por Encontro com Espectadores – Valmir Santos

As comédias podem debater sistemas de ideias ou filosofias de vida com a mesma consistência do drama ou da tragédia, guardadas as características de cada gênero. As peças do carioca Martins Pena (1815-1848), por exemplo, retratam a fisionomia da falsa moralidade no Brasil Império com lentes que permanecem precisas para ler a República Federativa do Brasil, que completa 130 anos.

O caráter do brasileiro também é mensurado na dramaturgia contemporânea quando os textos conjugam formas humorísticas e sérias com destreza nos recortes de épocas e de costumes. É o caso de Caros Ouvintes, em que o autor e diretor Otávio Martins mostra como o público e a cultura da radionovela foram abduzidos pelo advento da telenovela, a partir da década de 1960, em plena ditadura civil-militar (1964-1985).

Em conversa durante o 33º Encontro com Espectadores, em 29 de setembro de 2019, Martins afirmou que a estrutura e o enredo da peça refletem a “transição da imaginação para a imagem pronta”, referindo-se aos veículos rádio e televisão. A era da radionovela teve seu apogeu entre os anos 1940 e 1950, quando radioatrizes e radioatores desfrutavam da popularidade que os artistas dos folhetins televisivos só foram conhecer décadas adiante.

Quando o sentido da escuta passou a concorrer com o da visão – “o encaixe da imagem e da voz”, como afirmou Martins –, a ruptura no campo do entretenimento de massa foi inevitável.

Em meio a esse primeiro plano da narrativa, o texto pontua questões de fundo relativas à realidade política do regime militar. A ação se passa em 1968. Justamente em dezembro daquele ano foi decretado o Ato Institucional número 5, endurecendo a repressão aos opositores.

Cena da peça teatral "Caros Ouvintes" (imagem: Daumer de Giuli)

Funcionários de uma emissora estão às voltas com o último capítulo da radionovela Espelhos da Paixão. Ela é transmitida ao vivo, e do lado de fora do prédio montou-se um palco para celebrar o final da trama, que atrai muitos fãs à porta da rádio. O que era para ser uma festa aos poucos se converte na exposição da crise financeira que leva à demissão dos artistas, do locutor, do sonoplasta, do produtor etc. Os patrocinadores minguaram com o avanço da televisão.

Levantando contradições

A crítica Beth Néspoli observou que entre as camadas que podem ser lidas a partir dessa comédia dramática estão os “espelhos da cultura”, como a patrulha a quem se desquitava naquela época. O produtor da radionovela tem um caso com uma das atrizes e pretende se separar da mulher para viver com a amante, gerando reações moralistas no entorno. “A peça não dá lição, mas levanta contradições”, afirmou a mediadora.

Segundo a jornalista, Otávio Martins trabalhou como um ourives na estruturação do texto. Beth lembrou do estadunidense Richard Schechner, professor de 85 anos, para quem o rito cênico “é constituído” parte por entretenimento, parte por eficácia, sendo que o conceito de eficácia varia de acordo com as vertentes e o tempo. Historicamente, diz ele, quando há um bom equilíbrio entre essas partes, o teatro floresce. “Nesse sentido, Caros Ouvintes dosa a intencionalidade de entreter o público e ser eficaz”, afirmou.

Também convidado a refletir sobre o espetáculo ao lado de Martins, o ator Dalton Vigh concordou que “a engrenagem [da peça] é um organismo vivo”. Ele não participou do processo criativo que culminou na estreia da obra, em 2014. Entrou para o elenco em 2019, na atual temporada no Teatro Renaissance. De qualquer modo, sente-se identificado e sintonizado com o poder da enunciação na era do rádio.

Intérprete do personagem Vicente, o produtor, Vigh é adepto do trabalho de mesa, como os artistas do teatro costumam descrever a leitura esmiuçada do texto, normalmente uma das primeiras etapas das produções teatrais que envolvem o elenco. Criado pela avó, assídua ouvinte de programas de rádio, ele viveu seus melhores momentos no teatro participando de espetáculos do Grupo Tapa sob a direção de Eduardo Tolentino de Araújo.

Otávio Martins, por sua vez, estava na fase de formação da Companhia do Latão (1997) quando mergulhou nos pensamentos críticos e políticos da obra do dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956). Anos depois, atuou no monólogo A Noite Antes da Floresta (2006), do francês Bernard-Marie Koltès (1948-1989), dirigido por Francisco Medeiros, experiência que trilhava por questões universais como a exclusão, a solidão e o desejo do homem contemporâneo.

Criação coletiva

A equipe de criação de Caros Ouvintes inclui outros profissionais acostumados a participar de montagens que valorizam o estudo e a pesquisa, como a atriz Agnes Zuliani, no papel da madame conservadora Ermelinda Penteado; o ator Alex Gruli, como o sonoplasta Eurico; e o ator Eduardo Semerjian, o locutor Wilson. Complementam o elenco Carol Bezerra, Fernando Pavão, Leo Stefanini e Natallia Rodrigues.

O empenho colaborativo de toda a equipe da peça, aliás, foi enfatizado por Otávio Martins. “Todos nós somos autores”, resumiu, lembrando que cabe ao diretor atentar para o ponto de vista da audiência. “O teatro é para alguém. Sem o público, não há arte.”

Criador entusiasta do processo de Caros Ouvintes, desde o início Gruli afirmou que o espetáculo “salta um pouco da bolha, traz o público para a reflexão não bandeirosa, sem tentar pregar”. Um parâmetro disso pode vir da professora de rádio Priscila Gubiotti. Admiradora da obra, pelo conteúdo e pelo que expressa acerca da área com a qual tem afinidade, ela marcou presença na Sala Vermelha do Itaú Cultural acompanhada da mãe, Leonor, que assistiu três vezes ao espetáculo.

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