por Claudia Nina
 

“Recife está todo vivo dentro de mim.”
(Clarice Lispector)


“Ah, está se tornando difícil escrever”: a frase-desabafo, cravada no meio do belíssimo “Restos do Carnaval”, é a fenda aberta do biográfico no centro de uma pretensa ficção – ou conficção? – em que a memória assume o comando do texto em primeira pessoa. A voz é a da menina solta nas mornas ruas do Recife, olhando ávida os outros se divertirem. Nunca, talvez, a criação esteve tão enredada na memória como nesse e em demais contos de infância de Clarice Lispector, alguns reunidos em Felicidade Clandestina (1971), outros em A Descoberta do Mundo (1985), volume que traz ainda fragmentos de ficção e crônicas publicadas anteriormente no Jornal do Brasil, no período entre 1967 e 1973.

Foi por volta dos anos 1970, sua última década de vida, que a autora fez o resgate dos tempos de menina, retornando ao Nordeste afetivo. E não só nos contos ambientados no Recife, é bom lembrar, mas também (como não?) através da alagoana Macabéa em sua trajetória migrante, sendo a própria Clarice uma retirante (ucraniana), tendo nascido no decorrer de uma longa trajetória rumo à parte mais solar do Brasil. Seu primeiro porto depois da travessia: Maceió. Contudo, a complexidade da novela A Hora da Estrela (1977), bem como as conexões possíveis com os aspectos biográficos dessa obra, é tema para outra reflexão.

Voltando aos contos de infância, é interessante notar algo curioso: com o intuito de se agarrar à memória da luz e do mar que a recebeu, Clarice, talvez, tenha reafirmado a condição de criança que se agregava a um pouco de alegria em contraposição a uma tristeza infinda, marcada pela pobreza e pela doença da mãe, situações postas em alguns de seus mais belos escritos. Felicidade Clandestina traz textos marcantes dessa infância perdida. Dois se destacam: o já citado “Restos do Carnaval” e o conto que dá título ao livro.

Em ambos os textos, o pêndulo oscilante entre alegria e tristeza mostra a opção pela acolhida de uma memória generosa, que filtra os aspectos positivos e, no final, prioriza o lado bom de tudo o que existe. Inevitável fazer uma associação com o pensamento filosófico de uma autora para quem, “apesar de”, se deve escrever, amar, viver. Nesse sentido, cabe ainda uma referência à esperança, “o esqueletinho verde” do conto “Uma Esperança”, igualmente publicado em Felicidade Clandestina. O sentimento-inseto que apareceu em sua casa representa, entre tantos outros possíveis significados, o delicado essencial que “pousa” no cotidiano mais banal e ninguém se dá conta. O diálogo com o filho, nesse caso, é de um requinte filosófico que vale ressaltar:

– Ela quase não tem corpo, queixei-me.

– Ela só tem alma, explicou meu filho e, como filhos são uma surpresa para nós, descobri com surpresa que ele falava das duas esperanças.

No conto “Restos do Carnaval”, a menina pobre experimenta esse revoar de esperança quando se descobre radiante com a expetativa de, pela primeira vez na vida, ter uma fantasia e experimentar ser outra pessoa, e não ela mesma, graças às sobras de papel crepom da fantasia da amiga. Só que essa alegria clandestina, frequentemente ameaçada, é tisnada pela súbita piora do estado da mãe. De repente, a menina, antes encantada com a chance de ser uma rosa no Carnaval, vê-se despedaçada ao ter que ir correndo à farmácia comprar um remédio.

O quadro triste, porém, ganha um final redentor quando uma súbita “salvação” acontece. Ela de volta ao Carnaval possível, já maquiada e vestida de rosa, apesar de ainda marcada pelo susto, experimenta o êxtase de uma chuva de confetes. Um menino bonito presta atenção nela e faz a brincadeira. É como se o tal “esqueletinho verde” aparecesse de repente, na forma do inesperado amigo que lhe faz a delicadeza do gesto.

Em “Felicidade Clandestina”, a menina quase-triste-mas-feliz observa a alegria distante: a amiga tem um pai dono de livraria (a livraria Imperatriz, em Recife, que Clarice frequentava quando criança, é a inspiração) e lhe acena com a oportunidade de empréstimo do livro sonhado – As Reinações de Narizinho. Mas o prazer de tê-lo é adiado, pois a garota custa a cumprir a promessa por pura crueldade.

De volta ao cenário das ruas, com amor pela liberdade, andar ensolarado, a autora narra suas desventuras, sempre oscilando entre o êxtase pela vida, a esperança e a aridez dos recursos. À beira dos espaços alheios, clandestina, na soleira de portas, itinerante nos entre-lugares, ela fala do trabalho árduo de esperar pelo melhor: “Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia”.

Nesses textos de infância, a primeira pessoa é uma espécie de voz-eco: o barulho do mar, simbolicamente, volta e devolve as lembranças da praia, como acontece de forma mais expressiva no conto “Banhos de Mar”, que narra as viagens da menina com o pai de madrugada para Olinda. Eles atravessavam a cidade escura para chegar à beira do mar antes de o sol nascer, e é a essa luminosidade que Clarice recorre para falar de uma infância feliz “apesar de”: “Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária”.

O texto recupera a alegria perdida que só pode ser experimentada novamente pela palavra: “A quem pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais?”.

O que seria o texto senão esse espaço possível para viver de novo o nunca mais? Há quem diga que foi nas narrativas curtas que grande parte do melhor de Clarice aconteceu. Críticas à parte, o que vale aqui ressaltar é que os contos representam de fato a fenda aberta para que sua memória encontrasse um porto – ensolarado e cheio de sal. Apesar de.


* Claudia Nina é jornalista e escritora.

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