por Amanda Rigamonti

Troca de cartas, oficina de culinária e laboratório de performance e criação. Tudo isso dentro da Penitência Feminina da Capital (PFC). Esse foi o projeto Mulheres Possíveis: Corpo, Gênero e Encarceramento, encabeçado por Beatriz Cruz e Sandra Ximenez (Coletivo Dodecafônico), Leticia Olivares (Coletivo Rubro Obsceno) e Vânia Medeiros (Conspire Edições). A proposta do selecionado Rumos na edição de 2017-2018 foi dar continuidade a um trabalho de formação e criação artística que estava sendo desenvolvido junto às mulheres em situação de cárcere.

A ideia teve início em uma atividade que aconteceu na Oficina Cultural Oswald de Andrade, em que diferentes mulheres que fazem performance foram convidadas para uma grande ocupação. A partir deste evento, o grupo foi abordado por André Luzzi, que estabeleceu a ponte entre as mulheres e a Secretaria de Administração Penitenciária. A partir deste encontro o projeto foi se desenhando, com algumas experiências piloto, até a decisão de inscrever o trabalho no Rumos.

Parte substancial do projeto foi uma atividade chamada Escambo Poético. Nela, mulheres de dentro e fora do sistema penitenciário trocaram cartas por cerca de um ano. Além da troca de correspondência, havia encontros das proponentes com as mulheres que estavam na PFC para debater diferentes temas – entre eles, gênero, liberdade e sexualidade. No encerramento deste ciclo, as mulheres de fora da PFC foram convidadas para um encontro com as mulheres de dentro. Foi em uma terça-feira fria de julho que essas mulheres, que trocaram tantas cartas (com palavras, desenhos, intimidades, superficialidades) se encontraram pela primeira vez.

O encontro foi repleto de sorrisos e abraços. Uma roda se formou, um óleo de gerânio foi passado para todas. Elas circularam pelo espaço e trocaram olhares. Pararam e olharam fundo nos olhos umas das outras, depois se abraçaram. Todas falaram seus nomes e compartilharam a importância do escambo para si. Por fim, as últimas cartas foram trocadas – com música ao fundo e lanche servido. Foi uma longa e intensa despedida, com promessas de continuação da conversa.

Em entrevista, Beatriz Cruz, Sandra Ximenez, Leticia Olivares e Vânia Medeiros falam sobre o projeto, que se encerrará no final do ano com o lançamento de uma publicação que reúne essa correspondência trocada.

Como veio a ideia do projeto?
Nós nos encontramos em um projeto que fizemos para a Oficina Cultural Oswald de Andrade chamado Ocupação Mulheres, Performance e Gênero. Nessa ocasião, chamamos muitas mulheres da performance para fazer uma ocupação grande lá na Oswald e um gestor da Secretaria de Administração Penitenciária entrou em contato com a gente e perguntou se gostaríamos de fazer um trabalho de gênero em alguma unidade prisional feminina. Então começamos a conversar, esse convite foi bem provocativo, muito interessante para algumas de nós. A gente continuou conversando e chegamos em um formato dessa parceria, de quatro pessoas, que iniciaram esse trabalho na PFC.

Esse é um presídio que tem uma boa abertura para receber projetos, a diretora acolhe as propostas, e a gente pensou em um projeto piloto, uma primeira abordagem que seria uma laboratório de performance para estudar os eixos corpo, gênero e encarceramento, que são os que a gente mantém no projeto até agora. Isso foi em 2016, e as integrantes, desde o início, fomos Leticia Olivares, Sandra Ximenes e Beatriz Cruz, e em 2017 entrou a Vânia Medeiros.

A gente começou com um módulo, fizemos uma experiência piloto, e depois continuamos voltando e realizando uma série de trabalhos, de formas sempre diferentes. Ou voluntariamente, também contando com o apoio do Sesc em alguns momentos, e aí um trabalho foi meio chamando o outro, a gente fazia um tempo de imersão com elas lá e já vinha a ideia para um próximo e foi indo. Foi então que começamos a escrever alguns projetos e veio o apoio do Rumos, assim conseguimos ficar mais tempo, de forma mais permanente, e isso era bem importante pra gente, fazer algo que fosse continuado.

E para reunir as mulheres de fora que participaram do Escambo Poético, parte do projeto?
O processo do escambo tem uma convocatória aberta, então através das redes sociais e de e-mail foi divulgado o processo e as mulheres se inscreviam para poder se corresponder com as mulheres de dentro.

Elas faziam uma carta de interesse na ferramenta de inscrição e a gente selecionou por representatividade, para ter uma gama de mulheres que abrangesse várias idades, tivesse diversidade, aí a gente foi tentando entender isso e o grupo realmente ficou bem interessante.

Podem me falar sobre o processo como um todo desde o início, os encontros/oficinas, escambo e a publicação que será feita?
Vai aí um ano e meio já de trabalho. Eu acho que a gente testou as metodologias que vêm sendo desenvolvidas desde 2016 com o projeto piloto, então foi uma oportunidade de organizar essas metodologias, aprofundá-las, porque a gente teve mais tempo de convivência com as mulheres dentro da penitenciária, com as mulheres fora também, nós fizemos um escambo mais estendido, então realmente criar uma rede de pessoas que estão interessadas em discutir o tema e também uma rede de apoio com as mulheres lá de dentro.

A publicação está sendo um grande desafio porque estamos no momento de organização do material. Temos muitas fotos, muitos textos, ainda estamos decidindo as pessoas que vão escrever, colaborar conosco, as convidadas, então estamos nesse momento de organização desse material.

Qual vocês diriam que é a importância de um projeto como esse? O que é importante dizer sobre o encarceramento feminino no Brasil?
A gente faz esse projeto no sentido de encontrar pistas para responder a essa pergunta. A questão do encarceramento feminino, através dos dados que vemos, é um problema social que cresce de maneira exponencial. O número de mulheres encarceradas é gigantesco e a gente gostaria de discutir os sentidos desse tipo de política. Que tipo de política de segurança é essa que aumenta em 500% o encarceramento feminino em 10 anos? Quem são essas mulheres? São perguntas que a gente não tem dadas, mas que a gente busca aproximações através desse nosso trabalho. Que não abarca uma imensa comunidade de mulheres encarceradas, mas que procura, através do que a gente consegue abarcar com a nossa experiência, chamar junto outras pessoas que estudam e discutem o tema, e por isso que a publicação tem essa importância no sentido de criar também uma plataforma onde novas discussões possam ser iniciadas e pessoas possam discutir em torno desse tema,

E a própria questão da visibilização desse problema que muitas vezes fica totalmente à margem da sociedade. As pessoas não veem que tem uma penitenciária no meio da cidade e mulheres presas, muitas vezes pela questão das drogas, que é um dos pontos que a gente pretende levantar a discussão também.

E qual o aprendizado, para vocês, desse processo?
Acho que tem o aprendizado de trabalhar em coletividade, o aprendizado de que a gente chega com uma certa bagagem cultural, de uma certa formação que a gente acredita que tem o valor X, Y, Z e que na verdade o aprendizado está aí pra ser desconstruído também, no contato com essas mulheres e com mulheres que têm situações de vida sobre as quais a gente não tem a menor ideia. Enfim, é a ideia de que é uma história de alteridade também, a gente encontrar histórias e mulheres e relações e aprendizados que a gente não tinha previsto e na verdade esse trabalho todo é muito aprendizado pra gente. Sobretudo somos aprendizes e nos colocamos nesse lugar quando vamos falar do tema.

Acho que tem essa questão de termos chegado com competências artísticas pra aplicar nesse contexto. E fomos aprendendo com elas como isso realmente pode fazer uma diferença nesses aspectos de visibilização, de discussão sobre o tema, de discussão sobre o feminismo, porque muitas vezes nós temos construídos já conceitos e ideias que a gente acha que vão servir para essas mulheres, mas na verdade tivemos que desconstruir todos esses conceitos pra conseguir realmente abordar esses temas com elas.

Acho que nenhuma de nós chegou lá como especialista nesse tema, nós fomos trabalhando a partir das pesquisas artísticas que desenvolvemos fora. E trabalhando com elas. Então eu acho que o nosso trabalho está muito a partir da subjetividade. Trabalhar isso. E do encontro, porque no fundo é um encontro de mulheres, ali. Assim como fazemos fora por vários motivos, ali é mais um desses encontros. Claro, dentro de um sistema super opressor, então o que é isso, todos esses corpos reunidos ali... Então pra gente também é descobrir isso, o que é estar ali, ser uma artista e estar ali dentro desse sistema, nesse papel, e o que isso causa. São perguntas que a gente está realizando o projeto pra tentar responder.

E apesar de termos situações sociais e econômicas e de história de vida muito diferentes, nós buscamos também encontrar pontos de contato e pontos em comum entre nós, é um lugar também de... Somos todas mulheres e, querendo ou não, estamos querendo encontrar lugares de empatia e reconhecimento umas nas outras. Nosso trabalho também parte muito desse lugar.

E acho que o nome é super pertinente. Somos todas mulheres possíveis junto com aquelas mulheres possíveis e outras. Então temos vivido aprendizados e descobertas a cada aplicação.

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