por William Nunes

Que a música tem o poder de transformar uma comunidade e a vida das pessoas, disso não restam dúvidas. Por isso é tão importante contar histórias como a da Associação Orquestra Sinfônica de Mogi das Cruzes (Orsimc). Fundada em 2002, a associação promove, há quase 20 anos, atividades de formação continuada na música para crianças, jovens e adultos. Uma atuação que – além da orquestra sinfônica, trabalho pioneiro na cidade – desenvolve atividades de ensino musical em bairros periféricos, formação de bandas escolares e iniciativas com alunos com deficiência visual.

Em entrevista ao Itaú Cultural (IC), o maestro Lelis Gerson – também diretor artístico da orquestra há dez anos – ressaltou a importância do papel social de um trabalho desenvolvido a partir e por meio da música.

Foto colorida de uma apresentação da Orquestra Sinfônica de Mogi das Cruzes. Na imagem é possível ver o maestro Lelis Gerson regendo os músicos ao seu redor. A fotografia foi realizada de um ângulo lateral, mostrando apenas parte do grupo.
A Orquestra Sinfônica de Mogi das Cruzes é regida pelo maestro Lelis Gerson (imagem: divulgação)

Neste período pandêmico que já se estende por mais de um ano, a Orsimc não foi exceção, tendo, também, sido afetada por ele. Com as incertezas e as inseguranças em relação ao futuro, o jeito foi se reinventar a distância. Criação de apostilas teóricas e videoaulas para os alunos, ensaios remotos e apresentações ao vivo nas redes sociais fizeram parte do trabalho da entidade nos últimos meses. 

A expectativa para o ano que vem, no entanto, é otimista. “Estamos preparando um projeto para comemorar nossos 20 anos. Se tudo der certo [e a pandemia estiver sob controle], iremos circular em bairros periféricos de todo o estado de São Paulo com a orquestra sinfônica”, adianta o maestro. “Estamos empenhados, participando de editais e escrevendo projetos para continuar fazendo esse trabalho de ensino e difusão da música sinfônica, que tem como base a transformação social.”

Do trompete à batuta

Oriundo de uma família musical em Mogi das Cruzes (SP), o hoje maestro sempre viu esse caminho como algo natural. O aprendizado começou aos 13 anos e, logo em seguida, estendeu-se para a Escola Municipal de Música de São Paulo – ligada ao núcleo de formação da Fundação Theatro Municipal –, onde teve aulas com Haroldo Paladino, primeiro trompetista da Orquestra Sinfônica Municipal. Sua trajetória ainda traz ensinamentos na Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp) – a antiga Universidade Livre de Música (ULM) – e na Banda Sinfônica do Exército, da qual é integrante até hoje.

“A minha graduação em música foi na Faculdade Cantareira, em São Paulo, com especialização no trompete. Lá tive aulas com o Fernando Dissenha, primeiro trompete da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). A pós-graduação em regência foi na Famosp [Faculdade Mozarteum de São Paulo]”, conta. “Mesmo sem ter concluído a formação em música ou em regência, sempre gostei de estar à frente de grupos musicais. Em 1999, criei um trabalho social que continua até hoje, sem interrupção.”

Foto colorida de uma apresentação da Orquestra Sinfônica de Mogi das Cruzes. A fotografia foi tirada a distância de um ponto alto, mostrando o grupo musical no palco de um teatro.
A orquestra durante apresentação no Festival de Inverno Campos do Jordão (imagem: divulgação)

Surgimento da Orquestra Sinfônica de Mogi das Cruzes

Em 2000, Lelis aceitou uma proposta inusitada para organizar uma orquestra e realizar uma apresentação no aniversário da cidade de Mogi das Cruzes. Junto veio a promessa municipal de arrecadar recursos para que fosse criada uma associação que continuasse a desenvolver um trabalho com música sinfônica, até então inexistente. “Aceitei o desafio faltando 15 dias para a apresentação. Reuni músicos que conhecia da cidade e tocamos. No fim, a promessa foi cumprida.”

A Associação Orquestra Sinfônica de Mogi das Cruzes nasceu dois anos depois, sob direção do maestro Marcelo Jardim. “Eu fiquei como assistente do maestro Jardim e, a partir daí, comecei a estudar regência. Como na época ele ainda morava no Rio de Janeiro e vinha algumas vezes para acompanhar o trabalho – até se mudar definitivamente para Mogi –, eu ensaiava os grupos”, recorda. “Em 2011, o Marcelo foi convidado para ser professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e eu fui nomeado pela prefeitura como titular da orquestra e diretor artístico.”

Transformação social através da música

Para Lelis, a relação e a formação com a música transformam a vida das pessoas.

“Nós temos alunos que começaram a aprender música com a gente, bem pequenos em 2002. Hoje são pessoas formadas, que trabalham na área – um deles, inclusive, é nosso professor. Alunos que se transformaram em músicos em outros lugares, como o spalla [nome dado ao primeiro violino de uma orquestra] da Orquestra Sinfônica de Manaus”, afirma. “E outros que não continuaram atuando profissionalmente, mas tiveram uma base para a vida. É gratificante.”

A orquestra é gerida em parceria com a Secretaria de Cultura e possui um extenso currículo acumulado nos seus quase 20 anos. “Fazemos repertórios com obras originais, tanto é que participamos há alguns anos do principal festival da América Latina, que é o de Campos do Jordão – neste ano não fomos devido à pandemia. Também já estivemos na Sala São Paulo; temos, aliás, uma data agendada para voltar em 3 de outubro. Fora a experiência de acompanhar artistas como Milton Nascimento, Ivan Lins, Elba Ramalho e Moraes Moreira.”

Em 2017, a associação assumiu o projeto Pequenos músicos... primeiros acordes na escola, criado em 2011 pela Secretaria Municipal de Educação de Mogi das Cruzes. Através dele são atendidos cerca de 11 mil alunos de escolas municipais. “Temos 15 bandas infantis que se apresentam em concursos nacionais – uma delas é bicampeã nacional, com alunos na faixa etária de 8 a 11 anos”, diz o maestro, que hoje também é coordenador-geral do projeto.

Foto colorida de uma apresentação da Orquestra Sinfônica de Mogi das Cruzes. É possível ver o maestro da orquestra de costas, no centro da imagem, regendo os músicos que estão ao seu redor.
Orquestra Sinfônica de Mogi das Cruzes se apresentou na Sala São Paulo (imagem: divulgação)

Repertório de compositores brasileiros

“Priorizo o repertório de compositores brasileiros, levantamos essa bandeira pela valorização da nossa música”, defende Lelis. O maestro conta que são poucos os grupos de referência de música brasileira – “Há a Banda Mantiqueira e a Orquestra Jazz Sinfônica”, exemplifica – e que gosta de trabalhar com obras de nomes como Alberto Nepomuceno, César Guerra-Peixe e Pixinguinha, compositores clássicos dos quais não se toca o repertório.

“Às vezes fazemos concertos só com samba, convidando compositores da cidade e executando suas peças. Temos esse currículo bacana com os principais cantores da nossa música brasileira, mas é claro que trabalhamos também com o repertório sinfônico tradicional de Beethoven a Mozart.”

“Se você perguntar a alguém que estuda música na faculdade se ele teve alguma aula de interpretação de música brasileira, ele vai dizer que não”, continua. “Estuda-se o tempo todo Beethoven, Mozart e Tchaikovsky – o que é uma base muito importante –, mas os alunos não têm tanto convívio com o repertório brasileiro.”

No canal do YouTube são disponibilizados concertos e apresentações da orquestra sinfônica e dos demais grupos da entidade.

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