de imaginário. É o lugar do diálogo, é o lugar de encontro, de transformação das pessoas. Um projeto de arte vai ter sempre uma enorme relevância, pois pode ajudar a nos igualar a outras forças da natureza, a nos tirar dessa posição de centro do universo. Arte é para que a gente possa continuar sobrevivendo, existindo.” 

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