por Laura Erber

 

Os veículos aéreos não tripulados, mais conhecidos como drones, passaram a integrar nossa paisagem cultural há não muitos anos. Hoje, no entanto, já são facilmente encontráveis nas prateleiras de lojas de brinquedos e na produção agrícola, em que atuam fazendo demarcação de plantio, inspeção de pragas e pulverização das plantações. Também ajudam a monitorar espécies em extinção em territórios de difícil acesso e são usados como entregadores não humanos de encomendas das mais variadas. A miniaturização dessas máquinas e seu uso eficiente ou amigável em diversos setores ajudaram a lhes dar maior credibilidade, fazendo-nos esquecer momentaneamente que os drones são peça hoje fundamental para a indústria bélica e suas estratégias de extermínio.

Se esses veículos são capazes de visualizar e ler tão bem vastas e complexas faixas de território, é porque seu aperfeiçoamento se deve muito ao papel que eles vêm tendo nas guerras contemporâneas. Descolando o olhar do corpo, os drones foram promovidos como solução segura para o combate, no qual a própria visualização dos territórios e a capacidade de ler as imagens das câmeras acopladas são determinantes para o sucesso das operações de guerra.

Não é incomum depararmos com notícias do tipo “Ataque dos EUA com drones mata membros do Estado Islâmico no Afeganistão” ou “Estado Islâmico usa drone modificado da DJI para lançar bombas em Mosul” ou, ainda mais pitoresca, “Drone com foguete é usado para acabar com churrasco na vizinhança”.

A onipresença dessas máquinas no nosso espaço doméstico, bem como o design remetendo a padrões que lembram ora a forma de um inseto, ora a de uma pequena e divertida nave espacial, ou ainda a de um avião em miniatura, também contribuiu para amenizar a dimensão violenta do seu uso e despistar a opinião pública. Os drones militares têm sido responsáveis por grande parte das mortes nas guerras atuais no Oriente Médio, desafiando a temporalidade e a espacialidade dos conflitos tradicionais. Precisamente por serem veículos não tripulados e nem sempre facilmente identificáveis, impõem dificuldades para a obtenção de dados sobre as ações em que participam.

Uma importante iniciativa para tentar tornar mais clara a atuação desses veículos nas operações de guerra é o trabalho de investigação, coleta e difusão de dados realizado pelo Bureau of Investigative Journalism, plataforma de pesquisa sem fins lucrativos criada em 2010 por David e Elaine Potter. Entre 2010 e 2020, o Bureau acompanhou os ataques com drones norte-americanos e ações encobertas no Paquistão, no Afeganistão, no Iêmen e na Somália. Os relatórios resultantes dessa pesquisa oferecem informações abrangentes sobre mortes de civis e ajudam a aumentar a transparência oficial sobre assassinatos direcionados, criando condições para responsabilizar a Casa Branca. Nessa plataforma é possível encontrar informação relevante sobre a história das operações militares com drones, o debate jurídico a respeito da legalidade ou da ilegalidade de tais operações e alguns dados sobre os mortos delas decorrentes.

Imagem de um quadro com várias pessoas deitadas no chão e um homem em um cavalo.
"O massacre de Quios" (1824), de Eugène Delacroix. O quadro retrata um dos mais violentos episódios da guerra entre a Turquia e a Grécia em 1822. (imagem: )

É importante lembrar que há 15 anos os Estados Unidos vêm sistematicamente realizando assassinatos orientados por veículos não tripulados. Mas foi ainda na Guerra dos Bálcãs que os drones se mostraram aliados extremamente úteis e eficientes, funcionando como uma espécie de olho incansável e superastuto, que podia monitorar o território por 24 horas e ajudava a localizar as tropas sérvias nas densas florestas da antiga Iugoslávia. Nenhum avião pilotado tinha a possibilidade de monitorar as florestas por tanto tempo seguido sem perder o rastro da movimentação das tropas.

Os críticos dos drones destacam precisamente o fato de eles representarem uma forma de vigilância onipresente e de serem mais difíceis de enquadrar segundo as normas jurídicas de que dispomos. Enquanto isso, militares e governos defendem seu uso com base na ideia de eficiência, precisão cirúrgica e segurança.

A visualização do inimigo sempre foi fator decisivo numa batalha. As guerras, de forma contínua, produziram imagens culturalmente relevantes, e as imagens de guerra foram muitas vezes peças de propaganda fundamentais para a relação das sociedades com os seus governantes. Antes do advento da fotografia, as pinturas cumpriam o papel cultural de representação e valoração dos combates, atuavam interpretando e conferindo sentido a eles, frequentemente desumanizando o inimigo e glorificando os vitoriosos. Mesmo quando seguia protocolos convencionais, a pintura de cenas de guerra servia aos pintores como um laboratório em que podiam explicitar um vasto repertório de emoções vinculadas ao drama da vitória e da derrota de um exército sobre outro. Com a chegada das imagens mecânicas, aquela dimensão emocional das cenas de guerra foi dando lugar às imagens de visualização do território, mais “frias” ou mais técnicas, porém não menos importantes para a construção de novos pactos emocionais entre os cidadãos, seu imaginário nacional ou sua identidade étnica e as guerras contemporâneas.

Nas duas últimas décadas, os drones protagonizaram uma mudança na construção cultural do imaginário bélico, alimentados pela ideia amplamente difundida de armas perfeitas, que ajudariam a poupar vidas humanas, porque não são espaçonaves tripuladas. Para alguns especialistas no assunto, como Lauren Berlant e Andreas Graae, a imaginação social e cultural da guerra com drones está perpassada pela lógica perversa de que uma aliança entre violência e assepsia pode ser benéfica.

Não por acaso, no Brasil temos sido testemunhas de uma escalada do uso de helicópteros policiais como verdadeiros veículos de guerra – neste caso, tripulados. O próprio ex-governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel realizou passeios aéreos em que exibia com orgulho essa nova estratégia de “guerra contra o tráfico”, que dificulta ainda mais a denúncia de participação do Estado no assassinato de pessoas inocentes. Em 2019, Witzel estava a bordo do helicóptero que metralhou uma tenda de orações numa favela de Angra dos Reis. Por sorte não havia ninguém no local. Os disparos feitos por helicópteros têm sido tão frequentes que uma escola no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, decidiu instalar no telhado uma placa com letras capitais avisando: “ESCOLA, NÃO ATIRE”.

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Fotografia de drone branco com câmera voando
Um drone com câmera voando (imagem: Josh Sorenson (https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Quadcopter_camera_drone_in_flight.jpg))

Foi durante o governo de Barack Obama que os drones foram mais claramente instituídos como armas de guerra. Obama herdou de seu predecessor, George Bush, a Guerra ao Terror, iniciada em resposta aos ataques de 11 de setembro de 2001. A invasão ilegal do Iraque por Bush recebeu fortes críticas e aumentou a insatisfação com a presença das tropas norte-americanas no Iraque e no Afeganistão. Como parte de sua campanha, Obama prometeu trazer as tropas de volta, e os drones foram uma parte fundamental desse plano, pois com eles era possível vigiar e atacar o território inimigo sem estar presente.

Apesar de o presidente ter feito discursos em que mencionava o problema da opacidade das operações militares com drones, seu governo não primou pela transparência e manteve uma campanha violenta, lançando mão de ataques com esses veículos. A partir de então, os drones também entraram definitivamente para o imaginário cinematográfico, comparecendo em filmes dos mais diversos, desde histórias sobre meninos espionando vizinhos, como em Good Boys (Bons meninos, 2019), até a distopia de The giver (O doador de memórias, 2014), passando por filmes mais autorais, como o curta From the sky (2014), dirigido por Ian Ebright, que acompanha um pai e um filho árabes viajando por uma região frequentemente atacada por drones.

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Fotografia colorida de placa escrita Warning: no drone zone. Knowbeforeyoufly.org. Com um desenho de um drone com uma faixa vermelha de proibição em cima.
Leave Your Drones at Home (em livre tradução, Deixe seu drone em casa). Placa de proibição de circulação de drones de autoria de http://knowbeforeyoufly.org/ campaign. A placa está no Monumento de Washington, em Washington, D.C. (imagem: Alan Levine (https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Leave_Your_Drones_at_Home_(26868215812).jpg))

Se a produção de imagens é algo eminentemente humano, dependente da capacidade do homem de sustentar um olhar sobre o mundo e transmiti-lo para os demais, pode parecer incongruente falar em imagens “não humanas” ou “pós-humanas” ou, ainda, em “imagens depois do humano”, conforme a formulação da pesquisadora Joanna Zylinska adotada no livro A fotografia depois do humano (2019). Esse tipo de questão se insere, por um lado, no debate sobre visualidades pós-antropocêntricas, ou seja, imagens não estruturadas pelo olhar humano e antropocentrado, mas, por outro lado, diz respeito à discussão, mais antiga, sobre o impacto das técnicas sobre nossa cultura visual e nossos modos de ver. As imagens feitas por drones, assim como as imagens produzidas por outras tecnologias de visualização e mapeamento territorial, como o próprio Google Maps, estariam situadas não tanto num movimento de crítica ao olhar antropocêntrico, mas de desumanização de nossa relação com a visualidade, criando uma distância entre militares e seus alvos que torna ainda mais absurdos os patamares de tolerância da violência. Por isso aqui prefiro falar em imagens contra os humanos, já que o pós-antropocentrismo, encarado como uma crítica necessária à centralidade do humano, deveria poder gerar uma expansão da experiência do olhar, produzindo ou revelando outros imaginários capazes de questionar os fundamentos de nossa cultura visual.

Novos traumas e paradoxos da visualização por drone

A desumanização do olhar produzida pela lógica de uma guerra desencarnada tem como aliadas principais as imagens aéreas que orientam os operadores de drones nos bombardeios. Mas não é tão simples quanto parece, pois o tipo de cerceamento dos alvos que o drone permite acaba por reumanizar o olhar dos pilotos.  

Fotografia em preto e branco de avião soltando bombas
Um avião norte-americano B-24 Liberator em missão de bombardeio sobre a Alemanha, em 1945. (imagem: https://media.defense.gov/2007/Sep/25/2000447568/-1/-1/0/020930-O-9999G-200.JPG)

Embora os pilotos de aeronaves militares já há muito tenham operado uma desidentificação entre o campo visual e a zona de tiro, e apesar de não ser nova a experiência de anulamento do outro, reduzido à noção de alvo a ser abatido, com os drones as operações de guerra se configuram concretamente como cenas de jogo de computador, e isso tem efeitos psíquicos importantes sobre aqueles que comandam as explosões. Como escreveu Adam Henschke, os soldados de agora podem matar pessoas apertando botões diante de uma tela e depois ir jantar com a família. Segundo especialistas, esse tipo de trabalho produz feridas morais. Inicialmente defendida como uma forma de proteger os soldados e pilotos dos riscos de estar em campo, a pilotagem de drones tem produzido mais burnouts do que as operações praticadas por pilotos tradicionais.

Uma das respostas para isso é a própria assimetria entre a vida doméstica do piloto e a operação de guerra em que ele está envolvido durante as horas de serviço. Além disso, o piloto de drone passa muito mais tempo vigiando seu alvo do que um piloto de avião. O monitoramento pode durar vários dias ou semanas, de modo que acaba propiciando o surgimento de algum tipo de reconhecimento do alvo como um ser humano ou pelo menos como alguém que realiza certos itinerários ou ações no território, inclusive com padrões de comportamento que os pilotos podem identificar, passando da objetividade perversa da visualização fria do alvo para algo que começa novamente a se parecer com um olhar diante do crepitar de uma imagem.

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