Qual é a história de sua maior saudade? 

A minha maior saudade é daquilo que não consegui viver. Conhecendo o mundo, venho também me conhecendo, entendendo as lacunas educacionais e culturais que atingem um menino de favela. Sinto saudade de uma educação básica de qualidade. Sinto saudade de apoio psicológico. Sinto saudade de uma família bem estruturada, onde meu pai não tivesse sido vítima de um sistema desenhado para matar gente preta e a minha mãe não precisasse ser uma heroína todo santo dia. Sinto saudade de um lugar para chamar de meu país. 

O que o emociona em seu dia a dia?

As “arte-tudes” pensadas em nós, o humano. O reluzir dos olhos da mulher que carrega dor e beleza por trás do uniforme. O sorriso da criança que se encanta pela instigante diferença dos caracóis de meus cabelos. As obras de arte que pulsam e reverberam por aí, considerando e se sensibilizando com a realidade que nos cerca, sem ser vítima da cerca e do limite.  

Como você se imagina no amanhã?

Eu me imagino um ativista do sonhar e dos saberes, com um centro cultural pulsante na minha quebrada, a Favela da Torre. Longe das telas e perto dos livros. Calmo.

Quem é Alexandre Ribeiro?

Sou a mistura de sobrenomes e histórias mal contadas. Além de Alexandre Ribeiro, sou Miguel Barros. Sou o escritor de favela que viaja o mundo em busca de referências. Sou a mistura de Djamila Ribeiro com Manoel de Barros. Sou o povo de Darcy Ribeiro bailando com o “pretoguês” de Lélia Gonzalez. Sou a cópia da cópia da cópia – que não teve dinheiro para a melhor impressão e virou um original cheio de defeitos. Sinto saudades de um certo alguém.

Alexandre Ribeiro (imagem: Lucas Sampaio)

Um Certo Alguém
Em Um Certo Alguém, coluna mantida pela redação do Itaú Cultural (IC), artistas e agentes de diferentes áreas de expressão são convidados a compartilhar pensamentos e desejos sobre tempos passados, presentes e futuros.

Os textos dos entrevistados são autorais e não refletem as opiniões institucionais.

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