por Heloísa Iaconis

Música é fio de tempo: lembranças e planos são, costumeiramente, associados a canções que dão o tom a cada momento e desejo. Assim acontece, por exemplo, com Bruna Black. Em entrevista ao site do Itaú Cultural (IC), a cantora, compositora e instrumentista revisita o passado, pensa no hoje e conta como se vê no futuro (de preferência, com uma família linda e um Grammy Latino). Soma-se à conversa uma playlist com 17 faixas escolhidas pela artista, que bem representam o caminho que ela vem construindo. Confira abaixo o nosso bate-papo e os comentários dela a respeito de obras queridas.

Qual a sua memória musical mais antiga?
A minha memória mais antiga com a música vem da infância, quando eu cantava em uma espécie de congresso infantil da igreja evangélica.

Quando você se percebeu artista?
Eu me percebi artista na época que comecei a frequentar a Escola Técnica Estadual (Etec) de Artes de São Paulo. Os meus professores de então me alertavam do meu talento para a arte. No entanto, eu queria fugir disso, escapar dessa previsibilidade, já que o meu canto havia se tornado o traço principal da minha pessoa. Depois, quando passei a frequentar um curso de canto popular e compus a minha primeira música, acabei me reconhecendo como artista (sem que isso, porém, encobrisse outras partes de mim).

Como é o seu processo de criação?
O meu processo de criação tem muito sentimento. As minhas composições, assim como as faixas das quais faço cover, apresentam letras capazes de me levar a sentimentos profundos – o que também ocorre quando estou criando. Para qualquer coisa que vou criar, preciso reencontrar pessoas, histórias e emoções reais. Ao compor uma música, normalmente, ela surge pronta, com melodia, ritmo e harmonia. A partir disso, busco algo que ocorreu comigo ou com conhecidos, algo que possa ser vertido para a música em questão.

Agora, na pandemia, você tem criado?
No início do período pandêmico foi bastante difícil criar, em razão da falta de perspectiva e de contato com o outro, e da sensação de andar no escuro. Com o decorrer dos meses, achei uma pessoa que fez pulsar amor em mim e, por isso, consegui voltar a compor. Fui aprendendo a viver nesse caos, continuei o trabalho do duo ÀVUÀ [parceria com o cantor Jota.pê], gravei, deixei singles prontos para o lançamento, aceitei fazer algumas lives. Fui, enfim, reinventando a forma de me expressar no meio virtual. Porém, apesar desses vários movimentos, ainda me pergunto por quê... Quando recebo mensagens tocantes, sou instigada a continuar, mas tem sido difícil.

O duo ÀVUÀ, formado por Bruna Black e Jota.pê | foto: Bruno Fragma

Em 2020, você participou do The voice Brasil. Qual o balanço da experiência no programa? Participar do The voice Brasil foi desafiador: o confinamento, as responsabilidades, os testes por conta da covid-19, o medo. Guardo essa experiência como uma adição ao meu currículo, um bônus quanto ao alcance e ao reconhecimento. Serviu de aprendizado para que eu fixasse ainda mais os meus pés no chão. No programa, tive certeza do meu tamanho e da minha bagagem.

Há uma canção da banda As Despejadas em que você atuou como baterista, intitulada “Amor e luta”. A seu ver, o amor é mesmo uma luta que vale a pena?
As Despejadas me ensinaram que o amor não é só aquele romântico dos filmes e das novelas. Se você acredita em algo, tem que lutar por aquilo. E essa persistência também é amor. Lutas raciais, de gênero e sociais como um todo são formas de amor, de batalharmos por nós e por quem amamos.

A cantora Bruna Black | foto: Sergio Fernandes

Em “Dois inteiros”, você canta sobre alguém dividido, mas a pergunta vai na contramão dessa cisão. Para você, o que é ser inteira?
Ser inteira é dar tudo de si de acordo com a situação em que você está no momento. Ser inteira é ter compromisso, assumir, ser verdadeira consigo mesma e com o resto do mundo.

Como você imagina a Bruna Black no futuro?
A Bruna Black do futuro será uma mulher com uma vida pessoal estruturada, uma carreira sólida, um Grammy Latino e uma família linda.

Conheça a seleção de músicas de Bruna Black. Aproveite para ouvir a playlist da artista no Spotify do IC.



1. "Milágrimas", de Itamar Assumpção
O meu trabalho de conclusão de curso (TCC), realizado na Etec de Artes, teve como tema a identidade a partir da obra de Itamar Assumpção, o que representou um marco em minha vida.

2. “Mulher do Fim do Mundo”, de Elza Soares
Elza Soares é, para mim, um dos maiores exemplos de força. A admiração que tenho por ela também se justifica por conta da potência e da visceralidade que traz em sua voz.

3. “Oceano”, de Djavan
Djavan consegue poetizar sentimentos como ninguém, fora os arranjos musicais divinos. É uma grande referência musical para mim.

4. “Conte comigo”, de ÀVUÀ
Trata-se de um single lançado pelo ÀVUÀ, um duo meu com Jota.pê, o Jotinha. Sempre que canto essa música com ele, reforço a minha certeza em relação à nossa amizade e parceria no trabalho.

5. “O amor é um ato revolucionário”, de Chico César
Além de ser um poeta maravilhoso, Chico César me incentiva e me acolhe. Eu o conheci no Coral Jovem do Estado, e ele estava cantando essa canção.

6. “Açúcar ou adoçante?”, de Cícero Rosa Lins
Para mim, Cícero é alguém que sabe transformar “bad vibes” em matéria de criação. Nas minhas primeiras composições fui muito influenciada pela densidade que ele traz em suas músicas.

7. “Pra você dar o nome”, de 5 a Seco
5 a Seco é uma banda cujos integrantes, na minha percepção, compõem de um modo complexo, contudo, sem perder aquilo que querem realmente dizer.

8. “Come down”, de Anderson .Paak
Anderson .Paak é absurdamente preciso ao tocar bateria. Sou apaixonada pela área rítmica dessa música. Fico impressionada com o quanto os gestos das mãos e dos pés não influenciam na parte vocal.

9. “Formation”, de Beyoncé
Tenho em Beyoncé uma referência de carreira e de cantora que “rasga” no quesito sentimentalismo.

10. “Love on the brain”, de Rihanna
O que pontuei para Beyoncé vale também para Rihanna: são duas inspirações para mim.

11. “A partida”, de ÀVUÀ
Mais um single meu e do Jota.pê. Este, em especial, foi importantíssimo para nós, pois é uma letra inédita de Adoniran Barbosa.

12. “Coisa de pele”, de Theodoro Nagô
Theodoro Nagô apresenta um violão percussivo e uma sensualidade vocal que eu amo. A interpretação dele é uma delícia de ouvir, independentemente do que estiver cantando.

13. “Intuição”, de Timm Arif e Naaya Lelis
Ambos, Timm Arif e Naaya Lelis, são artistas que carregam a essência do povo preto, a verdadeira magia negra.

14. “Bicho de mil faces”, de Miranda Caê
O timbre de Miranda Caê é tão gostoso de ser ouvir... E as suas performances são perfeitas.

15. “Alujá”, de Baobá
Baobá oferece uma atualidade sem perder o ancestral.

16. “Sonhos em cativeiro”, de As Despejadas
As Despejadas é a banda que me revolucionou toda, um grupo que aborda causas sociais, de gênero e raciais.

17. “Feito pra acabar”, de Marcelo Jeneci
Marcelo Jeneci é, para mim, alguém que tem muita poesia e arranjos completos, uma simplicidade complexa como um abraço.

Veja também

Infinita: um ano de pandemia, por Tulipa Ruiz

Cantora esteve entre os artistas que falaram aqui no site sobre a experiência de um mês em isolamento, em abril de 2020. Agora ela volta para contar o que fez e como viveu nesse um ano de pandemia