Jacildo Bezerra é funcionário público de carreira do governo de Roraima. Atuou na Secretaria de Cultura, na qual exerceu o cargo de diretor de promoção cultural, e na assessoria do Grupo Técnico de Avaliação de Projetos (GTAP), que operacionaliza a Lei de Incentivo à Cultura de Roraima. Formado em gestão pública pela Universidade Estácio em 2015, participou, no mesmo ano, do curso de especialização em gestão e políticas culturais do Observatório Itaú Cultural/Universidade de Girona. Também integrou o curso de extensão em administração pública da cultura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e o Programa de Formação em Elaboração e Gestão de Projetos e Empreendimentos Criativos, desenvolvido pelo Ministério da Cultura (MinC), por meio do Senac/DF, no ano de 2014. Foi representante da Região Norte no Colegiado de Culturas Populares, do Conselho Nacional de Políticas Culturais (CNPC), do Ministério da Cultura, entre 2010 e 2012. Hoje é acadêmico do curso de jornalismo da Universidade Federal de Roraima (UFRR).

Em entrevista para o Observatório, Jacildo nos conta sobre sua trajetória enquanto produtor cultural de Roraima, sobre os desafios da gestão cultural e sobre a importância das manifestações culturais em Roraima, seu estado de atuação. 

De 2010 a 2012, você foi o primeiro representante da Região Norte no Colegiado de Culturas Populares, do CNPC. Como foi esse trabalho?

Uma experiência muito singular, tendo em vista que foi parte de um processo de amadurecimento quanto às perspectivas dos marcos regulatórios da política cultural em construção para todo o Brasil. Pudemos fazer amigos e conhecer ações de sucesso em diversos estados, além de ter contato com a diversidade brasileira, as manifestações culturais que pululam nas regiões do país, refinando o pensamento e o olhar sobre cada segmento como sendo único e merecedor da proteção do Estado, como proponente e executor de políticas públicas que almejam a garantia dos direitos culturais da população.

Nossa caminhada na cultura começou em 1992, com uma trupe de teatro em Boa Vista (RR), cidade onde vivo desde 1981. Desde 2000, circulo, com desenvoltura, em vários segmentos da cena cultural de Roraima: mantive, por exemplo, até 2010, o Grupo Folclórico Swing Nativo, que dançava as toadas dos bois Garantido e Caprichoso. Em 2008, em parceria com a prefeitura de Boa Vista, fomos um dos criadores do Festival das Araras, evento sincrético similar ao Festival de Parintins, pois bebe em sua fonte como os demais festivais folclóricos da Região Norte. Além disso, atuava na Escola de Samba Império Roraimense como diretor social.

Isso tudo nos deu uma bagagem para participar da Pré-Conferência Nacional de Cultura, em 2010, em Brasília, evento do qual saímos laureados como representantes regionais: além de mim, três companheiros foram eleitos na mesma condição, um marco para Roraima.

Foto do Festival Folclórico de Caracaraí, realizado em novembro de 2014. (imagem: Girnei Araújo)

Qual é a sua visão, como diretor de promoção cultural do estado de Roraima, a respeito do papel do gestor cultural?

Sou, desde 2004, servidor do governo do estado e, em 2009, fui atuar na Unidade de Cultura do Instituto de Desporto e Cultura da Secretaria de Educação de Roraima, órgão que seria a futura Secretaria de Cultura do Estado, criada em 23 de janeiro de 2013. Lá encontrei um status quo de anos que se arrastava sem uma mudança significativa nas ações finalísticas da secretaria: havia uma concepção de que a missão desta era a de meramente organizar eventos, sem ações que visassem ao fomento, à proteção e à salvaguarda dos segmentos e das manifestações culturais, identificados no processo de elaboração do Plano Estadual de Cultura, parceria do governo de Roraima com o Ministério da Cultura e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Vemos o papel do gestor cultural como de suma importância na execução de políticas públicas dentro de uma nova visão conceitual de cultura, que deve abranger as inúmeras dimensões culturais como elemento de promoção de igualdade social, cidadania, formação em diversos ramos da atividade criativa e, em especial, de importância para a economia e o fortalecimento da identidade de um povo.

Vemos o papel do gestor cultural como de suma importância na execução de políticas públicas dentro de uma nova visão conceitual de cultura, que deve abranger as inúmeras dimensões culturais como elemento de promoção de igualdade social, cidadania, formação em diversos ramos da atividade criativa e, em especial, de importância para a economia e o fortalecimento da identidade de um povo. Trata-se da missão de despertar o senso de pertencimento e apropriação dos fazeres e saberes culturais.

Roraima possui uma matriz cultural focada nas manifestações indígenas em suas várias nuances, que serve, junto com as suas belezas naturais, de pano de fundo para a criação de artistas plásticos, cantores que declamam em verso e prosa a magia da terra de Makunaima, no embalo do crescimento de outros segmentos, como o audiovisual, a literatura, o teatro e a dança, e toda essa riqueza precisa ser valorizada, preservada, evidenciada para o Brasil e para o mundo.

Qual é a importância do Festival de Cultura de Caracaraí (RR) para a política municipal de cultura? Como o festival contribui para a formação de políticas públicas no estado?

O festival foi criado em maio de 2006 pelos professores Domingos Sávio Rapozo Pinheiro e Vadilson Gonçalves, fora outros profissionais que, juntos, delinearam a primeira edição do evento, motivados pelo desejo de realizar uma festa que fosse a imagem de Caracaraí. A ideia do festival é preservar o folclore roraimense e valorizar a diversidade etnocultural do povo amazônico, abrangendo a sustentabilidade com ênfase na biodiversidade da região.

O festival tem grande importância no contexto da formação da identidade cultural da região, como elemento de união em torno de um modelo de evento que serve para a divulgação das lendas e das tradições dos povos ribeirinhos e da floresta situada às margens do Rio Branco.

O festival tem grande importância no contexto da formação da identidade cultural da região, como elemento de união em torno de um modelo de evento que serve para a divulgação das lendas e das tradições dos povos ribeirinhos e da floresta situada às margens do Rio Branco. Precisa-se, contudo, de apoio e incentivo oficial para a continuidade e a expansão dessa iniciativa, com a promoção de políticas voltadas para o fomento dos grupos e a construção da estrutura necessária à sua realização, bem como de uma rede de divulgação, com ações de marketing em conjunto com iniciativas de apoio ao evento, tais como artesanato, hotéis, bares e restaurantes.

Festival Folclórico de Caracaraí. (imagem: Alex Paiva)

Em Roraima, é também realizado o Festival Canto Forte, com o objetivo de valorizar os artistas locais. Como ele ocorre?

Trata-se de uma realização do músico, cantor e produtor cultural Joemir Guimarães, iniciada em 2010. Nesse período, o evento já foi visto por mais de 14 mil pessoas, teve mais de 600 músicas inscritas, e foram distribuídos 145 mil reais em prêmios, além de ser uma fonte de novos talentos para a música roraimense.

Sabe-se que a questão indígena é forte em Roraima. Como são trabalhadas as políticas públicas em relação a esse grupo? Como você pensa as políticas culturais no seu estado em geral?

Com a entrada do estado e de todos os municípios no Sistema Nacional de Cultura, as políticas públicas não garantem os direitos culturais de artistas e produtores nem o acesso da população a equipamentos, produtos e serviços. Caminha-se a passos lentos nesse sentido. Apesar da rica diversidade, não vemos ser desenvolvidas ações que propiciem fomento às manifestações culturais, salvo o mecanismo do mecenato patrocinado pela Lei de Incentivo à Cultura, na contramão das normativas que visam à garantia dos direitos.

As necessidades culturais da população foram alvo de contribuições feitas às Conferências de Cultura realizadas em 2009 e 2013, que deram origem ao Plano Estadual de Cultura, ainda em fase de implantação. A dicotomia dos discursos entre os diferentes entes da federação é um obstáculo à construção de políticas públicas de cultura que visem à garantia dos direitos culturais. Não obstante a riqueza das manifestações culturais, dos festejos de cunho religioso, do rico patrimônio material e imaterial, das culturas indígenas, na música e na produção artística em suas diversas áreas, a visão estreita da missão institucional e dos benefícios sociais provenientes da cultura prejudica uma maior visibilidade da produção.

Com isso, hoje, um dos desafios da gestão e das políticas culturais se encontra justamente em formular as versões estaduais e municipais, no Plano Nacional de Cultura e no Sistema Nacional de Cultura, refletindo a realidade de cada estado e município e, mais ainda, do produtor cultural, do artista independente, que não tem por trás de si a grande mídia, as grandes gravadoras; pensar nos povos de terreiro e comunidades quilombolas, nos folguedos juninos, nos jongos e nos maracatus, no samba é visualizar a importância de nossas etnias indígenas e elaborar formas de preservação de sua cultura.

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