por Amanda Rigamonti

Os domingos de abril tinham uma programação especial preparada no Itaú Cultural (IC) – o Arte na Rua, evento em que artistas se apresentam na calçada do IC, promoveria shows de palhaçaria preparados pelo Exército contra Nada, fundado por Rafael de Barros.

Rafael e Adriano Mauriz trariam para o público da Avenida Paulista o espetáculo Mundano, em que dois soldados se perdem a caminho de sua cidade natal após uma aventura bélica e procuram ajuda para encontrar a intersecção entre as ruas Alegria e Esperança.

Com o fechamento temporário do Itaú Cultural e as recomendações de distanciamento social, a risadaria fica em suspenso, mas eles prometem retomar o projeto quando as coisas se normalizarem. Enquanto isso, o IC conversou com os artistas, que contaram sobre a criação do Exército contra Nada e a concepção de Mundano e compartilharam dicas culturais relacionadas ao mundo da palhaçaria.

Este texto integra uma série de conversas com artistas que se apresentariam no IC nas próximas semanas. São conteúdos pensados para ser desfrutados de longe, em casa.

Como foi criado o Exército contra Nada – e por que esse nome?
Rafael de Barros:
O Exército contra Nada surgiu quando eu estava terminando a graduação em artes cênicas, em Londrina, na Universidade Estadual de Londrina [UEL]. Fiz uma pesquisa acerca do palhaço na rua e descobri uma história sobre o circo moderno, quando um general, aproximadamente em 1700, se junta aos artistas de rua e começa a cobrar ingressos para as pessoas assistirem às apresentações, porque os soldados não tinham mais com o que lutar – a guerra tinha acabado – e eles eram bons cavaleiros.

Assim, os soldados começaram a fazer acrobacias em cima dos cavalos para ganhar alguma coisa para sua subsistência. Pensei, como um exército que não tem com quem lutar pode virar um circo, então vou fazer um exército contra nada. Montei um espetáculo solo chamado El General, que era uma livre narrativa da minha imaginação de como seria um general que só tem um repertório bélico tentando fazer um espetáculo de circo.

El General é o primeiro trabalho do Exército contra Nada e é basicamente um espetáculo que não acontece, pois todas as tentativas artísticas dele não são muito bem-sucedidas, e o palhaço se encaixa muito nessa linguagem.

E em 2018 o Adriano entrou...

Adriano Mauriz: Sim, em 2018. Nós já nos conhecíamos da Rede Brasileira de Teatro de Rua. Assisti a El General no Acre, em uma aldeia indígena, e o Rafael trabalhava muito pouco com a palavra, usava mais a parte física, e eu o vi justamente se apresentando a essa aldeia e achei muito interessante a reação deles. Os indígenas não riam, eles gritavam quando achavam alguma coisa engraçada, foi impactante para mim.

Foi muito legal ter conhecido o Rafael e o seu trabalho. Ele estava em Londrina e, anos depois, aqui em São Paulo, nós nos aproximamos e minha intenção era colaborar de fora – dirijo outro grupo de circo também, o Grupo de Circo Teatro Palombar – na construção de um novo espetáculo dele. O Rafael me instigou a participar em cena, mas a minha intenção era colaborar de fora.

O Rafael teve a oportunidade de ganhar um edital para a montagem de um número pelo fomento ao circo da cidade de São Paulo e, nessa ocasião, trocamos muitas ideias e ele disse que gostaria muito que o palhaço Chacovachi dirigisse. Ele é um palhaço argentino, um payaso callejero – uma linguagem de palhaçaria para adulto – que tinha a ver com a pesquisa acadêmica que o Rafael estava desenvolvendo.

Por causa disso, em vez de ficar na plateia, eu entrei em cena e, a partir do número, tornou-se um espetáculo de palhaçaria de rua.

Podem contar sobre a construção de Mundano? Vocês já o tinham apresentado na rua ou esta seria a primeira vez? E, no caso de ser a primeira vez, qual era a expectativa?
Rafael:
Estreamos o Mundano circulando por casas de cultura; o Chacovachi, nosso diretor, se apresenta como um palhaço de rua. Quando se pensa na rua, pensa-se também num espetáculo que se adapte a vários espaços. Ele pode ser apresentado em praças, parques, centro cultural.

Na situação que estávamos pensando para a realização no Itaú Cultural, seria uma novidade para nós, porque, assim como o Adriano falou, esse espetáculo nasceu de um edital de número, só que vimos no espetáculo a possibilidade de maior circulação e queríamos a continuidade do trabalho. Decidimos fazer um espetáculo inteiro. Começou de um número de uma bicicleta acrobática e foi se desenrolando em uma dramaturgia.

Como somos dois amigos que se encontraram em busca de um lugar comum, resolvemos trazer isso para o espetáculo. Criamos a princípio dois viajantes que estariam em busca de um lugar. Quando o Chacovachi chegou, disse que não seríamos viajantes, seríamos dois soldados voltando da guerra que se perderam do pelotão.

Pensamos sobre isso no ano passado, aqui no Brasil, e constatamos que estávamos atrás da Rua da Alegria e da Rua da Esperança, que seria o jeito que gostaríamos de falar sobre a busca desses sentimentos no nosso dia a dia.

Adriano: Complementando um pouco do que o Rafael falou, o Chacovachi tem essa questão da palhaçaria mais para o adulto, e, quando nos encontramos como palhaços com o público, sinto que não é apenas uma mensagem específica que estamos transmitindo, pois a dramaturgia sempre se rompe, o palhaço subverte o que está acontecendo.

O que sentimos nesse encontro com o público é que o fato de as pessoas se juntarem para rir, fazer uma coisa positiva juntas, traz felicidade, vontade de viver que estava difícil naquele momento. Muitas vezes ouvimos pessoas dizer que nós havíamos melhorado o dia delas.

Não é uma história que contamos, mas a busca pela alegria e pela esperança.

Rafael: Gostamos muito dessa possibilidade de, digamos, “pescar” o público que estava passando ali na rua; estávamos muito animados para fazer esse trabalho de continuidade que também é muito interessante para nós, pois hoje em dia, na linguagem do circo em São Paulo, há poucas oportunidades de fazer uma temporada. Estávamos chamando de temporada esses domingos também e com uma expectativa muito positiva para realizá-lo.

Para vocês, como isso afeta a produção artística, a vida como um todo, inclusive pensando nas estratégias de sobrevivência, uma vez que seu trabalho é estar na rua?
Rafael:
Além das apresentações, temos uma rotina de ensaios e treinos. Desde que tudo começou e percebemos que tudo iria fechar, suspendemos os ensaios. Não nos encontramos desde essa época.

Estou tentando estudar os instrumentos musicais que eu toco, efetuando leituras – estou num processo de pesquisa de mestrado sobre o palhaço –, trabalhando nessa pesquisa e tentando refletir sobre este momento.

Eu tinha o hábito de andar de bicicleta, mas, como temos essa mobilidade limitada atualmente, estou tomando sol, assistindo a filmes, vendo muitas coisas de conteúdo que o pessoal está compartilhando, tentando conversar com os amigos também pela internet.

Adriano: Para mim foi muito difícil, pois estava retomando um projeto que havia muito tempo estava sem atividade. Esse projeto, que tinha cem alunos, teve de parar uma semana depois por causa de tudo isso.

Foi difícil aceitar que o mundo iria parar, mas nesta primeira semana eu estou bem, estou com a minha família, seguro, estamos tentando criar uma agenda para cuidar da casa juntos, fazer atividade física, estudar, ver filmes.

A minha mãe é idosa e tenho de falar com ela, conversar com as pessoas de que eu gosto durante o dia. E tenho exercitado isso que o Rafael falou das trocas com as pessoas com as quais não tinha tempo para trocar presencialmente e tenho tentado falar com elas, saber como estão, trocar conteúdos.

Rafael: Há também a questão dos cancelamentos, e é claro que temos a dimensão do que isso está significando e não achamos que o nosso problema de cancelamento esteja acima das questões que estão ocorrendo de saúde pública, mas o nosso trabalho é basicamente juntar pessoas, e é o que não se pode fazer no momento.

Tivemos todos os trabalhos agendados até julho cancelados. Daí vocês do IC entrando em contato conosco nos dá um conforto, porque a nossa renda, o nosso sustento, vem das apresentações.

Entramos também neste momento suspenso, mas tentando manter a calma e tentando ver para onde isso indica; e que tenhamos a dimensão de que existe uma população no Brasil que está muito mais vulnerável e estamos preocupados com essa população que será mais afetada.

Adriano: Eu estou num bairro da periferia, Cidade Tiradentes, e tenho visto muitas redes solidárias, agricultores que estão disponibilizando cestas básicas para fazer que alimentos cheguem às pessoas das comunidades, tenho conversado com pessoas que me falaram de redes referentes aos refugiados, às pessoas em situação de rua.

A circunstância atual está afetando todo mundo, especialmente as pessoas que não têm um trabalho fixo. Nós, os artistas, também estamos sendo afetados, muito preocupados com a situação econômica. Temos, inclusive, de agradecer ao Itaú Cultural, que vai pagar as apresentações, e iremos fazer um acordo para nos apresentar depois.

Temos amigos que lançaram hoje, em Londrina, uma série chamada Aquieta o Facho no Sofá; irão produzir conteúdos de palhaço para que as pessoas os consumam em casa. É um projeto voluntário, não foi feito com recursos.

Estamos muito atentos e tensos, pois a situação atinge muitos amigos. Eu e o Rafael, neste momento, temos alguns cachês para receber de trabalhos que já tínhamos feito, mas muitos amigos estão bem prejudicados, já nesta primeira semana estão enfrentando problemas, talvez daqui a um tempo, dependendo de quanto isso dure, nós também passemos por isso.

Por essa razão, acho muito importante essas redes de solidariedade, uma vez que os moradores de priferia, os refugiados, as pessoas em situação de rua, os artistas, os trabalhadores informais são muito afetados.

Rafael: Sabemos que a cultura é importante e acreditamos que cuidar da saúde da população é importante, é uma demanda mundial, mas sabemos que vivemos em um mundo onde as coisas coexistem.

Talvez possamos aprimorar o nosso poder de reflexão nestes tempos, porque tem sido difícil conversar sobre essas questões.

Gostariam de acrescentar alguma coisa?
Adriano:
Ocorreu-me agora. Existem momentos em que encontramos uma suposta Rua da Esperança e da Alegria e perguntamos às pessoas o que são para elas a esperança e a alegria, e normalmente quem responde são apenas as crianças – os adultos ficam sempre na dúvida.

Neste momento, as pessoas que estão em casa com os filhos devem escutar mais essas crianças, pois elas estão atualmente bem mais perto da esperança e da alegria. Quando perguntamos isso aos adultos, eles não sabem responder, ao contrário das crianças, que começam a falar. Acredito que seja muito bom os adultos estarem dialogando com as crianças nesta oportunidade.

Eu estou direto agora com o meu filho e, se por um lado é um momento complicado, por outro é muito bom ter a oportunidade de estar perto dele. Escute as crianças, abra a sensibilidade, procure se reinventar.

 

Confira a seguir as indicações culturais dos artistas:

[LIVRO] O Elogio da Bobagem: Palhaços no Brasil e no Mundo, de Alice Viveiros de Castro 

Este livro é uma ótima referência para quem quer conhecer um pouco da arte do palhaço através dos tempos. Também traz figuras cômicas de diversos países. Mostra como o palhaço vai muito além do nariz vermelho que conhecemos tão bem por aqui. Está disponível gratuitamente no site circonteúdo. Recomendamos que aproveitem para conhecer o site, que disponibiliza muitas outras referências para quem se interessa pelo universo do circo.

[DISCO] POIN – Pequena Orquestra Interativa 

Se você fechar os olhos e imaginar uma banda de circo que envolve o público com músicas e brincadeiras, essa banda será a POIN. Conhecemos o trabalho do grupo no Festival Paulista de Circo em Piracicaba, através de uma intervenção musical deliciosa, em que violão, flauta, saxofone, acordeom, violino e percussão circulavam pelo evento interagindo com o público. É para mexer o esqueleto e sentir a alegria contagiante. 

[FILME] O Circo, de Charlie Chaplin

O filme é um clássico do cinema que atravessa o tempo emocionando gerações. Chaplin é um gênio do cinema e impressiona pela comicidade e pela comunicação sem o uso da palavra. A atualidade de sua obra é algo impressionante. Notamos isso quando presenciamos algum jovem que se inicia nas palhaçadas e não conhecia os filmes de Chaplin. O resultado é sempre de encantamento. Precisamos ver e rever sempre. Uma aula maravilhosa para quem quer estudar palhaçaria.

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