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A filha de Ogum

O entendimento do poder afiado das palavras de Sueli Carneiro (palavras que formam uma lâmina, a lâmina de Sueli, como diz a jornalista Bianca Santana) está ligado à esfera religiosa. Ela, afinal, é filha de Ogum e é sobre sua religiosidade que esta seção trata. Como um dos destaques, há o texto de Luanda Carneiro Jacoel, artista da performance e filha de Sueli. Luanda saúda sua mãe a partir da Kalunga – o limiar entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, presente no Cosmograma Bakongo.

Feitura de Santo

Feitura de Santo de Sueli Carneiro, com Nilza Iraci à esquerda, vestida de branco. Outubro de 1987. Autoria desconhecida | acervo pessoal Sueli Carneiro

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Seção de vídeo

A filha de Ogum – Ocupação Sueli Carneiro (2021)

Em um período de crise de identidade, o candomblé entra na vida de Sueli Carneiro. A filósofa conta como foi convocada pela religião e como esse envolvimento a transformou.

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Sueli Carneiro com 24 anos aproximadamente. Autoria desconhecida | acervo pessoal Sueli Carneiro

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Kalunga

por Luanda Carneiro Jacoel

Meu ponto de partida, o único lugar legítimo de onde posso falar, é meu corpo. Eu entendo o corpo como corpo-casa, corpo-memória, que carrega em si histórias pessoais e coletivas, culturas, memórias e identidades. O corpo é o veículo do meu trabalho como artista da performance, em que as memórias e os repertórios corporais operam em múltiplas dinâmicas e perspectivas de tempo em coexistência.

Explorando os significados da Kalunga e refletindo sobre a história negra transatlântica e afrodiaspórica resultante dessa travessia pelo mar, criei uma série de performances.

Kalunga está presente no Cosmograma Bakongo (dikenga dia Kôngo), de origem Banto-Congo, grupo etnolinguístico localizado principalmente na África Subsaariana. O cosmograma é a representação da trajetória da vida entre os mundos espiritual e humano.  

Dikenga dia Kôngo procede de uma cosmologia que percebe o mundo não apenas em sua fisicalidade imediata, mas como uma rede de energias em interação. Todos os seres da natureza, animados e inanimados, manifestam-se com diferentes gradações de forças vitais, que interagem entre si, sempre buscando o equilíbrio. A noção e o cultivo da ancestralidade são bem conhecidos como a principal fonte de manutenção da vitalidade individual e coletiva. Dentro de um círculo dividido em quatro partes por uma cruz, experienciamos os estágios da vida, numa perspectiva espiralada de tempo.

Kalunga é o limiar entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Acima de Kalunga está o mundo dos vivos, o mundo físico. E, abaixo, o mundo dos mortos, a morada dos ancestrais. Kalunga é representada por uma linha horizontal líquida, permeável, o mar, movência infinita que adere fluxos e trânsitos. É um conjunto de criações que transbordou do vazio. O conjunto de onde as coisas começam a se tornar. A fonte universal que fez todas as coisas acontecerem no passado faz as coisas acontecerem no presente e fará as coisas acontecerem no futuro. A própria vida. Integridade do ser. Estado líquido. Movimento. Interação. A interação como manifestação de uma forma de existir no mundo. Lugar de transição. Estados de devir.

Há um aspecto transformador que é Kalunga, a ativação da vida, a força, a manifestação, a comunicação mútua de co-ontologias que operam acima e abaixo dela. O visível e o invisível. O tangível e o intangível. É o tempo, a presença, a mudança, a saída e a entrada para as potencialidades do ser, de existir, vir a ser, vir a ser, vir a ser. Um corpo em trânsito, evocando memórias, deixando rastros, brincando com o desconhecido, viajando entre temporalidades.

Ela move arquivos textuais e visuais.

Eu movo, ela move, entidades, rastros, o desconhecido.

Ela move oralidade, palavra, magia, o não dito!

Diálogos contínuos estendidos, compartilhando histórias, princípio ancestral, fonte.

Eu me movo, ela se move, nossos sentidos se movem por meio de vibrações, sons, vozes, memórias, afetos, movimento reflexivo interno e externo. Chamado e resposta, brincando com epistemologias negras.

Saravá Sueli Carneiro!

Criação textual da artista da performance Luanda Carneiro Jacoel, filha de Sueli Carneiro, propondo um diálogo com os pensadores Bunseki Fu-Kiau, Tiganá Santana, Leda Maria Martins, Paulo Dias e Diana Taylor.

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Terreiro

Luanda Cordeiro

Sueli Carneiro é ekedi de Iansã, ou seja, cuidadora de orixá. No dia a dia do terreiro, ela usava essa saia. Luanda, sua filha, atualmente utiliza a saia em suas performances | acervo pessoal Luanda Carneiro Jacoel

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Cosmograma Bakongo

Arthur Costa
Cosmograma Bakongo | arte: Arthur Costa

Cosmograma Bakongo, representação da trajetória da vida entre os mundos espiritual e humano | arte: Arthur Costa

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Sueli Carneiro com 30 anos aproximadamente. Autoria desconhecida | acervo pessoal Sueli Carneiro

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Sueli Carneiro

Sueli Carneiro aos 51 anos em 2001 | foto Marcus Vini / acervo Ibase

Registro tirado em ensaio de Sueli Carneiro para a capa da revista Cult, edição 223, ano 20, publicada em maio de 2017 | foto Marcus Steinmeyer / acervo Revista Cult

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