por Milena Buarque Lopes Bandeira

 

“O mundo realmente está acabando”, pensou Kyra Piscitelli, jornalista, produtora e crítica teatral, ao se ver assistindo a um espetáculo vestindo pijama e com um saco de castanhas à mão. Quando o teatro passou a acontecer em casa, após o início da pandemia de covid-19, paradigmas, regras e conceitos vieram abaixo. Tanto para Kyra quanto para o universo das artes cênicas. A tradicional premiação da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), da qual a produtora é integrante de um dos júris, por exemplo, quase não aconteceu.

Criado há 65 anos, na década de 1950, o prêmio brasileiro é entregue anualmente às melhores produções e a profissionais de destaque de dez áreas culturais: arquitetura, artes visuais, cinema, dança, literatura, música popular, rádio, teatro, teatro infantojuvenil e televisão. Neste ano, a premiação, transmitida virtualmente na última segunda (28), celebrou programações e nomes de 2020. “Pesquisamos se, nos 65 anos da APCA, houve alguma razão para que o prêmio não tenha acontecido em algum ano, mas não. O que ocorreu eventualmente foram algumas categorias, por algumas razões, não terem premiados um ano ou outro. Inclusive à época do AI-5, nos anos mais duros da ditadura civil-militar brasileira, a APCA aconteceu”, conta Kyra, que também compõe a cúpula de avaliadores do Prêmio Aplauso Brasil de Teatro.

Com um ano marcado notadamente pelo desafio proposto pelo on-line, com resquícios – e, assim, desigualdade – de uma produção teatral presencial [a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou o estado de pandemia em março de 2020], e pela sensação (ou seria desejo?) de espera, de possível retomada a qualquer momento, como avaliar com justeza o que foi produzido em condições tão atípicas? Em outras palavras: como reconhecer e refletir a respeito de algo que ainda está sendo gestado, em uma narrativa em formação?

Na visão de Kyra, o júri de um prêmio deve, sim, espelhar a realidade daquele momento. “A gente está vivendo o hoje. Não conseguimos saber o que no futuro vão falar: se era teleteatro, se era arte feita em casa, se era arte feita pelo computador. A gente não tem como nomear isso, a gente está vivendo esta história. Mas temos a obrigação de mostrar que existe alguma coisa sendo feita, ou até o que não está sendo feito porque não há recurso”, afirma.

Em entrevista ao site do Itaú Cultural (IC), a crítica teatral compartilha os bastidores da premiação, conta como foi ser espectadora em 2020 e arrisca colocar em palavras o que sentiu ao retornar ao espaço físico do teatro depois de tanto tempo.

Kyra Piscitelli nos bastidores do prêmio APCA.
Kyra Piscitelli (imagem: Divulgação)

Como foram os preparativos para a edição do Prêmio APCA deste ano?

Esta edição foi bastante diferente, pois foi a nossa primeira on-line. Discutiu-se muito se a gente faria ou não o prêmio, não só na área de teatro, da qual eu faço parte, mas também nas outras. A APCA abrange dez categorias. Havia muitas dúvidas se em algumas áreas havia produção suficiente – ainda mais com a pandemia, em que a arte, de certo modo, parou por um tempo – para fazer uma premiação. A gente discutiu muito antes de fazer, antes de seguir efetivamente com o prêmio. Mas precisamos falar sobre isso: é uma resistência realizá-lo nesse formato que a gente fez neste ano.

Em algum momento da história da premiação, algo desse tipo aconteceu?

O prêmio sempre ocorreu. Pesquisamos se, nos 65 anos da APCA, houvera alguma razão para que o prêmio não tivesse acontecido em algum ano, mas não. O que ocorreu eventualmente foram algumas categorias, por algumas razões, não terem premiados um ano ou outro. Inclusive à época do AI-5, nos anos mais duros da ditadura civil-militar brasileira, a APCA aconteceu.

Então, a gente entendeu que era importante mostrar que existe, sim, um movimento artístico, uma tentativa de entender e de sobrevivência também.

Você integra o júri teatral. Poderia explicar melhor qual é a sua função? Vocês avaliam produções do ano anterior, certo? Ou seja, você se debruçou sobre a produção teatral de 2020.

A gente sempre olha o que foi feito no ano anterior e premia com aquele ano completo. Em teatro, especificamente, como a produção normalmente é gigantesca, já cheguei a ver, em média, em uma condição normal, mais de 265 peças por ano. Se você pensar que o ano tem 365 dias, é quase uma peça por dia. Isso é uma média, pode aumentar e pode diminuir um pouco.

Entendemos que, apenas com uma reunião geral no final do ano, quando todos os júris de todas as categorias se reúnem, a gente não conseguiria olhar para a produção teatral como se deve. Então, passamos a dividir em semestre as indicações, o que é muito positivo, pois muitas pessoas da classe artística comentam que a indicação já é um prêmio. Sempre indicamos três produções no primeiro semestre e três no segundo. Nessa reunião final, a gente decide entre esses seis escolhidos. As únicas categorias que a gente não divulga são o Prêmio Especial da Crítica e o Grande Prêmio da Crítica.

As categorias são móveis. Na arquitetura, por exemplo, tradicionalmente, eles criam as categorias ano a ano. E aí é engraçado, porque a gente dizia “Será que teve lançamento de prédio?”. E eles: “A gente não tem esse problema, a gente nunca foi amarrado em categorias”.

O que acontece no caso do teatro?

O teatro é mais amarrado, a gente acaba dando os prêmios principais, como Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Espetáculo e Melhor Dramaturgia. Falar em Melhor Dramaturgia, por exemplo, é um ganho recente, porque antes era Melhor Dramaturgo. Isso pode parecer uma bobagem, mas trata-se de uma conquista o olhar para a dramaturgia sem o viés de gênero.

Nas nossas reuniões, revemos tudo isso de alguma forma. Como eu estava dizendo, em teatro a gente faz três encontros: um no primeiro semestre, um no segundo semestre e essa geral, em que todo mundo se reúne no sindicato, pois temos de assinar a ata, mostrar quem votou, entre outros ritos. E em um ano de pandemia? Qual era a produção que a gente tinha? Quem desses jurados assistiu a essas produções?

Chegamos a 2020. Como foi aquele ano?

Primeiro se debateu o todo. Daí chegamos a um formato e diminuímos os prêmios. As categorias que num primeiro momento não tinham o que premiar, não tinham como premiar, começaram a recuar e a entender a importância da premiação neste ano. Teatro foi um exemplo clássico. Não dava para a gente neste ano avaliar melhor ator, melhor atriz. Não temos 200, 300 peças para comparar.

Discutimos muito para chegar a um modelo. No caso do teatro, foram três prêmios: um para teatro presencial, um para teatro on-line e um prêmio que a gente considerou especial para essas coisas que estavam sendo feitas, que poderiam ser híbridas ou não.

As categorias mudaram nesta edição? Essa foi uma saída que vocês encontraram?

Foi uma saída com muita conversa. Teve de sentar, teve de conversar, teve jurado que não se sentiu à vontade de votar, porque não tinha assistido a muita coisa, não tinha visto, não estava bem dentro dessa coisa do teatro on-line.

A gente refletiu muito, porque até março de 2020 houve uma produção muito extensa em São Paulo, e era ao vivo até pelo menos antes de acontecer a pandemia. O que se faz com isso? Você joga fora? E fala que foi um ano perdido?

Acredito que, quando se é júri de um prêmio, você tem de refletir a realidade daquele momento. A gente está vivendo o hoje. Não conseguimos saber o que no futuro vão falar: se era teleteatro, se era arte feita em casa, se era arte feita pelo computador. A gente não tem como nomear isso, a gente está vivendo esta história. Mas temos a obrigação de mostrar que existe alguma coisa sendo feita, ou até o que não está sendo feito porque não há recurso.

Mas abrir mão de um espaço, de voz – isso sempre foi minha opinião, muito particular – num mundo em que a arte estava perdendo tanto espaço, tanta verba, enfim, tanto lugar, é você abdicar de muito. Não é pouco. Isso é uma coisa em que sempre acreditei e, de alguma forma, quando olharem isso no futuro vão entender como este momento foi retratado.

Sim, com certeza. Você falou que via mais de 200 peças, quase uma peça por dia num ano. Como foi 2020 e como você chegou a esse momento de avaliação? Como se organizou no primeiro semestre e qual é a sua avaliação também em termos de produções?

O ano de 2020, enfim, foi até surpreendente. Acho que no começo foi muito experimental para muita gente e para nós também. Primeiro, as pessoas tiveram de lidar com esse mundo da internet e como aparecer nele. Entender essa linguagem híbrida, que era urgente. E a gente também tinha de entender isso, só que é fazendo que você vai entendendo o que vai virando. Há menos concentração, pois em casa muitas vezes você não está dedicando um espaço e um tempo àquilo. Então toca o interfone, alguém da família grita. Não é a mesma coisa.

Foi importante encontrar esse lugar e entender que não é a hora de olhar uma interpretação. São outros elementos. É o que a pessoa tentou mostrar ali? Ela conseguiu? Acho que foi um ano que ensinou a gente a ir além do bom e do ruim.

Isso vale para todo mundo, porque ensinou que fazer é um ato de resistência, que estava todo mundo tentando sobreviver e fazer o que amava, e que era a sua arte, seja qual for. Essa é a principal lição que fica.

A gente também teve de se reinventar, tanto como espectador quanto como artista em geral, em qualquer área, e acredito que o prêmio da APCA acabou refletindo muito esse panorama complexo, e fiquei feliz com o resultado.

Imagem mostra fileiras de estatuetas do prêmio APCA.
(imagem: Divulgação)

Mesmo não sabendo o destino da premiação, se iria ou não acontecer, vocês se reuniam da mesma forma – quero dizer, on-line –, nessa mesma lógica de um encontro a cada seis meses, ou algo mudou no ano?

Não, porque a pandemia chegou fechando chaves, e existia uma esperança de todo mundo de que dali a dois ou três meses estaria tudo aberto, a gente falava que era temporário. Quem não estava adaptado ao on-line, num primeiro momento, naqueles primeiros meses, achava que aquilo iria passar, e a gente ficou muito nisso.

Quando a gente entendeu que não iria passar, que era irreversível por aquele período, num primeiro momento, decidimos não fazer a reunião no primeiro semestre. Toda a APCA se reuniu em assembleia depois do meio do ano para entender o que a gente iria fazer com aquele cenário, que era diferente de tudo o que já tinha sido visto, disruptivo para a gente também, em todos os sentidos.

A gente teve de abdicar de alguns conceitos. Sempre que você tem um prêmio, querendo ou não você coloca um conceito de alguma forma. Existem estas questões: o que a cena lhe dá diante daquele ano? No nosso caso, a gente não dividiu [os semestres]. Houve outras categorias, como música, que tiveram muita efervescência, que se dividiram. A gente achou que não teria como dividir em primeiro e segundo semestres, até porque no primeiro semestre houve uma cena ao vivo, ao menos até a primeira quinzena de março de 2020, que no segundo semestre não existiu; existiu muito pouco.

Diante disso, a gente olhou para o teatro de uma forma diferente. Acho que todas as áreas foram, de alguma maneira, obrigadas a fazer isso com mais ou menos opções.

Acho que o trabalho de jurado também é este: é entender a cena que se tem e o que você pode trabalhar. E é um trabalho que amo fazer, porque a gente dá visibilidade ao artista, dá visibilidade ao trabalho, dá visibilidade à arte. Tem de ser muito responsável, então você tem de ir a tudo que é da sua área, tem de estar presente, tem de tentar ver, tem de estar perto, tem de ser honesto.

No on-line, fui acompanhar uma peça outro dia, feita ao vivo via Zoom. E eles brincavam que a plataforma é como se fosse uma coxia. “O Antônio acabou de entrar na sala”, “A Maria não veio”. É mais fácil, mais “dedurável” que uma coxia, pois da coxia você tem de olhar da cortina, de longe, você pode achar que uma pessoa está lá e ela não está.

Tem nome, sobrenome e, se brincar, CPF do cadastro na plataforma de ingresso.

Uma vantagem: quando a gente teve essa efervescência de projetos on-line, por causa de editais apertados, eu ia lá, junto com os assessores, e pedia o link para ver depois. “Fulano falou que é muito interessante, e não consegui ver essa peça por tal razão.” Daí, pedia o link e conseguia ver. Consegui ver mais coisas que talvez visse no presencial.

E, para avaliação, para o trabalho de um júri, imagino, talvez seja interessante ter esse registro.

É muito importante, porque isso vai ter de ficar marcado de alguma forma; há menos programas e não temos ingressos. Ter esse registro gravado on-line para esta história que está se fazendo, essa resistência que a arte virou nesta pandemia, é muito importante.

Como foi a Kyra Piscitelli espectadora em 2020 e como foi se enxergar nesse lugar do on-line, para o bem e para o mal? E, aproveitando por você ter dito [antes de a entrevista começar] que daqui a pouco vai a uma peça, e é uma peça presencial, com uso de máscara, como está sendo esse retorno?

Como espectadora, era engraçado, pois me via fazendo coisas que não faria no teatro. Por exemplo, um dia comendo e vendo a peça on-line, coisa que nunca faria no teatro, pois sou supercontra, acho que tira a concentração dos atores, tira a minha concentração, mas me vi nesse lugar e comecei a rir. Quando me dei conta, estava assistindo a uma peça com um saquinho de castanha na mão, comecei a dar risada e falei: “Meu Deus, o mundo realmente está acabando”.

Mas havia uma coisa como espectadora on-line de que eu gostava muito. Era quando alguma coisa dava errado, porque eu me sentia mais próxima do teatro, que é a arte ao vivo. Então, quando uma coisa dava errado, sentia que estava vivendo mais o teatro. O teatro é errante, nunca é igual.

Quando fui assistir à peça dos Satyros, a primeira, O medo, por exemplo, houve um dia com chuva de granizo, comecei a ouvir o barulho das pedras na janela e pensei: “Meu Deus, a minha janela está aberta!”. Saí correndo com o celular na mão para fechar a janela, e nisso acabou a luz, e aquela trilha dos Satyros tocando. O Rodolfo [da companhia] caiu também e outras pessoas foram se virando como dava; e eu fiquei no escuro assistindo à peça, depois vi de novo numa situação de normalidade, mas aquela cena toda foi muito parecida com uma peça de teatro, porque era uma coisa que eu não conseguia prever, sabia que não viveria aquilo daquela mesma maneira de novo.

Esse tipo de coisa me encanta, é o que me move no teatro, porque nunca sei o que vou encontrar. Poder estar ao vivo no teatro, sabendo que ele funciona ao vivo, e aquela sessão que estou vendo hoje não é a mesma que talvez veja amanhã; independentemente de ser gravado, ser teleteatro ou não, é uma experiência de teatro. Isso é o que me move.

Na primeira vez que pisei no teatro, depois de um tempo em casa, me emocionei muito, fui incapaz de olhar a peça, porque ficava olhando o refletor, tinha um início de medo quando alguém tossia, mas me emocionei muito. Olhava o refletor, olhava a cortina, olhava uma pessoa fazendo a luz, e tudo me emocionava.

Você acredita que, no pós-pandemia, se podemos dizer assim, a experiência on-line seguirá presente de alguma forma no teatro?

Acho que essa experiência vai ficar, esse digital vai aparecer mais, mas acho que ninguém vê a hora de voltar efetivamente, de poder se encontrar, poder fazer as coisas num modelo presencial. Você vê muita gente falando: “Isto aqui eu consegui fazer on-line, mas essa produção especificamente no on-line não funciona”.

Mas acho que as pessoas aprenderam a olhar para a tecnologia, sim, sem preconceitos, entender que ela pode, por exemplo, ajudar a vender ingresso seja para o que for. Ainda assim, não acho que tudo vai ser tecnologia. No entanto, por exemplo, se você não tiver dinheiro para fazer uma peça e quiser fazer uma montagem que ache incrível, vai saber que o YouTube está lá e pode ter três ou quatro espectadores, mas você vai dar valor àquilo.

Na primeira vez que fui ao teatro neste período atual, fiz uma pergunta ao Dan Rosseto, perguntei se a gente iria ressignificar o número de pessoas na plateia, e ele falou: “Com certeza”.

Antes a gente olhava meia casa e falava que o teatro estava vazio, e agora a gente dá valor a cada espectador que, de alguma forma, escolheu estar ali, seja on-line, porque é muito mais difícil aparecer on-line, seja para quem está fazendo ao vivo, com a capacidade do teatro muito menor.

Uma mudança de perspectiva.

Acho que há uma magia, principalmente na troca que se tem com as pessoas. Porque em casa a energia é sua, de quem está no seu entorno, não há essa troca. E ela é fundamental, porque, quando toca, alguma coisa tem, e no on-line é muito mais difícil.

A arte é essencialmente humana. Acredito que este foi o maior desafio: a gente sentiu humanidade daqui, como espectadores especializados, e as pessoas conseguiram passar e também sentir essa humanidade de uma tela de computador, ou de onde estivessem, e criar uma conexão com outras pessoas, que não necessariamente estavam ali.

Outro fator que acho importante dizer é que, quando a gente sentou para fazer essa lista prévia da APCA, num primeiro momento, quando pensei “Isto é bom, isto também, isto é ruim”, pareceu-me muito pouco perto do resto. Foi um ano difícil, mas a gente entende também que falar que não teve nada, que uma APCA que nunca deixou de premiar de alguma forma mereça não existir neste período, seria um desprestígio para a história do teatro e para a nossa história do momento.

Bastidores da APCA, em sua 64a edição.
(imagem: Carolina Andrade)

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