por Winnie Bueno

Passei todo o ano de 2020 assustada com a iminência da morte. Desde março passado, a morte é uma constante em minha vida. É tema frequente na sessão de terapia. Inundou meu coração de angústias e me tirou o sono durante meses. Tive medo de morrer e tive medo que morressem. Os picos de ansiedade vieram todos os dias e quando a morte se apresentou para mim, encerrando a vida de dois familiares que amei profundamente, eu lidei com ela como pude.

Meu tio e minha tia que morreram no ano passado viveram belas vidas de onde pude observar. E celebraram inúmeras vidas junto à deles. Tio Vilson era um homem que se alegrava com nossa alegria; tia Eva também. Eu gostava de ir à casa do tio Vilson e sentar com ele no pátio cheio de plantas para ouvi-lo rir. Gostava também quando a terreira – é, terreira com “a” mesmo – virava o palácio do Exu que ele cultuava, ou a arena de guerra do Ogum que ele recebia. Gostava da manifestação de Seu Marabô no rosto do tio Vilson e da força de Ogum quando seu corpo era sagrado para fazer morada do santo guerreiro. Eu gostava quando Seu Marabô estava na terra, no corpo do meu tio, e gostava de procurar Ogum nos olhos dele.

Da tia Eva também lembro da risada e da pele muito negra contrastada com as roupas multicoloridas que ela fazia questão de usar. Lembro dos alertas e do quanto ela gostava de caminhar sabendo para onde ia. Tia Eva foi a primeira pessoa a me levar para ver a Sapucaí em festa, num Carnaval há mais de dez anos. Com a tia Eva eu aprendi os bons lugares do Rio de Janeiro que ela tanto amava, aprendi que o Rio de verdade está para muito além da praia e do Cristo Redentor; ele mora muito mais na Igreja da Penha e no Mercadão de Madureira do que no Parque Lage ou em Copacabana.

Os ritos do tio Vilson são meus ritos também, as festas da tia Eva minhas se fizeram. Eu entendia esses dois seres humanos pelo que eles provocam em mim, mas nestes 32 anos em que tive a honra de conviver com essas duas pessoas incríveis nunca perguntei qual era o propósito da vida deles.

Quando a morte lhes chegou e virou concretude de meus justificados medos de 2020, não pude me despedir adequadamente de tio Vilson, pois a morte que o levou foi provocada pela covid-19. Para a tia Eva pude olhar uma última vez, embora a despedida tenha sido cerceada por essa mesma doença. Tia Eva era uma mulher que gostava do povo, que dizia que todos os negros eram meio parentes, pois vindos do mesmo lugar. Era o jeito dela de explicar a diáspora africana e de mostrar que tínhamos, sim, um lugar. Revezávamo-nos aos poucos para se despedir de tia Eva e ser uma fração das gentes que ela tanto amava.

O fato é que essas duas pessoas que me são amadas não irão mais sorrir nem celebrar; e com elas eu também não posso mais sorrir nem celebrar. A elas não posso perguntar quais são seus propósitos, mas posso imaginar por que viveram, que sentido a vida lhes tinha.

Talvez para o tio Vilson o sentido da vida fosse celebrar com a família, fosse ser pai e avô. É possível que o sentido da vida do tio Vilson fosse resguardar e cultuar as entidades de umbanda e quimbanda, pelas quais tão amorosa e respeitosamente ele zelava. Talvez seu propósito fosse espalhar afeto paterno sobre aqueles e aquelas que não tinham esse afeto com a mesma disposição que ele fornecia, talvez seu propósito na vida fosse ficar sentado no fundo do pátio assistindo à terra brotar.

O propósito da vida da tia Eva eu também posso imaginar. Pode ter sido dar uma vida feliz para sua única filha. Ou quem sabe o propósito da tia Eva tenha sido exigir que pessoas negras se sentissem adoradas e acolhidas. Talvez seu propósito fosse fazer da vida uma grande avenida de Carnaval, onde ela sempre pudesse desfilar com fantasias coloridas e brilhosas.

Ao pensar sobre o propósito da vida de quem amei e já não está mais aqui para me contar qual é, eu me convenci que viver não exige propósito.

Que seus propósitos podem ser muitos e que a simplicidade deles não significa que sua vida não seja uma boa vida. Viver bem não é sobre alcançar coisas, sobre carros importados, sobre estar em um topo financeiro, sobre ostentação e luxo.

Viver bem é sobre o legado que você deixa. Sobre o impacto que sua vida causa em outras vidas. A morte segue sendo uma iminência. Embora pareça que estejamos todos vivendo sob naturalidade, a morte segue concreta e cotidiana em um país que nega a ciência, os protocolos de saúde e os números. 

Infelizmente, preocupados demais com propósitos ostentativos, vamos abandonando os cuidados e roubando a vida de pessoas que, como meus tios, se preocupavam em viver bem com a comunidade da qual faziam parte.

Passado quase um ano de minha angústia com a morte, não é mais a morte que me assusta. O que me assusta é a banalidade da vida.

Veja também

Stolpersteine e a memória que fica

Alexandre Ribeiro debruça-se sobre o projeto do artista alemão Gunter Demnig e reflete sobre o processo de ressignificação de narrativas