por Estela Lapponi

Esta foi a primeira vez que estive do lado de cá; normalmente estou do lado de lá. Sendo do lado de lá, meu pensamento sempre foi o de estar entregando minha alma e meu coração nas mãos do bandido (entenda-se aqui por bandido alguém com sentimentos ruins). Um pouco pasma… Desta vez eu seria um dos bandidos!

Na leitura do primeiro projeto, senti em minhas mãos a sensação de responsabilidade absoluta. Somos muitos, somos diversos, somos variados, somos tantos e com tanta fome de saber, trocar, construir que chega a me dar um aperto no coração ter essa consciência.

Viajei por diversos cantos do Brasil, ouvi as muitas vozes e me deparei com as diferentes linguagens… Eu me apaixonei por várias! E em todos os cantos onde estive precisei de um descanso para me desapegar.

Percebi, então, que não era um bandido, mas, sim, alguém que queria fazer justiça com a ponta do dedo no teclado do computador. Uma espécie de justiceira, deixando-me ser desafiada por propostas das quais nunca tinha ouvido falar.

Estela Lapponi integrou a comissão de seleção do Rumos na edição 2017-2018 (imagem: Leticia Kamada)

Algumas trocas com meus colegas foram necessárias – afinal, viajar tanto e por tantas linguagens e linguajares nos faz perder um pouco o eixo. O que me deixava mais tranquila era saber que a minha “verdade” sobre determinado projeto não seria a única a ser considerada; haveria três outras “verdades” sobre o mesmo objeto.

Ler algo que não me é familiar é um grande desafio, pois as referências às vezes são insuficientes. Em certos casos precisei buscar informações básicas sobre o assunto – não sobre o projeto, mas sobre a matéria propriamente dita.

As reuniões que tivemos no meio do processo também foram essenciais. Éramos 40 e tantos, cada um de um lugar do Brasil e cada tanto de diferentes linguagens com entendimentos amplos e indisciplinares. Éramos uma miscelânea de saberes e trocas, e todos com muita vontade de ser justos com cada ideia que nos chegava.

O Rumos é construído por diversas mãos, desde sua estrutura, passando pela avaliação, até o resultado. E, mesmo após o resultado, as mãos não se soltam, pois o desejo é que cada projeto seja realizado em sua máxima potência.

Não há uma preconcepção, mas sim parâmetros que norteiam nossas avaliações. O que quero dizer é que os próprios proponentes vão nos indicando o que urge no momento – situação que comparo com a arte de esculpir: a escultura vai se mostrando a cada lasca que é retirada da matéria trabalhada.

Para mim, fica a sensação de que tudo o que lemos se refere ao patrimônio e à memória deste Brasil tão diverso e que está em processo de apagamento de suas variedades e de suas diversidades de vozes. É momento de senso crítico!

Duas atenções particulares me nortearam nessa experiência:

  • o senso ético nas relações de trabalho, pois para mim arte é também ética;
  • que tipo de acessibilidade era considerado, a fim de contemplar as pessoas com deficiência.

Em suma, a experiência de estar do lado de cá foi uma oportunidade de conhecer um pouco mais do meu próprio país e me fez perceber o quanto ainda há para conhecer.

Eu acredito que o Rumos dialoga com questões artísticas e sociais contemporâneas e urgentes do Brasil, mas não pode ser o único, pois somos muitos, e só ele não dá conta do que somos!
 

Estela Lapponi é performer e videoartista. Realiza práticas artísticas baseadas no conceito de “corpo intruso”, criado por ela. Também é a idealizadora da Casa de Zuleika, espaço dedicado à apresentação e à experimentação na linguagem da performance.

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