por Amanda Rigamonti

As medidas de isolamento iniciadas em março, por causa da pandemia de covid-19, vieram acompanhadas de preocupação com a saúde dos idosos: eles logo foram identificados como grupo de risco. Ainda com poucas informações acerca das formas de contágio e dos cuidados necessários, a principal orientação foi o isolamento total das pessoas com mais de 60 anos.

Segundo o Censo 2020 do IBGE, o Brasil tem mais de 28 milhões de pessoas nessa faixa etária, número que representa 13% da população do país.

A duas semanas de completarmos seis meses de situação pandêmica, com o distanciamento social ainda sendo a principal recomendação de prevenção, novas preocupações foram surgindo quanto aos idosos isolados, especialmente diante da prolongada solidão e de seu impacto na saúde mental.

Quando eu me deparei com o projeto do Museu do Futebol, fiquei particularmente encantada. Minha própria avó, de 84 anos, passou estes meses isolada, tendo contato apenas com suas cuidadoras. Mantivemos contato diário em ligações de vídeo com ela, mas acompanhamos mudanças que nos preocuparam. Ela começou a ficar desanimada, quieta, foi se fechando. Pensei que deveria ser muito difícil viver uma pandemia – que é por si só envolta de medos e inseguranças – nessa idade. Em junho, procuramos auxílio profissional e, desde então, uma série de medidas foi tomada para o reestabelecimento dessa mulher, lúcida, criativa e estudiosa.

Contei tudo isso para dizer que compreendi de forma vivencial o valor de um projeto como o Revivendo Memórias em Casa. Ele funciona da seguinte maneira: o idoso ou algum familiar entra em contato com o museu para agendar uma conversa (os contatos estão no final da reportagem). Com o horário marcado, um educador faz uma ligação em vídeo para conversar com o idoso. Ialê Cardoso, coordenadora do educativo do Museu do Futebol, conta como funciona esse primeiro contato: “A gente vai fazendo várias perguntas, como o que a pessoa gostava de fazer antes da pandemia, se gosta de futebol, de museu, e ela pode falar que não gosta de futebol e gosta de outras coisas, então a gente não necessariamente vai falar de futebol”. Com isso, a equipe monta um roteiro customizado para cada pessoa.

“Brincamos que é como se entrássemos na casa das pessoas para tomar um cafezinho. Nós conversamos de vários assuntos. Música, política, receita, novela... Assuntos que também estão presentes no Museu do Futebol. É um momento de escuta muito afetiva do idoso que vai participar e do que ele quer falar neste momento”, conta Ialê.

Equipe Núcleo Educativo do Museu do Futebol e José Luis Barbosa de Almeida (imagem: Equipe Núcleo Educativo do Museu do Futebol)

No fim do encontro virtual, os educadores perguntam se o idoso gostaria de repetir a dose e marcar novo encontro: “É unânime, todos dizem sim”, conta Ialê. “Então já marcamos um retorno. Alguns participam toda semana, outros preferem quinzenalmente. O projeto começou com agendamentos pequenos e hoje a gente passa o dia inteiro fazendo o projeto, fidelizamos um público”.

O museu faz os atendimentos individuais às terças e quintas-feiras. Ainda, às quartas e sextas-feiras, são atendidas casas de repouso e entidades sociais que recebem outros grupos particularmente afetados pelo isolamento imposto pela pandemia, como pessoas com determinadas deficiências.

O Revivendo Memórias em Casa foi desenhado no início da pandemia a partir de um projeto que já existia no Museu do Futebol, o Revivendo Memórias. No começo de 2019 o pesquisador Carlos Chechetti procurou o museu e o Hospital das Clínicas para propor esse projeto, baseado no projeto Football Memories, do Scottish Football Museum, na Escócia. A proposta dele era trabalhar com idosos com Alzheimer para construir um resgate da memória afetiva por meio do futebol, com visitas ao museu especialmente desenvolvidas/construídas/desenhadas para esse projeto.

O resultado do Revivendo Memórias foi incrível. “Estamos vendo o quanto a memória por meio do futebol está ajudando”, diz Ialê. “Temos registros de parentes, esposa, marido, filho de pacientes com Alzheimer que escrevem para nós dizendo que é impressionante, que a qualidade de vida melhorou, que o remédio diminuiu, que a memória da pessoa mudou completamente. No Hospital das Clínicas eles estão tendo uma resposta dessa grande aposta deles. E nós estamos vendo o quanto a educação, a cultura e a arte são fundamentais na vida de uma pessoa”.

Os agendamentos para o Revivendo Memórias em Casa podem ser feitos, preferencialmente, pelo e-mail agendamento@museudofutebol.org.br. Caso não seja possível enviar e-mail, os agendamentos também poderão ser feitos pelo telefone 11 99113 0226, de segunda a sexta, das 9h às 12h.

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