por Milena Buarque Lopes Bandeira

 

Banda nascida em Fortaleza (CE) em 2003, à época como O Quarto das Cinzas, O Jardim das Horas costuma trazer a poética do nascer, da continuidade e do renascimento em seus projetos. O álbum Carbono, lançado neste ano, por exemplo, data originalmente de 2015, um “disco perdido”, como define a vocalista Laya, que estava “esperando chegar o tempo de lançar”.

“Foi um movimento bonito reunir lembranças e parceiros de bons anos de caminhada da banda. O amor entre nós é nossa criação”, conta. A presença dos amigos, aliás, é outro componente indispensável no som – muito referenciado – feito pelo grupo.

De Sonic Youth a Novos Baianos, passando por Tom Jobim e Émilie Simon, os integrantes d’O Jardim compartilham, nesta entrevista, memórias e descobertas musicais, falam de processo criativo e, claro, disponibilizam uma playlist com o som que faz o som deles.

Veja também:
>> Laya, um certo alguém

Cinco integrantes da banda O Jardim das Horas. Laya, a vocalista, à frente. Os outros quatro olham para lados diversos.
O Jardim das Horas (imagem: Márcio Távora)

Por que O Jardim das Horas? Como vocês todos se aproximaram e fizeram nascer uma banda?

Laya: A maresia do mar de Fortaleza nos juntou em 2003, quando a banda nasceu com o nome O Quarto das Cinzas. Eu, Laya, conheci Leco Jucá, David Brasileiro e Carlos Gadelha no processo do espetáculo Bagaceira, a dança dos orixás, da Cia. Vatá. Eles tocavam e eu era bailarina, mas já estudava canto e filosofia. Desse encontro nasceram nossas primeiras composições, num estúdio no quarto do David. Quando lançamos nosso primeiro disco completo, em 2010, mudamos o nome da banda para O Jardim das Horas, seguindo o fluxo poético dos encontros e das transformações. Encontramos palavras expansivas e que nos colocaram a céu aberto. Isso já foi com nova formação, tempo de trio, com Raphael Haluli no baixo. Encontramos um título em um poema n’O livro dos mais pequenos silêncios, do nosso amigo Léo Mackellene, que, por sua vez, havia homenageado a banda na mesma obra, batizando um dos capítulos de “O quarto das cinzas” (nome que se tornou também o do nosso primeiro álbum). Dança das palavras e dos sons.

Qual é a memória musical mais antiga de vocês?

Cozilos Vitor: Minha mãe cantando e ouvindo seus discos favoritos de Gonzaguinha, [Maria] Bethânia, Chico [Buarque], Ivan Lins e Caetano [Veloso].

Raphael Haluli: Os discos de new age do meu pai: Jean Michel Jarre, Vangelis e Kitaro.

Laya: Memória da banda? Para mim, é quando peguei o microfone e comecei a improvisar melodias, a liberdade de cantar, errar e se encontrar. Nossos primeiros shows, onde fui aprendendo. E é inesquecível a memória de abrir para os Mutantes no Abril pro rock 2007. Todo amor. Do som que vem lá dos meus pais também; tenho a sorte de nascer de mãe e pai artistas, poetas e cantores, memória sempre musical.

Carlos Gadelha: Os musicais infantis que passavam na TV nos anos 1980 – Plunct plac zuum e Arca de Noé – e os discos do Raul [Seixas] que meu pai ouvia.

Falando sobre a cena musical local de Fortaleza: o que vocês conhecem e ouvem e que deveria ser mais escutado?

Clau Aniz, Vacilant, Ilya, Michele Tajra, Ayrton Pessoa, Mateus Fazeno Rock, Briar, Glamourings, Nego Gallo, Má Dame, Fóssil. E duas bandas mais das antigas que, inclusive, aparecem em nomes de músicas em Carbono: Cidadão Instigado e Macula.

Falando no álbum, em meio à pandemia, vocês reviraram arquivos e lembranças e lançaram Carbono. Poderiam contar um pouco sobre o processo de criação do disco? Como criar em tempos de isolamento?

Laya: O Jardim tinha esse “disco perdido” em suspensão, esperando chegar o tempo de lançar. Gravamos por volta de 2015, e aconteceu que eu e Carlos Gadelha, que éramos casados, nos separamos e precisamos de distanciamento. Resolvemos dar um tempo e deixar no ar a possibilidade de um dia lançar o disco. Pois em 2020, quando todos nos encontramos presos em casa, precisando de arte e bons sons, veio a ideia de trazer o disco perdido para o mundo. “Carbono pra fogo”, como disse nosso amigo Caco Pontes. Foi um movimento bonito reunir lembranças e parceiros de bons anos de caminhada da banda. O amor entre nós é nossa criação. Chegou junto o selo Mercúrio Música, engrossando o caldo e levando o som para os ares. Nossas velhas novas músicas estão nas ondas, tocando em rádios, playlists e até no programa do Clay Pigeon, da rádio WFMU de Nova York. Som presente.

Quem faz o som de vocês?

Raphael: Muitas sonoridades fazem o som d’O Jardim, que nunca foi limitado a um estilo específico. Cada integrante trouxe sua bagagem, e o som é resultado da soma de todas elas.

Cozilos Vitor: O Rapha falou bem. Acho que o mosaico é grande e cada um trouxe sua contribuição. A gente ouviu muitos discos durante o processo de produção: Caymmi, Violeta de Outono, Zé Ramalho, Radiohead. Acho que na época eu estava ouvindo muito King Crimson, fase de 1980.

Carlos: Mutantes, Portishead, Massive Attack e Beck são algumas das primeiras referências sonoras da banda. Ao longo dos anos, e com a entrada de outros integrantes, isso foi se ampliando cada vez mais. Além de todos os mencionados, posso citar Can, Sonic Youth, Dirty Projectors, Warpaint, Unknown Mortal Orchestra e Connan Mockasin.

Recentemente, vocês se depararam com algum artista que não conheciam e de cuja obra tenham gostado?

Laya: Matheus Santiago, daqui do Ceará, Maria Flor e Luna, de Pernambuco.

Carlos: Lau e Eu, de Sergipe, Jadsa, da Bahia, Luna França e Dominick, de São Paulo.

O que O Jardim das Horas espera para o futuro?

Laya: O Jardim é um grupo de amigos artistas que, hoje em dia, trabalham em diversos projetos. Temos nossos trabalhos solo: Carlos Gadelha está prestes a lançar seu primeiro disco solo, eu também estou trabalhando em um novo pequeno álbum, com planos de deixar a música fluir cada vez mais naturalmente na vida. Assim que pudermos voltar a fazer shows, queremos realizar alguns tocando Carbono.

Raphael: A gente não está esperando para o futuro. O futuro é que está esperando a gente. Porque ele está lá na frente. Seja o que o futuro quiser.
 

O som que fez (e faz) o som de O Jardim das Horas

Laya

1. “Aurora”, Björk
Quando ouvi Björk pela primeira vez, pensei: quero cantar e fazer som doido igual a essa mulher.

2. “Ando meio desligado”, Mutantes
Ouvi por acaso na adolescência e nunca mais voltei ao normal.

3. “Matita Perê”, Tom Jobim
Jobim dramático no sangue e nas raízes harmônicas.

4. “Teardrop”, Massive Attack
Essa é a cara do começo da banda também.

5. “Le vieil amant”, Émilie Simon
Um dos produtores do nosso álbum O Quarto das Cinzas, o Paulo Beto PB, nos apresentou e ouvi muito na época, adoro o trabalho dela.

Raphael

6. “Glory box”, Portishead
Na primeira fase d’O Jardim, o trip-hop está bem presente, e a atmosfera desta música faz dela uma grande referência.

7. “I might be wrong”, Radiohead
Radiohead tem diversas músicas que inspiram, mas destaco esta porque ela serviu de base para a gente criar nossa versão de “Construção”, do Chico Buarque.

8. “Mistério do planeta”, Novos Baianos
Posso dizer que não haveria O Jardim das Horas sem os Novos Baianos, a guitarra do Pepeu e a voz da Baby.

Carlos

9. “Moonshake”, Can
Banda alemã, precursora do Krautrock, que influenciou muita gente que a gente curte, de Radiohead a Sonic Youth.

10. “Sunday”, Sonic Youth
Dos favoritos da casa desde antes de a banda existir.

11. “Elephants”, Warpaint
Piramos no som delas quando o conhecemos.

12. “Offspring are blank”, Dirty Projectors
Essas harmonias vocais! O que é isso?

13. “Ffunny ffrends”, Unknown Mortal Orchestra
Estava ouvindo um tanto antes da gravação de Carbono.

14. “It’s Choade my dear”, Connan Mockasin
Outro que, ao escutar pela primeira vez, falamos: o que está acontecendo aqui?

15. “Água viva”, Raul Seixas
Porque eu prefiro ser um “cidadão instigado”.

Veja também

O som que fez o som de Troá

Carolina Mathias e Manuella Terra falam sobre a presença das mulheres na cena musical e revelam suas influências sonoras