por Nayra Lays

Como tudo no mundo, as músicas que chegam aos nossos ouvidos também têm um percurso, que passa pelas histórias das pessoas que as colocam nesse plano. Hoje, convido você a conhecer um pouco de quem vive e (re)conta a música preta brasileira, como um espelho do que já se é, enquanto reflete o que se quer ser. Tire os sapatos, deixe-os na porta e entre. Você está prestes a viver a Travessia #10. Seja bem-vinde! ;)

Levi Keniata e Dona Josy (imagem: arquivo pessoal)

Dona Josy sabia exatamente como acalmar a criança que chorava em seu colo: bastava cantarolar “Chuva de Prata” (1984), interpretada por Gal Costa. Talvez essa fosse a primeira anunciação do que viria, enquanto Josy – que foi regente do grupo de louvor da igreja – dava lá seus empurrõezinhos para que o dom que se apresentou desde cedo ao seu único filho fosse exercitado.

Ainda na infância, o menino nascido na Cidade Tiradentes, na Zona Leste de São Paulo, ganhou de presente bateria eletrônica, teclado e guitarra de brinquedo, descobertos pouco a pouco por suas pequenas mãos. A fanfarra da escola, a Igreja evangélica, os vizinhos que ouviam de brega a forró e os amigos com quem ouvia pagode e funk se tornaram escolas para os ouvidos atentos de quem sempre foi muito influenciado, dentro de casa, a enxergar a música como elemento importante para a formação.

“A música é uma coisa dos nossos antepassados, que rege muito a mim, que me acalma. Eu respiro música e quis passar o meu sentimento para que ele gostasse também”, conta-me dona Josy, que passa alguns de seus dias no estúdio Nebulosa montado aos poucos por Levi Keniata – hoje com 26 anos de idade – em São Caetano do Sul.

(imagem: Gabriel C. Maia)

Enquanto Levi crescia, já sentia que a música o libertava, mas viver dela não parecia uma possibilidade. Nem mesmo tocar na igreja era tão legal quanto antes, já que só podia tocar o que lhe pediam, e, aos 19 anos, os planos eram terminar a graduação em geografia na Universidade de São Paulo (USP) e conciliar a carreira como professor com os projetos musicais. O que aconteceu de verdade foi que, convivendo com outras pessoas da própria USP, ele entendeu que, se organizando, poderia, sim, optar pela arte. Havia um chamado e ele precisaria fazer uma escolha.

“Desde quando eu trabalhava olhando carro na feira, organizando os outros meninos para trabalhar comigo, eu já tinha uma brisa de direcionar as coisas, fazer as coisas acontecerem.”

O primeiro contato com programas como Fruity Loops (usado para produções musicais) lhe trouxe a vontade de reproduzir o que queria viver com as bandas pelas quais passou, mas não foi exatamente produzindo músicas que tudo começou. Com os amigos, Levi criou e articulou oficinas de rap que contribuíram na formação de alguns MCs e culminaram na criação de grupos de rap. Embora não rimasse, era ele quem também dirigia os ensaios das apresentações dos grupos e dava ideias de como construir as músicas. Poder se expressar através das rimas, que já traziam muito das vivências de jovens em plena descoberta enquanto pretos, parecia incrível entre eles, mas despertou uma preocupação: as pessoas do próprio bairro não se conectavam com o que estava sendo cantado.

“Na faculdade eu não me encaixava. E, quando voltava para a quebrada, também não me encaixava. Então pensei que alguma coisa estava errada.”

Levi passou a se perguntar o que realmente gostaria de fazer, partindo da verdade sobre sua própria história. Foi então que, em 2015, decidiu que era o momento de assumir uma linguagem própria, fazendo um processo diferente do que via e ouvia no rap: em vez de encaixar samples nacionais (trechos de músicas já existentes modificados para a criação de novas músicas) no boom bap norte-americano (um estilo de batida), passou a adaptar a bateria aos samples, numa tentativa de reproduzir o que tinha à disposição sobre musicalidades brasileiras na época. A música brasileira que ele cresceu ouvindo. Era isso que fazia sentido. O resultado foi o estranhamento de muitos artistas próximos, que diziam que aquilo era “diferente demais”, e a solidão das descobertas artísticas causou mais uma vez a sensação de não lugar.

Em 2015, decidiu que era o momento de assumir uma linguagem própria, fazendo um processo diferente do que via e ouvia no rap (imagem: Marabu)

Foi nessa época de muita produção e baixa estima que Obigo, cantor e compositor da Zona Leste de São Paulo, ouviu alguns dos instrumentais de Levi e o convidou para produzir seu disco. Uma surpresa para o rapaz, que ainda não se enxergava como produtor, mas topou o desafio. Era o novo momento de um processo que durou quatro anos, entre fases emocionalmente delicadas para ambos e que trouxeram a Levi mais um questionamento: quais legados precisam ser deixados? Atravessando uma depressão, a música se tornou propósito de existência enquanto pesquisava ainda mais profundamente a si mesmo, fazendo estudos desde a música orquestral até o samba-rock, juntando pistas do que tinha a oferecer ao mundo.

A retomada à produção do disco, há um ano e meio, foi de mais maturidade nas escolhas do que gostariam e do que não gostariam a respeito do projeto. O que estivesse fora disso cairia. E caiu, a ponto de recomeçarem tudo, confiando e sendo leais um ao outro. Além disso, o estúdio, que antes ficava dentro da casa que Levi dividia com a mãe, ganhou um novo espaço quando ele se mudou. Tudo isso possibilitou imersões, fortalecendo vínculos entre produtor e artista, algo muito importante, já que, aqui, nada é feito por demanda. Desde 2017, existe um compromisso: produzir apenas projetos que tenham como principal foco as musicalidades brasileiras, com todo o cuidado e a consciência de que o Brasil é imenso e plural.

Pergunto, então: como unir a verdade musical do produtor às verdades dos artistas com os quais ele trabalha?

Mais uma vez, a resposta está no aprofundamento. No entendimento de quais são os repertórios de quem o procura para trabalhar e quais conexões podem ser feitas. Embora ainda não sejam muitos os artistas que fecham projetos, os que o fazem têm algo em comum: são pessoas que compram a briga e se dispõem a novas ideias. Foi o caso de Marabu, MC e compositor da Zona Sul de São Paulo, com quem Levi está atualmente finalizando um disco de funk. Ele explica que, como produtor, é preciso mergulhar em coisas que façam sentido na vida do artista também, mas o incentivando a sair da zona de conforto, enquanto cria uma parceria real com quem trabalha, para além da relação profissional. É fundamental não perder de vista que produzir é construir a trilha sonora da vida das pessoas, e é aí onde toda a mágica e os nascimentos genuínos acontecem.

“No resumo da fita, eu estou sendo o alfaiate do artista. Definindo as roupas certinhas para ele poder usar.”

Desde 2017, Levi assumiu um compromisso: produzir apenas projetos que tenham como principal foco as musicalidades brasileiras (imagem: Felipe C. Souza / @getup.f)

Nessas confecções artísticas, a linha que dá rumo ao futuro é o que o interessa mais. É na construção de legados que ele trabalha duro, não se permitindo morrer culturalmente, mas sem achar que está criando a roda. É sobre mantê-la girando. Levi se intitula “estagiário de nego véio”, por ter em mente que os que virão depois de nós precisarão ter fontes nas quais beber, que reflitam o tempo que vivemos, em nossos próprios contextos, exatamente como grandes artistas pretos brasileiros fizeram.

“Quando a gente cria, está contando histórias, narrativas e musicalidades de coisas milenares. Perpetuar tudo isso com novas características e novas linguagens é, de fato, dizer que estamos vivos.”

A conversa com Levi acontece em meio à finalização do disco de Obigo e, enquanto o instrumental de fundo se repete durante a mixagem de uma das últimas faixas, o que ele fala também me parece música contada em prosa e poesia. Especialmente quando o ouço comparar a vida a uma partitura, na qual ele é mais uma nota. Por falar em vida, caso visite o estúdio Nebulosa, não deixe de tomar um cafezinho, assistir a vídeos de piadas, rir com a dona Josy e trocar boas ideias sobre o que você tem feito, sentido e ouvido, pois, aqui, é exatamente assim que toda composição começa: vivendo. Vamos meter marcha na vida então, que “nóis também tem quem é por nóis aqui”.

Axé!

Obrigada, Levi Keniata.

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