por Naine Terena

 

Estamos em abril, aquele mês em que os indígenas entram em evidência para palestras, cantorias, artesanatos etc. Neste ano atípico, muitas dessas ações irão para o plano virtual. Ações essas realizadas de forma voluntária, outras com remuneração, a depender do parceiro. Não muito longe, alguém oferece visibilidade. Outro questiona por que cobrar pela colaboração que vai engajar mais pessoas na luta indígena. Perguntas de um público às vezes muito próximo da causa, o que poderia provocar estranhamento, mas não me espanta.

A aura de que temos tudo à disposição paira no ar. Basta ir ali no meio do mato buscar uma caça, uma fruta, um pouco de água e preparar a alimentação na “oca”, sem nenhum custo, sem dever nada ao capital. O que tenho dito a todas as pessoas é que numa diversidade de mais de 300 povos indígenas esse cenário não é aplicável, talvez à metade desses povos, uma vez que o contato com os colonizadores delimitou espaços de sobrevivência, diminuiu a quantidade de animais nas matas. Quem dera todos estivessem ainda com muita vegetação em seu entorno para explorar os recursos naturais da maneira como aprenderam com os antepassados.

Neste mês faço uma conversa direta e sincera com você, a partir de outras conversas rápidas e sinceras. É um tema que faz ruir muitas estruturas e tem sido constantemente foco de debates até mesmo entre os próprios indígenas.

Busquei escutar pessoas indígenas e não indígenas, algumas carregadas de expectativas; outras, de revoltas. Vamos começar pelas revoltas – talvez casem melhor com o início do texto. Embalados pela visão purista e romântica dos povos indígenas, parceiros às vezes se esquecem de que o contato trouxe novas necessidades de consumo, saídas mais duradouras das aldeias e retornos frustrados, porque a vida na cidade – o modus operandi – é outro. Como áreas garantidas de renda nas comunidades, vemos comumente as profissões nos campos da saúde e da educação, mas não dá para todo mundo ser professor.

Um grupo de pessoas indígenas estão reunidos, há pessoas filmando e alguns objetos pelo chão. Imagem do Coletivo Manoki.
Filmagem do Coletivo Manoki (imagem: Coletivo Manoki)

Tipuici Manoki, 33 anos, cientista social e membro do Coletivo de Cinema Ijã Mytyli Manoki e Myky dos povos Manoki e Myky (MT), apresenta certo cansaço com o cenário que encontra para construir por meio do empreendedorismo cultural uma perspectiva para as próximas gerações. Ela explica que seu coletivo não cobra em todos os momentos, em todas as participações, em todo lugar que vão. Tipuici dá um exemplo: se ela faz a locução de um produto audiovisual, poderia ser remunerada. O editor e a pessoa que faz a música para o mesmo filme recebem. E a maioria desses profissionais não é indígena.

Ela lembra que 2020 foi o ano em que mais produziu e mais enviou imagens para todos os lugares do Brasil, sem nenhum tipo de remuneração, a não ser um trabalho em que ganhou uma cesta básica. Explica que tem um gasto para fazer a ação voluntária, pois precisa ir de uma aldeia a outra, alimentar-se, parar de plantar na roça pelo tempo que filma. “Às vezes a gente tira do próprio bolso. Nós temos 18 filmes e não ganhamos financeiramente com eles. Não temos retorno financeiro. A gente come, veste roupa, estamos nesse trânsito de aldeia para a cidade. A energia a gente paga, a internet por meio da qual conversamos com os parceiros é a gente quem paga.”

O que Tipuici reforça é o que tenho visto e ouvido em muitas comunidades indígenas. O desejo de viver de sua produção – que quase sempre é oriunda de aspectos relacionados à cultura – precisa também de um pouco de compreensão de quem está do lado de lá. Não se trata puramente de vender a cultura indígena. É ramificar formatos que a partir da cultura também gerem renda (e, olhe, não estamos falando de grandes empreendimentos, apenas do que é essencial). Vide a quantidade de indígenas vendendo biojoias, roupas, vivências/turismo nas redes sociais, palestras etc.

Val Eloy veste um vestido vermelho pintado por ela mesmo. Ela também está usando um cocar de penas que misturam cores vermelha, amarela e preta.
Val Eloy com um vestido pintado por ela mesmo (imagem: Val Eloy)

Val Eloy, indígena do povo Terena, me contou que o que a salva neste momento é a venda das suas artes. Ela tem despachado produtos para todo o país. “Há exatamente um mês, coloquei em prática meu trabalho de grafismo que até então fazia somente para meu uso”, explica.

Acompanho o grupo Criações Boloriê Umutina, que reúne homens e mulheres de diversas idades do Povo Umutina (MT), numa loja virtual que pretende fortalecer vendas que já existem há pelo menos 20 anos e sustentou gerações. Uma das participantes desse coletivo conta que tem uma filha que estuda na universidade. Como mãe, ela faz o artesanato, vende e manda uns “troquinhos” ou o próprio artesanato para a filha vender na faculdade.

A imagem mostra quatro pessoas de origem indígena. Elas são jovens, estão vestindo calças jeans, bermudas e blusas. Estão de pé em uma mata. Ao fundo é possível ver árvores e plantas.
Vivência Boloriê Umutina (imagem: Luzo Reis)

Outras posições de trabalho são almejadas nesse complexo universo da produção cultural. Particularmente, sou uma investidora na abertura desses campos de atuação. Quem me contratou sabe que sempre pergunto se cabe mais um. Acredito que podemos assumir posições nos projetos, eventos ou qualquer outro tipo de atividade que nos envolva. Podemos atuar em funções distintas, na produção, na criação, no atendimento, em consultorias. Nesse sentido, a Vivência Umutina (que também estou vendo nascer), projeto novo de etnoturismo, organizou sua infraestrutura empregando membros da própria comunidade em parceria com profissionais não indígenas através de um edital da Lei Aldir Blanc. Esse modelo de parceria consiste em falar com o indígena e não falar pelo indígena.

Assim também compreendi e conheci melhor a produção do filme Ex-pajé, a partir da conversa com o diretor Luiz Bolognesi. Ele me explicou o processo de diálogo com os Paiter Suruí, povo ao qual pertence Perpera, personagem que conduz a narrativa. Perguntei como se deu a contrapartida para a produção com os Paiter e Bolognesi me disse que não foi uma produção independente, com a câmera na mão. Houve um patrocínio financeiro de terceiros, e isso muda a regra do jogo. Se fosse a produção câmera na mão, o filme talvez teria uma relação diferente com o público, diferente dessa que aquece o mercado audiovisual do país (ou pelo menos é o sonho dos diretores e profissionais dessa cadeia produtiva), em que se tornam necessários os patrocínios e posteriormente trazer o retorno para os custos investidos pelos patrocinadores, seja nas plataformas de streaming, seja na participação em festivais nacionais e internacionais.

Quem é da área do audiovisual deve saber melhor do que eu como essa roda gira. Os Suruí foram ativos na produção do filme: da locação de veículos à contratação de cozinheiras, do cachê dos indígenas (inclusive dos que não foram atores/personagens) ao retorno ao protagonista Perpera (e não foi a visibilidade da causa somente). Não vou detalhar, mas me pareceu justo diante do cenário da produção. E, se foi justo e combinado com os Paiter Suruí, nós, espectadores, torcemos para que mais premiações venham.

Isso significa que todas as relações com indígenas se estabelecerão nessas medidas? Não! A relação de solidariedade se estabelece com cada parceiro, a depender das condições de ação. O próprio Luiz Bolognesi conhece de perto a relação de solidariedade com os povos indígenas porque já esteve muito próximo da realidade dura, de perseguições e ameaças constantes. Essa relação que envolve os recursos financeiros amplia o olhar para o consumo exacerbado, o desejo de ampliar a posse sob os produtos materiais da cidade por parte dos indígenas? É uma resposta dificil também de se obter. Não se pode colocar 896.917 indivíduos indígenas sob a mesma perspectiva de vida e de consumo. Seria imoral dizer que todos querem a mesma coisa, desconsiderando a identidade individual versus a identidade coletiva.   

Imagem de Sulivan Barros, homem indígena de 22 anos. Ele está usando um cocar de penas verdes e algumas vermelhas. Está com o rosto pintado com tinta preta. E usa um colar vermelha, com detalhes em preto
Sulivan Barros, Terena, aldeado, 22 anos (imagem: Sulivan Barros)

E para os artesãos: será que trocariam de profissão se tivessem oportunidade? A resposta não é imediata nem definitiva, mas traz uma questão mais profunda do que poderíamos imaginar. Sulivan Barros, Terena, aldeado, 22 anos, me contou que já tentou fazer outras coisas para gerar renda. Não conseguiu. Seu viver se embala no fazer das peças que ganham formas e cores. Dá um pouco do dinheiro à mãe. Compra roupas para ele. Já tem até uma ajudante para quando as encomendas aumentam. Ele é a arte que produz. Val Eloy buscou algo que tirasse a tristeza de ver a cada dia tantas vidas perdidas. Busca fortalecimento, empreendedorismo, empoderamento e o protagonismo da mulher indígena. Para as mulheres da Criações Boloriê não é só artesanato. É terapia, sustento, liberdade, revitalização da cultura, valorização dos anciãos, educação e esperança.  

Imagem da arte feita por Sullivan Barros.
Peças que ganham formas e cores (imagem: Sulivan Barros)
Veja também

As mulheres que sabem demais

Na estreia desta coluna mensal, Naine Terena fala sobre a importância das mulheres que compartilham seus saberes ancestrais